Comportamento

'Meus pais me mandaram para a 'cura gay' e o terapeuta abusou de mim'

Ele, é claro, nunca deixou de ser gay. Nesta sexta-feira, 17, comemora-se o Dia Internacional da Luta contra LGBTfobia

Fábio*, da Agência O Globo
"Feliz ano novo", disse o motorista sem graça em uma das paradas do ônibus que rumava para Belo Horizonte, na primeira vez em que fui "deixar de ser gay" em uma clínica especializada em regressão. Vários familiares já haviam ido lá para tratar de temas diversos — de divórcio à dependência de drogas. Minha mãe e eu tivemos que passar o réveillon na estrada, pois só havia horário na primeira semana do ano seguinte, e meu pai tinha urgência em resolver o "problema". Já era mais de meia-noite, não havia fogos nem champanhe, apenas um silêncio constrangedor.
A decisão foi motivada por uma traumática saída do armário. Fui flagrado por meu pai beijando meu primeiro namorado, aos 16 anos, na sala de casa, em um domingo chuvoso. De outra cidade, o rapaz estava hospedado em nossa casa na condição de amigo. Eu estava apaixonado e me despreocupei. Sempre escutava os passos do meu pai, pesados, atravessando o corredor que levava à sala. Desta vez, no entanto, não escutei. Como castigo, fui obrigado a me "tratar", depois de ouvir os clássicos "preferia filho morto" e "eu era feliz e não sabia". 
Na segunda vez em que fui à capital mineira, minha mãe ficou em casa, me mandando boas energias. Eu tinha recém-completado 17 anos, e a ideia era reforçar o "tratamento" iniciado seis meses antes. Por um semestre, me esforcei ao máximo para me "heterossexualizar". Ao me masturbar, por exemplo, forçava o pensamento nos seios da Feiticeira, mas minha cabeça sempre terminava no tanquinho dos Gêmeos Flávio e Gustavo, por quem eu me excitava de verdade.
Em Curitiba, cidade em que me preparei para o vestibular, beijei meninas em baladas, saí com bandos de garotos heterossexuais, mesmo querendo ficar em casa, e mergulhei no autoengano de que terminaria hétero se me dedicasse com afinco. Fiz o combinado com o meu terapeuta de Belo Horizonte, que, durante a regressão, identificou um trauma durante a gravidez da minha mãe: depois de perder o primeiro filho, após um aborto espontâneo, ela não teria desapegado da ideia de ter uma menina. Por esse motivo, segundo ele, teve um filho gay: eu.
Mesmo com tanto empenho, continuei gay . Não houve laboratório mental que me afastasse de quem eu sempre fui e sempre serei. Convicto de que nada mudaria, voltei a Belo Horizonte com outra proposta: não mais tentar deixar de ser gay. Ao contrário, ser gay e, ao mesmo tempo, conviver harmoniosamente com meus pais, que estavam desolados com o filho que redescobriram ter.
Entre sessões de neurotrons (um aparelho de eletrossonoterapia), banhos quentes e massagens, havia conversas com o terapeuta com quem havia combinado abandonar a homossexualidade. Mas ele, que estava sendo muito bem pago para me "curar da homossexualidade", abusou de mim.
Em um dos encontros com o terapeuta, depois de compartilhar meu novo objetivo, recebi o inusitado convite para sentar em seu colo. A porta da sala estava fechada. Não havia testemunhas, muito menos câmeras. No auge da puberdade, me senti atraído pela situação e não hesitei em acatar o chamado. Aos elogios, esse senhor, grisalho, menor que eu, e com idade para ser meu pai, pediu para eu abrir a braguilha. Obedeci novamente, afinal, estava diante de um guru, com quem muitos familiares já haviam se consultado e que o veneravam por sua sensibilidade. "Veja como você é lindo, saudável e cheio de vida", dizia ele ao massagear meu pênis. "Não há por que temer, vai dar tudo certo", completava. "Agora deite aqui."
Deitado na maca da regressão e já excitado, recebi sexo oral do meu "cura gay", até ejacular. "Viu só, como você é perfeito", ele disse, depois que eu gozei. Em seguida, me deu papel para eu me limpar, pediu para fechar a braguilha, e encerrou a sessão como se nada tivesse acontecido.
Assustado, saí da sala e corri para o orelhão em frente à clínica para ligar para a minha mãe, a quem confidencio (quase) tudo. Não consegui falar. Só chorava. Ela perguntou se havia acontecido algo. Eu me contentei em dizer que me sentia sozinho e que, por isso, estava em prantos. Perto da clínica havia uma pensão onde ficavam os pacientes. "É que desta vez não tem quase ninguém na pensão, mãe, daí não tenho companhia", inventei.
Oito anos depois, já em São Paulo, contei a verdade à minha mãe. E foi a vez de ela chorar e pedir desculpas por ter terceirizado uma responsabilidade que era dela e do meu pai, que até hoje não sabe de nada. Na volta do reforço do "tratamento", ele apenas perguntou se estava tudo resolvido. Respondi com silêncio. O mesmo silêncio que perdura até hoje quando o assunto é a minha sexualidade. Meu pai não me conhece por inteiro e, talvez, morra sem conhecer, dadas as limitações impostas por sua religião, o Cristianismo, e a educação rural e conservadora que teve.
Demorei oito anos para elaborar e falar para a minha mãe e meus amigos sobre o abuso sexual que sofri. Como foi algo que, aparentemente, não me traumatizou, e também por me sentir corresponsável pelo ocorrido (afinal, eu estava excitado), preferi reprimir. Não conseguia enxergar a gravidade do que aconteceu.
Os anos passaram, a maturidade veio. Refleti melhor e entendi que o não dito vira sintoma. Eu sofri uma violência e resolvi botar para fora. Pela primeira vez, faço um relato público, na certeza de que não há cura para o que já está curado.
Faço um apelo aos pais para que amem e cuidem dos seus filhos exatamente como eles são. Lá fora, a lógica do mundo é perversa, e as consequências, muitas vezes, irreversíveis.
* O nome do autor foi modificado para preservar sua identidade.