Comportamento

Por que o Dia Internacional da Mulher é para reflexão, e não para dar parabéns

Dia internacional da Mulher é um dia, principalmente, de mobilização, não de homenagem

Agência O Globo

Muito se fala sobre o motivo de o 8 de março ter sido escolhido o Dia Internacional da Mulher. Há controvérsias sobre sua origem, geralmente associada a um incêndio que matou 125 mulheres em uma fábrica têxtil, em Nova York, em 1911. Mas é fato que a data foi motivada pela luta operária e pelos movimentos políticos — e torná-la um dia sobretudo de festa é uma maneira de apagar o protagonismo das mulheres na História.

A socióloga Eva Blay, professora emérita da USP e uma das principais pesquisadoras da data, explica que a jornalista alemã Clara Zetkin (1857-1933) propôs a criação da efeméride sem definir um dia exato, ao participar do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhague, em 1910.

Dois anos antes, nos Estados Unidos, no último domingo de fevereiro de 1908, mulheres já haviam feito uma manifestação a que chamaram Dia da Mulher, reivindicando o direito ao voto e a melhores condições de trabalho. Em 1909, o Dia da Mulher aconteceu em 26 de fevereiro, em Nova York, com duas mil mulheres em passeata por melhores condições de trabalho — suas jornadas chegavam a 16 horas por dia.

O incêndio frequentemente apontado como o motivo para a criação da data só foi acontecer em 25 de março de 1911. Naquela época, era comum os empregadores trancarem as portas e cobrirem os relógios durante o horário de trabalho. A  Triangle Shirtwaist Company empregava 600 pessoas, a maioria mulheres imigrantes judias e italianas, com idades de 13 a 23 anos. Com chão e divisórias de madeira, grande quantidade de tecidos e retalhos e  instalação elétrica precária, o fogo se propagou rapidamente. Morreram 146 pessoas, sendo 125 mulheres e 21 homens, na maioria judeus. O terreno em que funcionava a fábrica hoje abriga a Universidade de Nova York.

Desde então, manifestações pelos direitos das mulheres acontecem em todo o mundo. O 8 de março foi oficializado pela ONU como o Dia Internacional da Mulher em 1975.

— As mulheres sofrem muitas violências. Físicas, salariais e discriminação no ambiente de trabalho. O 8 de março é um dia especial para suas reivindicações por igualdade de diretos e oportunidades — diz Eva.

Ou seja, o Dia internacional da Mulher é um dia, principalmente, de mobilização, não de homenagem a pessoas especiais com flores e bombons. Pode e deve haver gentileza. Mas “adocicar” a data faz a mulher retornar a um lugar “essencialista”, frisa  Carla Rodrigues, filósofa, professora da pós-graduação em Filosofia da UFRJ, pesquisadora da Faperj e coordenadora do laboratório de pesquisa "Escritas, filosofia, gênero e psicanálise" (UFRJ):  essencialmente frágeis, essencialmente dóceis, essencialmente delicadas. Apaga a relação entre mulheres e luta.

As mulheres já conseguiram muitas vitórias, mas ainda há muito o que caminhar. Conquistaram espaço no mercado de trabalho, mas os salários são menores, e elas chegaram a menos a posições de chefia. Estão na universidade, mas ainda há exploração. Há autonomia, mas muitas vezes as mulheres não podem andar nas ruas sem medo. E liberdade é não ter medo.

No Brasil, a cada dois segundos uma mulher é vítima de violência física ou verbal; a cada 1,4 segundo há uma vítima de assédio; no trabalho, as mulheres ganham 77% do salário dos homens.

No dia de hoje, e nos outros também, ao encontrar uma mulher, mais do que oferecer flores, o melhor é olhar para ela e dizer que a acompanha em sua luta.