Dia das Mães

Na real: mães relatam as verdadeiras dificuldades e delícias da maternidade

Conversamos com quatro mães sobre a importância de falar sobre maternidade real, as expectativas, a realidade e os mitos que envolvem esse universo

Cláudia Callado (claudia.callado@redebahia.com.br)

No imaginário popular, uma mãe é um ser quase não humano: ama incondicionalmente, está sempre disponível, não erra e nem tem o direito de errar, já que tem alguém dependendo dela. Essa romantização da maternidade é ainda mais vista perto do Dia das Mães, onde tudo, quase que literalmente, são flores. Mas por trás do que as propagandas mostram, existem mães de primeira viagem descobrindo um novo mundo, lidando com expectativas e frustrações.  

Amigas de infância, Luíza, Thaís e Tainã engravidaram na mesma época / Foto: Arquivo pessoal

“O que a gente ouve antes de ser mãe é uma coisa, depois que você é, vê que na prática é outra.  Então, antes de ser mãe, é tudo lindo. É aquele mundo materno, muito lindo, muito colorido. E quando você vive isso na pele, existe um outro lado de dificuldade, de olheira, de noite sem dormir, de exaustão que ninguém conta. Então desromantizar a maternidade traz alívio. Essa troca de ideias com outras mães traz uma coisa mais humana, como se todo mundo tivesse mais tranquilo”, descreve a empresária Thaís Meirelles, mãe da pequena Maria, de 1 ano e oito meses.  

“A troca de experiência entre as mães ela engrandece, ela fortalece, alivia a culpa, tira o peso que é colocado através de uma cultura onde a mulher tem que se calar”, completa.  

Quando fala de troca com outras mães, Thaís conseguiu ter isso de perto. Ela engravidou na mesma época de duas amigas de infância, a arquiteta Luíza Spínola e a engenheira de produção Tainã Queiroz. Juntas, elas compartilharam momentos da gestação e seguem compartilhando momentos da maternidade.  

Apesar da parceria, Luíza, mãe de Dom, de um ano e sete meses, destaca que cada mãe é uma e a importância de não colocar todas elas – e todos os filhos – em uma mesma caixinha, como se existisse sempre o certo e errado. “A cobrança da sociedade, familiares, amigos, é a principal trava para a liberdade de um maternar individualizado. Não existe mãe igual a outra, nem filho igual ao do vizinho. Cada um tem seu jeito, sua rotina, não podemos nos comparar, mas sim criar parâmetros para rever nossas atitudes”. “Cada mãe e cada bebê tem uma singularidade”, reforça Thaís.  

As três amigas durante a gestação de Marcelo, Dom e Maria / Foto: Arquivo Pessoal

Tainã Queiroz, mãe de Marcelo, de um ano e oito meses, diz que o que mais a surpreendeu foi o tamanho da entrega. “Quando você não é mãe você não tem noção do quanto você precisa se dedicar. A criança é responsabilidade sua. Diria que é cinco vezes pior do que você imagina, sabe? (risos).  Você é mãe ‘full time’. Quarenta e oito horas por dia.  Mesmo quando você consegue deixar com outra pessoa, quando você tem uma boa rede de apoio, ainda assim, você está com aquele pensamento ali, no seu filho. Você não consegue mais se dissociar, nunca, desse sentimento de responsabilidade mesmo”, explica. 

Para as três, que sempre tiveram o sonho de ser mãe, apesar do mundo romantizado ser bem diferente da realidade, tudo vale a pena. “Ser mãe é melhor coisa que já vivi”, enfatiza Luíza.  

A responsabilidade de influenciar 

Buscar informações fez toda a diferença para as três amigas no processo de desromantização da maternidade. Para elas, se informar foi um meio de evitar possíveis problemas e paranoias.  

Hoje em dia, o que não falta é conteúdo sobre maternidade. Livros, documentários, filmes, internet e, claro, outras mães. Serão informações de todos os lados e é necessário um filtro. “Os palpiteiros de plantão são muitos. Já as pessoas que lhe admiram e deixam você seguir a maternidade do seu jeito, elas são poucas, mas elas são especiais. E necessárias”, destaca Thaís. 

Tuka vive em Israel com Íris e o marido / Foto: Reprodução / Instagram

Nesse universo de influência, Tuka Sampaio está dos dois lados. Ela é influenciadora digital e produziu muito conteúdo durante a gravidez da sua primeira filha, Íris, e segue mostrando às seguidoras o dia a dia de uma mãe de um bebê de, hoje, seis meses. Mas também precisou consumir muita informação para se preparar para esse novo mundo. 

“Durante a gestação eu acabei lendo muito sobre maternidade e gravidez em si. Mesmo sabendo que não dava para estar 100% pronta para a nova aventura, acreditei muito que ter conhecimento sobre sono, rotina, amamentação... facilitariam minha jornada. E facilitou”, contou a influenciadora, que é soteropolitana, mas vive em Israel, com a filha e o marido. 

Tuka destaca que nunca foi de “romantizar nada”, e os depoimentos dos outros a faziam ter medo da maternidade.  “Todos repetiam que minha vida ia acabar, que eu não ia ter tempo para nada, que eu nunca mais ia dormir. Quando minha filha nasceu eu fiquei surpresa positivamente. Era mais fácil que eu imaginava, tirei de letra os desafios pois me preparei para eles”, ressaltou. 

