Empreendedorismo

Por que Salvador é apontada como referência de inovação negra na América Latina?

Em uma lista publicada pelo site norteamericano especializado em tecnologia, a capital baiana é incluída na lista de tendências para se ficar de olho em 2021

Isadora Sodré (isadora.sodre@redebahia.com.br)
- Atualizada em

Para além das lindas praias e dos ricos traços de cultura e história, Salvador guarda outra grande potência: a de inovação e empreendedorismo negro.  Em uma publicação do site norte-americano especializado em tecnologia, Rest Of World, a capital baiana é apontada como um dos pontos para se prestar atenção em 2021 e é considerada uma referência de inovação tecnológica negra na América Latina.

Salvador é considerada um ponto de tecnologia e inovação negra na América Latina (foto: divulgação)
Mas, afinal, como esse lugar foi conquistado e agora ganha cada vez mais espaço diante do mundo? O empreendedor e consultor Paulo Rogério apontou alguns fatores que fizeram com que Salvador conquistasse esse reconhecimento. Ele é o cofundador da Vale do Dendê, aceleradora baiana criada em 2016 que capta investimentos e promove consultorias para empreendedores baianos, com foco em afrodescendentes, mulheres e moradores da periferia.

“Não podemos centralizar tudo na Vale do Dendê, é claro, mas tivemos um papel importante na criação de uma nova narrativa para Salvador. Quando criamos a aceleradora, fizemos um workshop com empreendedores, estudantes, grandes empresas e o poder público para conversarmos sobre o assunto. Percebemos que precisávamos criar uma nova vertente para a cidade que fugisse do turismo, que também é muito importante, mas queríamos que a capital baiana tivesse um ecossistema de empreendedorismo e inovação. Agora, cinco anos depois, estamos colhendo os frutos disso”, contou.

Segundo Paulo, os setores público e privado começaram a se movimentar nessa linha na direção de conceber Salvador como uma cidade criativa e inovadora. Os resultados começaram a aparecer internacionalmente.

Esse movimento também resultou na criação de um ecossistema empreendedor e, através disso, jovens talentos de tecnologia e inovação foram sendo revelados ao longo dos anos. Todo esse movimento atraiu empresas internacionais como o Google que instaurou uma parceria com a Vale do Dendê para a aceleração de negócios promovido por pessoas negras na Bahia.
Foto: Reprodução/Nappy
Paulo também pontuou que um maior número de pessoas negras em cargos de liderança e à frente de startups é uma mudança que está sendo percebida na cidade. Porém, há diversas coisas que ainda precisam ser conquistadas, pois existe uma questão histórica grande que leva tempo para ser superada.

“Vai levar algumas décadas para a gente visualizar melhor isso, mas tenho certeza que  teremos uma mudança acelerada. O setor corporativo está oferecendo mais vagas destinadas para profissionais negros e foi entendido que é importante ter essa diversidade. Do lado do empreendedorismo, a gente tem muitos jovens talentosos que não se reconhecem no mercado de trabalho e querem criar a sua própria empresa”, pontuou o consultor.

Quanto ao futuro de Salvador, Paulo Rogério é otimista. “Acredito que vamos colher bons frutos de todo esse processo se o país se estabilizar economicamente. Há uma tendência maior de participação de segmentos sociais historicamente discriminados na economia. Nosso esforço agora também é atrair empresas nacionais para que elas se instalem na cidade e tragam cada vez mais investimentos”.


Conheça startups baianas de tecnologia e inovação lideradas por pessoas negras



Tata Ribeiro, uma das fundadoras da Aimo Tech, startup de tecnologia educacional, é formada em design e desde nova sempre se envolveu muito com a área tecnológica. A paixão pela educação e o desejo de criar soluções reais para as pessoas resultaram na criação dessa startup que hoje impacta a vida de centenas de estudantes baianos.

Tata é uma das fundadoras da Aimo Tech (foto: Jeferson Devon/Divulgação )
A AimoTech é uma startup que trabalha com tecnologias educacionais, pautada pela acessibilidade e não depende exatamente de dispositivos tecnológicos. A empresa oferece soluções para desenvolver ainda mais os estudantes, aprimorar processos educacionais e auxiliar na formação de professores na concepção de vídeo aulas.

“Queremos ajudar os alunos, principalmente da rede pública, a pensarem e a produzirem diante do conteúdo que já existe. Isso possibilita a abertura para que algo novo possa ser produzido por eles. Quando a gente faz isso na educação básica, que é o nosso foco, melhoramos a educação superior e o processo educacional como um todo”, explicou Tata.

Na pandemia, eles promoveram um financiamento coletivo para distribuir kits makers para estudantes da rede pública. A ideia é incentivar a cultura do “faça você mesmo” que estimula a criatividade e a autonomia dos jovens. Além disso, serão disponibilizados também cursos online. O recurso da iniciativa foi conquistado através de um financiamento coletivo, mas a empresa também recebe outros incentivos .

Os kit makers são constituídos por atividades do estilo 'faça você mesmo'. Como eles são distribuído para estudantes do quinto ao novo ano, as atividades são ligadas à arte e à tecnologia. São propostas atividades relacionadas a construção de autônomos, com linguagem semelhante à robótica. Há também elaboração de objetos através de papel e ações relacionadas à arte de linguagem digital e história em quadrinhos. 
Kit Maker distribuído para estudantes da rede pública (foto: reprodução/Instagram)
“Desde que abrimos a startup em 2018 só tivemos crescimento no nosso faturamento. Isso demonstra a demanda do mercado por tecnologias e mostra a maturidade de Salvador nesse sentido econômico”, pontuou Tata.



A trajetória no meio da comunicação de Lucas Reis começou cedo, logo na graduação. Foram os passos que ele tomou ao longo da pós-graduação unidos à vontade de empreender e ao gosto por análise de dados que deram origem à Zygon.

A empresa, da qual Lucas é CEO, é especializada em soluções de mídia programática, análise de dados para compreensão dos públicos-alvo, além de fornecer treinamentos e apoiar a jornada on-line de anunciantes.

“Com mestrado e doutorado na área de análise de dados, percebi que era viável aproveitar as oportunidades de comunicação e tecnologia. Abri a minha primeira empresa, uma agência digital, logo quando me formei, em 2009. Em 2016 tivemos essa ‘virada de chave’ para focar mais em publicidade digital, no uso da tecnologia de dados e automação para comunicação personalizada”, explicou Lucas.

Lucas Reis sempre quis ser empreendedor (foto:Divulgação)
Lucas considera que o ato de empreender é uma missão e que não se enxerga fazendo outra coisa além disso, já que a carreira corporativa nunca o empolgou muito. O CEO da Zygon disse ainda que enxerga uma mudança Salvador tanto na área dos negócios quanto no aumento de pessoas negras em pontos de liderança, mas ainda há muito o que melhorar e mudar.

“Salvador era uma cidade meio fora do cenário de inovação do Brasil, mas ganhou muita relevância nos últimos tempos e criou um ecossistema de inovação, onde pessoas trocam ideias, investimentos e informações. Quanto ao aumento do número de pessoas negras à frente de empresas e startups, vejo que isso partiu do movimento ‘black money’, onde negros e negras criaram uma rede de apoio, indicação e incentivo para se fortalecerem. O cenário mudou, mas ainda está longe de ser um espelho da diversidade social da cidade e ainda precisa evoluir muito”, pontuou.

Da faculdade de história para o mundo dos games: esse é um pedacinho da trajetória de Filipe Pereira, um dos fundadores da empresa baiana de jogos Aoca Game Lab. Tudo começou quando ele foi convidado pelo grupo de pesquisa de jogos ‘Comunidades Virtuais’, da Universidade Estadual da Bahia, para testar alguns projetos. Daí acabou ficando, se desenvolveu e, em 2018, fundou a startup de games. Como os projetos eram pautados em games históricos, Filipe conseguiu unir os dois interesses.

Equipe Aoca (Foto: divulgação)
“De lá pra cá focamos mais, tivemos mais captação de recursos, lançamos o nosso jogo que se passa no sertão brasileiro, o ÁRIDA (clique aqui para comprar e baixar) e investimos no lado de desenvolvimento de games em geral. Também propagamos o nosso trabalho para o mercado internacional”, explicou Filipe.

Como o jogo ÁRIDA ainda não é rentável por si só, a startup se mantém também com desenvolvimento de parte de projetos para empresas, mas a ideia é fortalecer ainda mais o game e estender ele para os consoles.

“Antes Salvador tinha uma efervescência maior no mundo dos games, mas hoje as empresas desse nicho apresentam mais maturidade empresarial. O mercado está crescendo sim, mesmo com alternâncias. Continuamos buscando investimentos e estamos nos articulando cada vez mais”, disse Filipe.
ÁRIDA foi criada com base nas tradições, elementos e histórias do sertão (foto: reprodução)

Gildevan Dias é um dos profissionais que trabalham na Aoca e entrou no time da startup em 2019. Formado no curso superior tecnológico de jogos digitais, ele via o mundo dos games apenas como diversão, mas o que antes era apenas uma ‘brincadeira’ se converteu em trabalho.

“Comecei como testador de qualidade e hoje em dia também faço parte do time de game design e design de narrativa. Para além do que  faço, é muito bom aprender com as pessoas que estão na empresa há mais tempo. Para a narrativa do jogo trazemos questões históricas de pesquisas, além de experiências pessoais. É algo que gosto muito de fazer”, relatou.