Empreendedorismo

Monique Evelle: 'O Brasil começou em Salvador e vai recomeçar em Salvador'

Durante a entrevista, Monique falou sobre a sua história, o comprometimento no desenvolvimento de novos talentos, racismo e de como ela enxerga Salvador como uma potência de desenvolvimento

Isadora Sodré (isadora.sodre@redebahia.com.br)
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“Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas”, o trecho da canção composta por Roberto Mendes e Capinam é capaz de dar o tom da caminhada agregadora de Monique Evelle, nascida no bairro de Nordeste de Amaralina, em Salvador. Com 26 anos de idade, ela já foi repórter, empreendedora, agente de transformação social e, agora, está à frente de um novo projeto do Nubank. Mesmo com tantas atribuições, a ativista garante: não chegou até aqui sozinha e mais do que isso, capacita outras pessoas  para que elas possam ir além.

“Posso sim  ser jornalista, posso sim ter as empresas (Inventivos e Desabafo Social), mas o que me trouxe até aqui, na verdade, foram as pessoas, pois eu não faço nada sozinha. Uma coisa é Monique compartilhar o que uma coletividade está fazendo, outra coisa completamente diferente é aguentar. Eu não aguento ficar sozinha, nem fisicamente, nem psicologicamente”, disse.
Empreendedora, ativista e à frente do novo projeto do Nubank, Monique garante que não chegou até aqui sozinha (foto: Divulgação)
Recentemente, a Inventivos, plataforma de educação em comunidade com micro-formações para criativos, ativistas e empreendedores, foi uma das empresas baianas selecionadas para o fundo de investimento do Google para startups liderados por negros. O que representa mais um passo para que Salvador se consolide como um centro de inovação.

Em entrevista ao portal iBahia, Monique falou sobre a sua história, o seu ímpeto de movimentação, o comprometimento no desenvolvimento de novos talentos, racismo e de como ela enxerga Salvador como uma potência de desenvolvimento e negócios.



  • Seus projetos estão sempre na direção de desenvolver, capacitar e mostrar novos talentos. De onde vem a sua força de vontade para fazer isso? Você ainda acha que muita gente ainda precisa ser reconhecida/descoberta?

Quando eu tinha oito pra nove anos, eu ganhei um livro chamado “Por uma Semente de Paz” e desde então meu sonho era ser professora. Oito anos após isso, eu criei a Desabafo Social e agora, dez anos depois, tem a Inventivos que vai quase que na mesma linha. São frentes de educação e desenvolvimento pessoal. Acredito porque eu quero e continuo querendo ser professora de certa forma, isso é educação do mesmo jeito. Não é uma educação formal que estamos acostumados e acostumadas nas escolas, universidades, mas não deixa de ser educação.

Eu brinco que quem mais importa não são as pessoas que estão no holofote, elas importam também, mas temos que enxergar os notórios anônimos, sabe? Aqueles que fazem um trabalho excelente, só que ninguém conhece. Eu acredito muito que quando eu faço um exercício de divulgar outras pessoas, outros projetos que não necessariamente eu conheço há muito tempo, mas acredito que é uma boa iniciativa e todo mundo deveria conhecer, diz muito sobre o ritual que eu escolhi e costumo fazer que é: eu não preciso ser amiga ou amigo de uma pessoa para reconhecer que ela faz um bom trabalho, né?

Eu aprendi com o Lázaro, com Taís, na peça “O Topo da Montanha”,  sobre o conceito de  “passar o bastão”. Eu sabia que era alguma coisa assim, só que eu não tinha o termo. Então, quando Lázaro fala pra passar o bastão, diz muito sobre isso. Eu tô passando o bastão do momento que eu faço ações de educação com um trabalho. Eu estou passando o bastão quando eu faço as ações que estou fazendo agora com a Inventivos que é essa plataforma de aprendizagem. Por que não vai ser só Monique não, minha gente. A gente precisa começar a se atentar pra isso. Não adianta a gente ficar na mesma bolha, com as mesmas pessoas. Eu acho massa matar a saudade, mas é muito diferente de transformar um contexto, uma realidade e tudo mais.

Agora eu sei que é possível fazer e faço com as ferramentas que eu tenho hoje, né? E com certeza eu estou conhecendo muitos notórios anônimos que são brilhantes.

  • Quais são suas principais referências?

Quando eu penso em referências, começo aqui em Salvador, tirando meus pais, claro, até por ser filha única, eles que me acompanham até hoje em tudo que eu faço. Tem Vilma Reis, que é uma socióloga incrível. Eu estou falando também de Paulo Rogério (Vale do Dendê), que, no inicio, as minhas trocas eram muito próximas com ele, ele foi muito importante pra mim no início da minha jornada. Estou falando de Fau Ferreira, que é do AfroEmpreendendo e eu chamo de notória anônima, que é Salvador faz um trabalho brilhante com muitos microempreendedores. Assim como o George, que é um menino que eu conheci com doze anos e agora vai fazer dezoito. Alguém com quem tive que aprender em questão de linguagens, o momento certo de entender o que é lugar de escuta, o que é lugar de fala.

Taís e Lázaro foram citados como referências para Monique (foto: Reprodução/Instagram)
E aí, quando eu vou ver outras pessoas de Lázaro (Ramos), a Taís (Araújo), o Danilo Ferreira, estou citando muitos baianos por uma questão óbvia. O Brasil começou em Salvador e vai recomeçar em Salvador. Fora outras pessoas que são mais distantes, mas consigo visualizar proximidades. Eu tô falando de Oprah, eu estou falando de Michelle Obama, Viola Davis e Beyoncé. Não só pelas artes delas, é pelo o movimento que elas conseguem fazer. Eu tento me inspirar nessas pessoas porque é a única forma continuar fazendo o que eu faço. Não tem como. Não tem como achar que eu brotei do nada.

  • A maioria dos jovens brasileiros ainda vivem em uma situação de vulnerabilidade social e ainda não alcançaram o empreendedorismo, por exemplo. Quais dicas você pode dar para que eles possam empreender no dia a dia? Como eles podem virar essa chave?


A situação atual do Brasil, principalmente, é  tão desesperadora e angustiante, que faz a gente segurar na mão da angústia, né? Então, a gente não consegue visualizar o futuro, a gente fica meio míope, né?

Eu realmente acredito que os sonhos se realizam, só que não vai ser sentado, sabe? Por mais que uma pessoa tenha talento, você ser cantora, artista, tanto faz, mas tem uma coisa que é muito mais importante que o talento, que é a técnica. Por mais você cante bem, nenhum atleta, nenhuma cantora é tão boa o suficiente se ela não treina. Nenhum atleta consegue ganhar as Olimpíadas se não treina aquilo. Nenhum artista canta bem senão treina as cordas vocais. Nenhuma pessoa vai empreender perfeitamente ou tão bem se não treina as ferramentas do empreendedorismo.

Outra coisa que considero importante é buscar entender as linguagens do empreendedorismo e das startups. Eu tive que criar um ritual, inclusive, comigo mesma, de entender três pontos importantes. O primeiro é ter clareza daquilo que eu realmente queria. O segundo é como teria conhecimento para que aquilo desse certo. Depois, vem as conexões:  quem são as pessoas que vão me ajudar? Em seguida, peça ajuda! Eu peço ajuda até hoje. Não tem como a gente continuar sendo sustentável e próspero nas coisas que a gente quer se a gente não tem clareza, conhecimentos e conexões. Então, tentem exercitar esse lugar de talento, técnica, clareza, conhecimentos e conexões.


  • Você saiu do Nordeste de Amaralina, morou em São Paulo, mas ainda assim fundou sua nova empresa em Salvador. Qual é a sua ligação com essa cidade?


Eu não queria sair de Salvador, foi quase expulsa, na verdade, porque  não existia um  reconhecimento de talentos na cidade, visivelmente. Não é só Salvador, como qualquer cidade do Brasil. Geralmente, a gente só olha o que tá de fora, né? E eu tive que sair de Salvador, aceitei outros desafios fora daqui, mas foi muito doloroso. E eu coloquei na minha cabeça que por mais que eu tivesse projetos aqui ainda, o Desabafo (Social) é aqui, há Inventivos é aqui, eu não queria voltar, retornar, a morar, a conviver, pagar IPTU na cidade se não fosse da grandiosidade que a cidade merece, e no tempo que a Salvador realmente estivesse preparada, porque eu acredito no tempo das coisas. Eu acho que o momento é agora.

Filha do Nordeste de Amaralina, Monique já morou no Rio e em São Paulo e hoje tem Salvador como referência de amor e trabalho (foto: Divulgação)

Essa relação de amor com a cidade, mas entender que a evolução do meu amor mudou um pouco, é amor e trabalho, faz com que eu consiga enxergar Salvador com o cuidado que ela merece também. Porque, às vezes, a gente tem muita ansiedade, tem que ser, faz agora e  ter cada um tempo longe, fez com que eu fosse um pouco mais paciente com a cidade, mas ao mesmo tempo acelerar algumas ações, porque a gente vai perder talentos de novo. E foi o mesmo ciclo, a gente perde talentos de novo.

Estar em Salvador é ótimo, mas a cidade já avançou alguns estágios. Antes era só lugar do turismo, agora no lugar da inovação e eu acredito que inovação é fazer funcionar. E se a inovação é fazer funcionar, gente, Salvador faz funcionar. Precisamos enxergar Salvador com três coisas: sociedade, poder público e poder privado. Eu, como sociedade, não vou conseguir mudar se o poder público não entende e o poder privado não facilita, sabe?

Minha relação com o Salvador evoluiu de amor para amor e trabalho e eu espero que isso chegue pra maioria das pessoas, eu tenho feito esse movimento. Porque eu não quero que a galera vá embora. Eu quero que os melhores talentos dessa cidade fiquem, né? Porque é desesperador ver as pessoas indo embora e nunca mais voltando. Eu pude voltar,  tem gente que não volta.

  • Há alguns anos, Salvador era vista apenas como um local de turismo e serviço. Há pouco mais de cinco anos, essa história começou a mudar e começou a ser vista como ponto de inovação, tecnologia e inovação até pela comunidade internacional. O que você acha que proporcionou essa virada?


Tem muito a ver com mentalidade e não estou falando apenas de gestão. Existem pessoas hoje, empreendendo, com uma perspectiva muito diferente do antes. Quando a gente pensa em economia criativa, o olhar de fora, é de que Salvador é a gastronomia, a cultura, música e pronto, Economia criativa é isso também, mas não só isso. Economia criativa tem a ver com tecnologia, tem a ver com comunicação, com publicidade. Dá pra ver que algumas empresas, negócios, empreendimentos estão surgindo em outras vertentes da economia e reforçam que tecnologia,  a comunicação, a publicidade, a arquitetura, também fazem parte do ecossistema de Salvador.

É excelente que a gente tenha baiano de acarajé, patrimônio histórico da humanidade. Salvador é isso também. E tem um outro lado, assim como tem o Vale do Dendê, assim como tem a Afro Saúde, assim como tem a Afroempreendendo, Wakanda. Tem um outro lado que pulsou, inclusive, mais nos últimos três anos que fez com que a  mentalidade de construção coletiva da cidade mudasse um pouco a configuração. O que é excelente, porque isso significa coexistência, né? Porque Salvador também é plural, dentro das suas diversidades, nas suas dificuldades, pois sabemos que nem tudo são flores, ainda mais pensando em periferia de Salvador, mas sem dúvidas foi a mentalidade de uma galera que começou a surgir e enxergar um outro lado da economia criativa que estava pulsando em outros lugares do Brasil e do mundo e agora está também em Salvador.

  • Falando em comunidade internacional, nessa semana pelo menos 2 startups baianas foram selecionadas para receberem o incentivo do projeto do google destinados a negócios geridos por negros no Brasil. Uma delas é a sua empresa, a Inventivos. Como você vê esse momento?

Eu nunca fui atrás de investimento nesses dez anos e a gente aceitou aplicar para Google, não apenas pelo dinheiro, porque dinheiro é importante, ninguém paga boleto aqui com amor, com propósito, né? Não sou louca. Mas tem uma coisa da marca Google. É importante a gente estar próximo de empresas que façam sentido pro nosso próprio negócio, né? Eu Monique, enquanto pessoa,  já tinha um relacionamento interessante com o Google em outras área, consumindo conteúdo, participando de eventos, outras coisas totalmente diferentes. Lucas (companheiro e sócio de Monique), por ser da tecnologia também, engenheiro...

Inventivos, empresa de Monique e Lucas, foi uma das empresas que receberam o fundo de investimento do Google (Foto: Divulgação)

Surgiu o fundo direcionado para as pessoas negras, falei, “eu acho que a primeira aplicação tem que ser Google”. Primeiro, foi uma das primeiras empresas a pensar em algo exclusivo para a população negra. A gente movimenta muito dinheiro, é um  trilhões no ano. Se não investirem na gente, não tem como triplicar esse valor, não só em consumo, nos produtos, serviços, como criação, intelectualidade, produtividades.

