Salvador

Família ensina menina a roubar celular em lanchonete de Ondina; assista

O caso está sendo investigado pela 7ª Delegacia (Rio Vermelho)

Alexandre Lyrio (alexandre.lyrio@redebahia.com.br)
- Atualizada em
Tem cadeiras, mesas, professores, mas não estamos em uma escola. A triste lição é aprendida em família, dentro de uma lanchonete. O que se vê nas imagens que ilustram esta página é uma aula de delinquência. Uma criança de aparentemente 7 ou 8 anos é estimulada a furtar um celular.  

O curso prático acontece em um estabelecimento do bairro de Ondina, no domingo passado (1º de setembro). Um homem - que seria o pai, o tio ou irmão da criança - aponta o objeto do roubo, um  smartphone, e ensina como tudo deve ser feito. A lição é reforçada por uma senhora, aparentemente avó da garota, além de também ter a participação de uma outra mulher.   

Os ‘professores’ se valem da inocência infantil. Talvez pelo fato de uma criança, uma menina bem vestida, não despertar suspeita de quem está em volta. Mas eles nem imaginam que duas câmeras de segurança do estabelecimento flagram tudo. O CORREIO teve acesso às imagens com exclusividade.


A cena inicial é de duas famílias em uma lanchonete. Enquanto a da garota termina seu lanche, a outra ainda escolhe os sanduíches. Ao se levantar para fazer o pedido, essa última família esquece um celular sobre uma das mesas. Quando retornam do balcão, preferem se sentar em outro local. E o celular fica dando ‘bobeira’.  

É aí que se inicia a cena em que uma criança é alfabetizada para o crime. O homem se levanta e fita o aparelho. Nervoso, senta-se novamente. Segundos depois, fala com a menina, dá instruções e aponta para o celular. A senhora parece incentivar. A criança sorri. Visivelmente constrangida, mas encorajada pelos adultos, levanta-se para cometer o delito.

Enquanto caminha em direção a outra mesa, ainda titubeia, olha para trás e para a outra família. Basta ela colocar o celular no bolso e todos rapidamente se levantam para ir embora. A aula acabou, mas imagine como será o dever de casa.   

Minutos depois, o dono do celular, que está acompanhado da mulher e da filha de 3 anos, dá por falta do objeto. Professor de Educação Física, Luciano Santos Silva, de 33 anos, solicita as imagens das câmeras de segurança ao gerente do estabelecimento. Luciano ficou chocado com o que viu.

“Passei duas noites sem dormir. Não estou preocupado com o celular, mas com o futuro daquela criança. A gente que é pai fica muito triste. Para ela, fazer aquilo vai se tornar algo normal”, lamenta Luciano, que registou boletim de ocorrência pouco depois do crime. Pelo registro das gravações, o crime ocorreu por volta das 15h40.       

Identificação
O caso está sendo investigado pela 7ª Delegacia (Rio Vermelho). Apesar das imagens, a polícia ainda não conseguiu identificar o homem e as duas mulheres. A própria delegada, Jussara Souza, classificou o fato como “deprimente”.

“O importante agora é divulgar as imagens para ver se alguém reconhece. Já temos a prova de que claramente a criança subtrai o celular a mando dos adultos. É deprimente”, afirma a delegada, que agora aguarda só a identificação dos autores para poder ouvi-los. Todos os três adultos poderão responder a inquérito por corrupção de menor e furto qualificado.

“Não é somente corrupção de menor que ocorre ali. Em função da coautoria intelectual, os adultos cometem furto e ainda se utilizam de uma criança”, considera doutora Jussara. “Essa menina poderá ter um desvio
de caráter no futuro”, acredita a delegada.

O CORREIO foi à lanchonete apurar detalhes do fato, mas funcionários e a gerência do estabelecimento preferiram não comentar o ocorrido. “Eles não têm culpa. Eu me distraí com minha filha e acabei deixando o celular para trás”, disse o professor de Educação Física.

Ele até torce para recuperar o celular. Mas, mais do que isso, espera que a punição aos adultos sirva de exemplo. “Isso é um soco no estômago da sociedade. As crianças deveriam ser nossa esperança. Mas são só exemplos assim que elas têm? Cabe a nós mostrar que não. Nosso futuro pode ser diferente disso”, afirma. 

Juíza diz que, se forem os pais, poderão perder a guarda
Thais Borges

Se o homem e a mulher que aparecem nas imagens registradas na lanchonete forem os pais da menina, eles podem perder a guarda da criança. A informação é da juíza Karla Barnuevo, da 1ª Vara Cível de Salvador e que respondeu pela 1ª Vara da Infância e da Juventude até janeiro deste ano. “É uma influência negativa para a criança. Logo, eles também podem responder por corrupção de menores”. De acordo com a juíza, a garota seria encaminhada a algum membro da família. Além disso, Karla diz que a situação viola os direitos da criança. “É preciso assegurar o direito da criança de ser criada com princípios. Nessa idade, eles estão formando valores, mas, nesse caso, os pais estão ensinando a garota a se tornar uma delinquente”.

Através da assessoria, o Ministério Público do Estado (MP-BA) informou que se as investigações policiais confirmarem que a família levou o celular os adultos que aparecem nas imagens podem ser autuados por furto qualificado e corrupção de menores. A assessoria do MP-BA também confirmou que os pais podem perder a guarda da filha. Quanto à criança, se ela for maior do que 12 anos, ainda pode ser encaminhada à Delegacia do Adolescente Infrator (DAI).

Confira o vídeo: