Cinema

Filme sobre Cuíca de Santo Amaro tem estreia em Salvador dia 23

Figura folclórica das ruas de Salvador, o trovador Cuíca de Santo Amaro (1907-1964) ganha filme em sua homenagem. A estreia de Cuíca de Santo Amaro - O Poeta Mais Temido da Bahia acontece no dia 23

Doris Miranda (doris.miranda@redebahia.com.br)



Cuíca de Santo Amaro (1907-1964) tinha boca de trombone. Esbravejava para quem quisesse ouvir as notícias mais quentes ou os escândalos acontecidos na cidade e colocados para debaixo do tapete. Tudo enfeitado com sua gramática torta e discurso ácido nas revistas e livrinhos de cordel que produzia e vendia na área do Comércio - ou na frente do Elevador Lacerda ou na rampa do Mercado.

Lenda urbana, figura folclórica, personagem da mítica de Salvador, Cuíca é o grande homenageado no documentário Cuíca de Santo Amaro - O Poeta Mais Temido da Bahia, dirigido em parceria pelos cineastas baianos Joel Almeida e Josias Pires, ambos com larga experiência em temas da cultura popular. O filme estreia em Salvador, em circuito comercial, no dia 23, depois de ser exibido em vários festivais no Brasil e no exterior.

Cronista
Após o lançamento nos cinemas, Cuíca de Santo Amaro - O Poeta Mais Temido da Bahia, que vai circular por 30 cidades baianas, sai também em DVD, cujas duas mil cópias serão distribuídas gratuitamente em escolas públicas. A sugestão dos diretores é que a obra seja usada como material didático, já que possui cinco extras sobre outras figuras folclóricas da Bahia.

“Todo mundo que viveu  naquela época teve notícia de Cuíca. E a primeira ideia que se tem é que ele é uma espécie de Gregório de Matos (1636-1696) sem gramática,  um cara que detonava tudo e todos. De fato, era assim. Mas, fomos descobrindo várias facetas. Era, ao mesmo tempo, herói e anti-herói”, revela o jornalista e cineasta Josias Pires, 52 anos, que foi diretor da série de documentários Bahia Singular e Plural, da TVE.

Quem tem menos de 40 anos, provavelmente, não se lembra de Cuíca de Santo Amaro, já que sua atuação nas ruas do velho centro comercial de Salvador foi, principalmente, entre os anos 30 e 60. A esses os diretores mandam um recado: não é um filme biográfico, daqueles que contam detalhes da figura iluste, do nascimento à morte. Até porque documentar no cinema alguém de quem se tem pouquíssimas imagens disponíveis não é tarefa fácil.

“Nossa opção, então, foi mergulhar na obra dele e assim descobrimos mais de 300 folhetos escritos por Cuíca. Ele via a cidade a partir das fissuras, das camadas não reveladas pela imprensa. Por isso, era considerado um cronista social, um rito de passagem entre a velha cidade e a nova. Cuíca era o Chacrinha da rua e o Chacrinha era o Cuíca da televisão”, completa Josias.



Chacrinha
O historiador e cineasta Joel Almeida, 58 anos, explica que é um filme essencialmente de arquivo, construído com depoimentos de contemporâneos, imagens que se deslocam pelos mesmos lugares por onde o artista do povo costumava circular e a voz do ator Gil Teixeira, que revive o trovador na imaginação do público. Algumas das imagens apresentadas são inéditas, cedidas pela Cinemateca de São Paulo, e outras extraídas do filme A Grande Feira (1961), em que Cuíca, representando a si mesmo, abre e fecha o longa de Roberto Pires (1934-2001).

“Usamos também algumas sequências da Salvador atual e de animações criadas pelo diretor de arte Ian Sampaio. Além disso, usamos também algumas sequências de O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte/1962), pois  o escritor Dias Gomes (cujo livro serviu de base para o filme) se inspirou nele e criou o personagem Dedé Cospe Rima, vivido pelo ator Roberto Ferreira, e que mostra um pouco da sua estratégia de sobrevivência”, completa Joel, diretor também de Xisto Bahia - Isto É Bom (2007) e Hansen Bahia (2003).

Para o escritor Jorge Amado, Cuíca de Santo Amaro era o grande trovador da Bahia
Chapéu coco gasto por chuva de muitos invernos, terno roto e os indefectíveis óculos fundo de garrafa. Era fácil reconhecer Cuíca de Santo Amaro - que nasceu José Gomes, em Salvador - enquanto recitava,  cheio de malícia e picardia, os escândalos escondidos a sete chaves, as notícias que julgava ser do interesse do povo e as provocações que fazia a figurões de Salvador.
Havia, claro, quem não simpatizasse com o trovador popular, mas a maioria gostava daquele autodidata que imprimiu centenas de folhetos de cordel, ao longo de 25 anos, e vendeu pelas ruas de Salvador.

Um de seus maiores fãs era Jorge Amado (1912-2001), que considerava Cuíca “o grande trovador da Bahia”, como disse na matéria que escreveu para o jornal Diretrizes, em 1943, a primeira de dimensão nacional sobre o poeta cordelista. A admiração era tanta que Amado citou Cuíca em alguns livros, como Bahia de Todos os Santos (1945), Pastores da Noite (1964) e A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água (1961). “Cuíca de Santo Amaro é uma organização: escreve seus versos, manda imprimi-los, desenha ele mesmo os cartazes de propaganda que conduz sobre os ombros, vende folhetos com os poemas e canta os melhores versos para atrair a freguesia”, escreveu em Bahia de Todos os Santos.

Figura controvertida, que recebia encomendas para escrever defesas e acusações em seus “livros de história”, Cuíca tinha seu forte mesmo no cotidiano e no humor. Fazia desde denúncias contra os altos preços das mercearias de Salvador a protestos contra a Segunda Guerra Mundial.



Matéria original: Correio 24 horas
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