A importância da marca Google estar com essas empresas passa também por uma questão de validação. O olhar que existe com a negritude, por conta do racismo, interfere decisivamente na hora da pessoa colocar o dinheiro ou não. Uma coisa é conversar  por email, uma coisa é estar  me vendo, sabendo que eu sou preta, que sou nordestina, tenho 26 anos, tenho dreads, são muitas coisas atravessadas que fazem com que os investidores nem consigam ouvir direito o seu negócio. Por isso, é significativo ter uma marca como o Google investindo e acelerando, né? Porque não é só o investimento em dinheiro. Existe um acompanhamento aí por um tempo e você faz parte do ecossistema do Google. É um bom início pra nós.

  • Hoje temos um panorama de negros e negras em posições de liderança e à frente de empresas diferente do víamos antes. A que você atribui a essa mudança?


Todas mudanças estruturais eu não acredito que seja da minha geração ou da geração que está chegando. Sueli Carneiro de setenta anos tá viva. Ela passou o bastão pra gente, por exemplo. Eu acho que tá havendo um diálogo inclusive entre gerações. Hoje a gente fala com facilidade sobre dinheiro, sobre querer ganhar dinheiro, mas isso não significa que a gente concorde com este modelo, significa que a gente precisa estar dentro e criar outras coisas, outras narrativas, outros modelos.

O que eu sinto é que a gente reage mais do que cria ou que age. Porque são tantos estímulos do racismo que a gente vai reagindo. Acontece alguma coisa, a gente reage na internet. Acontece outra coisa, a gente cancela, fica reagindo. E eu cansei, assim, de reagir, sabe? Eu vou entender o que tá acontecendo pra depois criar a partir disso, agir a partir disso.

E por ver essa geração mais nova falando sobre dinheiro, você vê que popularizou o Black Money. Isso é um consenso entre todos os movimentos, jamais será. Pessoas são diferentes, inclusive a comunidade negra são diversas, são plurais. Eu sou uma pessoa que fortalece o Black Money. Se eu vou consumir, eu sei que eu vou consumir algo criado majoritariamente por pessoas pretas, desde restaurantes, roupas, acessórios, qualquer coisa.

  • Como seria um futuro ideal para você?

O  futuro perfeito seria o momento que a gente não precisasse ter que desenhar tudo, porque é muito exaustivo. Eu poderia ser muito mais produtiva criando outras coisas, gostando de outras coisas. Eu não gosto, não gosto do racismo, sabe? Eu gosto de música, por exemplo. Você gosta de ir à  praia, isso é uma questão de gosto, né? Práticas anti-racistas, anti machistas, existem por uma questão de necessidade.

Nesse futuro perfeito, seria se eu pudesse apenas criar a partir do meu gosto que outra pessoa crie a partir do seu gosto, mas por enquanto não é possível, mas com essa lógica de colaboração que a comunidade preta  e periferia faz talvez a gente acelere algumas coisas.

O futuro não precisa ser exaustivo, precisa ser equilibrado. É diferente. Se for mais equilibrado, as pessoas vivem bem e se vivem bem, criam coisas incríveis, até mesmo para a coletividade.  A gente contagia positivamente a coletividade, quando a gente tá bem. Então, se eu não tô bem, sempre vou criar pensando em um  problema absurdo, estrutural, que eu não vou dar conta de resolver sozinha. O futuro ideal é  não estar exausta por falar o óbvio fazer o óbvio, porque o que estou  criando é muito óbvio

  • Quais são os caminhos que Salvador deve trilhar para caminhar ainda mais no sentido de uma cidade inovadora?


Eu que tá rolando já um movimento assim colocar Salvador no mapa global de inovação, de economia criativa. Tem um modo são as secretarias novas agora, né? A prefeitura mudou. . Então, quando muda, muda algumas gestões de secretarias. Anteriormente, não tinham pastas essas pastas de tecnologia, inovação, e hoje tem. Isso é um movimento importante. Assim como o Nubank tá vindo pra Salvador, que é o maior banco digital independente do mundo. Isso já diz para o mercado que empresas podem vim pra Salvador, sabe?

Estão surgindo mais startups, ou seja, empresas de base tecnológica com sede em Salvador, mas que atuam em qualquer lugar do mundo.  O movimento tá acontecendo, agora a gente tem que sustentar e ficar lá esse movimento, né? Temos que manter o que está funcionando. Aqui as empresas têm tudo:  sustentabilidade, diversidade, inovação, criatividade

Temos que criar uma outra narrativa comercial, sabe? O mesmo esforço que a gente colocou para incluir Salvador como a capital da música e do Carnaval, agora precisamos colocar Salvador no mapa global de inovação e tecnologia desse mundo.