Comportamento

Não é só com você: saiba o que causa a ausência do orgasmo e como ‘chegar lá’

Especialistas explicam que dificuldade de atingir orgasmo pode ter a ver com questões hormonais, mas também psicológicas

Carlos Bahia* (carlos.filho@redebahia.com.br)
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A ausência de orgasmo é um problema mais comum do que se imagina. Mesmo sendo mais frequente em mulheres, a anorgasmia atinge também os homens e pode ter raízes em diversas questões tanto de cunho hormonal quanto envolvendo a parte psicológica. Para os homens, a dificuldade em atingir a ereção se dá por um viés semelhante. O iBahia conversou com especialistas para entender porque você e várias outras pessoas podem sofrer com isso, e como buscar uma solução para o problema.

Antes de tudo, é importante entender que o orgasmo é apenas uma das etapas do Ciclo da Resposta Sexual, de acordo com o modelo desenvolvido pelos pesquisadores americanos Masters e Johnson, na década de 1960. "O orgasmo é o ápice do prazer sexual, ou seja, é a conclusão do ciclo de resposta sexual que corresponde ao momento de maior prazer. Pode ser experimentado por ambos os sexos, dura apenas poucos segundos e é sentido durante o ato ou a masturbação", explica a educadora sexual Cris Arcuri ao iBahia.

Essa seria a terceira etapa do Ciclo, que tem a excitação e o platô antes do orgasmo, e a resolução após ele. "O orgasmo é a resposta que o cérebro libera para o corpo, do auge do seu prazer através dos hormônios do bem estar, liberando sensações de prazer, amor, afeto, euforia e de relaxamento para o nosso corpo", complementa Cris.

Porque a dificuldade das mulheres em alcançar?
Como é de se imaginar, a ausência de orgasmo, ou anorgasmia, atinge mais as mulheres. Segundo a pesquisa do Projeto Sexualidade (ProSex) da USP, divulgado em 2016, mais da metade das entrevistadas disseram ter dificuldade para chegar ao orgasmo. Essa condição se dá por diferentes situações, como explica o ginecologista Hugo Maia Filho, da clínica Elsimar Coutinho.

O especialista destaca dois pontos: "A educação repressora que a mulher sofre causa essa ausência de orgasmo. E a situação hormonal envolve o baixo nível de testosterona, que mesmo sendo um hormônio mais presentes em homens, é importante para ativar o prazer sexual no cérebro", diz. A relevância do hormônio para as mulheres vai além da questão sexual. "A testosterona protege o coração, artérias, diminui as chances de câncer de mama e doenças do coração ou degenerativas do cérebro", complementa o médico.

Além desses fatores, Cris Arcuri destaca outras condições que podem levar a anorgasmia:

  • Condições médicas, como diabetes;
  • Histórico de cirurgias ginecológicas, como uma histerectomia;
  • Uso de certos medicamentos, particularmente os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs) para depressão;
  • Crenças culturais ou religiosas;
  • Timidez;
  • Culpa ou preconceito relacionado ao prazer de desfrutar de atividade sexual;
  • História de abuso sexual;
  • Condições de saúde mental, como depressão ou ansiedade;
  • estresse;
  • Baixa autoestima;
  • Problemas de relacionamento, como conflitos não resolvidos ou falta de confiança.

Todos esses podem agir de maneira individual ou conjunta para levar ao quadro. "A incapacidade de atingir o orgasmo pode levar ao sofrimento, o que pode tornar ainda mais difícil atingir o orgasmo no futuro", conta a especialista.

Não sobe mais?
A situação incômoda também pode atingir os homens, e muitas das condições citadas anteriormente, como diabetes, uso de antidepressivos e questões psicológicas, são a origem para isso também no sexo masculino. O urologista Gabriel Atta, da clínica Elsimar Coutinho, aponta o excesso de testosterona como uma das grandes causas para a ausência do orgasmo no homem. "Vivemos uma epidemia de vigorexia (o oposto da anorexia, ou seja, o indivíduo acha que está sempre fraco, com poucos músculos). Com isso, as pessoas não se conformam com o corpo que tem e vão em busca de anabolizantes, especialmente de animais como cavalo ou gado", opina.

O excesso da testosterona pode causar atrofia nos testículos, além da impotência sexual. Esta, por sua vez, não se relaciona com a ausência do orgasmo de maneira direta. "Para se ter percepção da ausência de orgasmo, é preciso ter uma ereção plena", sintetiza o médico.

Segundo Gabriel esse processo desencadeia a chamada falsidade ideológica erétil, onde o homem usa um medicamento para manter a ereção sem que a parceira ou parceiro perceba. Além disso, a dificuldade em se manter ereto tem origem também em questões psicológicas. "O hormônio do estresse (cortisol) causa a disfunção, pois tiram sangue dos vasos periféricos (como os do pênis) e mandam para o coração", explica.

Tem solução?
Cris Arcuri explica que o orgasmo tem tempos diferentes em cada um dos sexos. "Depois do orgasmo, ambos os sexos passam pelo período chamado refratário, uma fase de recuperação antes que se possa engatar uma nova atividade sexual. Para elas, esse período é bem mais curto que para os homens: em poucos segundos, a maioria das mulheres já estaria apta para experimentar mais prazer. Já entre eles esse período de recuperação tende a ser maior, sendo que muitos esgotam suas atividades sexuais diárias depois de um único orgasmo", explica.

Com isso, ela acredita que o melhor caminho é o diálogo e o autoconhecimento, através da masturbação. "Se por um lado, o sexo foi ensinado sempre com a penetração, por outro lado, também foi ensinado a servir o outro, portanto, nunca valorizando o auto toque, a auto estimulação para se chegar ao prazer".

O ginecologista Hugo Maia acompanha o pensamento. "A primeira coisa nesses casos tem que ser o diálogo, para ajudar a mulher que já se sente coibida para conversar esses assuntos", finaliza.

*Sob orientação da repórter Lívia Oliveira