Como influenciadora, Tuka conta que recebe agradecimentos diários por mostrar a realidade da maternidade. “As mães são pressionadas diariamente a cumprir metas que só existem na teoria. São cobradas diariamente para que voltem ao corpo pré-parto, para que o bebê durma a noite toda, para que você introduza bicos artificiais ou dê mamadeira ‘para dormir melhor’. A ausência de empatia com as mães atrapalha muitas maternidades, a falta de crença na amamentação, os mitos antigos e a invalidação das decisões familiares, principalmente em mamães e papais de primeira viagem”, reflete. 

Assim como Thaís, Luíza e Tainã, Tuka defende que cada maternidade é única e é isso que tenta passar para quem acompanha seu trabalho, tanto no Instagram quanto no YouTube.  

Amamentação 

Com tantas novas informações, situações e momentos, uma rede de apoio é muito bem-vinda. O pai da criança, a mãe da mãe, parentes, amigos e também profissionais podem auxiliar nesse processo. E um dos processos mais complicados para muitas mães é a amamentação. 

Em Salvador, a Calma Consultoria Aleitamento, que atua há mais de 30 anos, ajuda as gestantes e puérperas nesse processo que tanto assusta. “Não é um glamour como parece. Muitas têm dificuldade, inclusive dificuldade de saber se estar fazendo certo. As mulheres ficam na preocupação de como é que eu vou me sair nessa nova fase”, explica Anara Carvalho, enfermeira da Calma.  

Anara destaca que seu trabalho ajuda a derrubar mitos sobre a amamentação, como o da mulher não ter leite. Para a profissional, essa é uma questão que mexe muito com o emocional das mulheres. “Gera todo uma questão psicológica. A gente mesmo tem aquela questão de se culpar, né? Ficamos nos perguntando o que que eu fiz de errado, dizendo não ser capaz. Isso tudo aliado a uma questão hormonal que já deixa a mulher mais melancólica. A gente tem atendido algumas mulheres com nível de depressão grande. E a gente sempre fala que ninguém nasce sabendo, você aprende na prática”, explica a profissional. 

A enfermeira destaca ainda que o trabalho da consultoria vai além da prática e passa por incentivos às gestantes e puérperas, sempre se colocando à disposição para ajudar. 

Mitos 

Perguntamos às mães ouvidas pelo iBahia quais são os mitos da maternidade que mais as incomodam e o porquê. Confira! 

Foto: Reprodução / Instagram

Bebê viciado em colo 

“O mito do bebê viciado em colo me deixa muito irritada. Nenhum bebê vicia em colo. Então tem mães que sofrem tentando acostumar o bebê a ficar longe delas, enquanto as pessoas a pressionam quando elas "dão colo demais" à criança. O bebê nos três primeiros meses nem entendem que nasceram. A mãe é tudo o que ele conhece, tudo o que ele precisa. Ela é segurança, ela é alimento, ela é casa. Para o bebê, inicialmente, ele e a mãe são uma só pessoa, a mãe é extensão do corpo e da existência dele. Imagine só olhar para o seu braço e não ver a sua mão. Para o bebê, não sentir a presença da mãe é a mesma coisa. Ele precisa dela e ela é o mundo dele”, Tuka Sampaio, influenciadora e mãe de Íris, de seis meses. 

Leite forte ou fraco 

“Acho que a amamentação é um tabu ainda. Meu filho tem um ano de sete meses e “ainda” mama, e já vejo olhares maldosos em relação a isso. É escolha nossa, minha e dele. É saudável para ambos. E em nenhum momento me sinto na obrigação de amamentar, ou na obrigação de desmamar. É um sentimento e ponto. Até os seis meses ele amamentou exclusivamente e nunca pegou mamadeira ou nenhum outro complemento. Cheguei a querer introduzir um leite artificial, por exaustão mesmo, não conseguia dormir de noite, e ainda não consigo. Mas é um período da vida somente, e vai passar. Vou olhar pra trás e vou agradecer pela minha persistência, tenho certeza”, Luíza Spínola, arquiteta e mãe de Dom, de um ano e sete meses. 

Cultura da romantização 

“É cultural falar e imaginar a maternidade como algo muito, muito leve, muito confortável, muito feliz. E de fato tem essa parte, mas não podemos esquecer da outra parte. É importante falar das dificuldades pra que as pessoas sejam mães mais conscientes, sejam mães entendendo que não é só aquele mundo maravilhoso que nos espera. Durante muito tempo a mãe se cancela, ela vive em função de um serzinho, ela vive em prol daquela criança, daquele bebê que não sabe nada, depende exclusivamente dela. Então, o mito da maternidade pra mim sempre foi esse, de só se falar da parte boa. Como se não quisesse que a mãe soubesse da outra parte”, Thaís Meirelles, empresária e mãe de Maria, de um ano e oito meses. 

Durma enquanto seu filho dorme 

"Mães precisam viver também", resumiu Tainã Queiroz, engenheira de produção e mãe de Marcelo, de um ano e oito meses.