Empreendedorismo

Quer empreender? Saiba as áreas que são tendência em 2019

Com mais de 12 milhões de desempregados no Brasil, 'virar patrão' é uma necessidade cada vez mais real

Agência O Globo

Brasileiro quer empreender: dois terços da população (66%) desejam abrir a própria empresa para ter mais liberdade e autonomia, segundo uma pesquisa realizada pela MindMiners, encomendada pelo PayPal. E, em uma época com muitos desempregados (são 12 milhões no país, segundo o IBGE), “ser patrão” acaba virando uma necessidade.

 Representantes de instituições que fomentam o empreendedorismo nacional listam algumas atividades que são tendências para este ano. As franquias também surgem como opção.

— O brasileiro historicamente empreende por necessidade. E isto está mudando. Estamos observando cada vez mais empreendedores bem preparados à frente de novos negócios de alto crescimento. Dos empreendedores apoiados nos programas da Endeavor, observamos muitos que trabalhavam em grandes empresas, no mercado financeiro ou em consultorias e, com a experiência e a vontade de empreender, resolveram seguir esse caminho, atacando problemas claros do mercado de forma bem estruturada —explica Luis Felipe Franco, Head de Aceleração da Endeavor.

Foto: Reprodução

Para João Gabriel Hargreaves, diretor do Instituto Gênesis da PUC-RIO, que incuba startups , as crises econômicas tendem a acentuar o número de empreendedores por necessidade, pois o desemprego leva as pessoas a buscar no empreendedorismo uma nova forma de sustento. Já o número de empreendedores por oportunidade tende a diminuir, por conta do mercado contraído.

— No entanto, grandes empresas nascem e prosperam na crise, pois mesmo em momentos complicados ainda existem grandes oportunidades em nichos específicos de mercado. A situação tende a mudar de acordo com as alterações no contexto econômico e político do país — considera.

Fintechs

Neste sentido, ele observa que o empreendedorismo brasileiro em 2019 acontecerá em duas frentes: para suprir as necessidades do desemprego atual e também as demandas do mercado.

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— Nesta última frente, temos uma alta tendência de criação de fintechs . Ou seja, empresas que trabalham com blockchain , inteligência artificial, indústria 4.0 e que utilizam outras tecnologias inovadoras — diz.

Saúde, cidades inteligentes e agronegócio

Franco, da Endeavor, cita como destaque do ano os negócios voltados para saúde, cidades inteligentes e agronegócio.

— Pelo fato de o Brasil ter deficiências sistêmicas nos dois primeiros, surgem oportunidades para empreendedores atacarem estes problemas e desenvolverem soluções que tragam benefícios para os usuários e para a população de forma geral. Já o terceiro, agronegócio, é o grande motor da economia brasileira, o que torna este mercado extremamente atrativo para empreendedores —acredita.

Alimentação gourmet

A gerência de conhecimento do Sebrae Rio monitora cinco grande setores da economia fluminense — construção civil, moda, turismo, alimentos e petróleo, energia e gás — e consegue perceber a tendência de cada uma. De acordo com Cezar Kirszenblatt, gerente de Conhecimento e Competitividade do Sebrae Rio, no setor de gastronomia, por exemplo, há uma forte tendência à ecogastronomia, crescimento da consciência ambiental voltada para orgânicos com valorização maior da produção rural. A alimentação gourmet e a confort food — resgate dos pratos da infância não encontrados mais no mercado — também vão aparecer com bastante força.

— Na moda, vemos o crescimento da moda atemporal, ou seja, ter um tecido que passe pelas várias estações, por conta da crise financeira — sinaliza.

No campo de petróleo, gás e energia, Kirszenblatt acredita que o mercado voltará a aquecer com os leilões e com o preço favorável do petróleo. Neste sentido, os drones que vão mapear instalação de torres de campos petrolíferos, por exemplo, serão mais procurados.

Para quem quer investir no setor de turismo, o gerente do Sebrae considera que uma das tendências é no turismo inclusivo — como levar o portador de deficiência para experiências de aventuras.

Turismo inclusivo

— As agência de viagens vão ter que se especializar cada vez mais. Existe espaço para diferentes tipos de turismo, como o de observação, em as viagens valorizam a ambientação e o meio ambiente, e o enoturismo (roteiro de vinhos). Outro tipo é o de saúde, que vem crescendo muito na Europa. Neste, o turista vem ao Rio para fazer um check-up e aproveita para fazer turismo — afirma ele, citando como fonte do estudo os portais Sebrae Inteligência Setorial e Rio Oportunidades de Negócios.

Terceira idade e bem-estar

As franquias são uma opção atraente para quem busca um negócio já formatado e testado. Eliane Bernardino, presidente da Associação Brasileira de Franchising no Rio (ABF Rio), aponta algumas tendências do setor para este ano, como as franquias voltadas para o público da terceira idade — tanto no segmento de educação como nos de saúde e alimentação, entre outros. Os negócios focados em ingredientes naturais e no bem-estar das pessoas, também tem potencial de crescimento.

— Negócios em que a marca defenda uma causa ou se apresente ao mercado com um propósito claro, mesmo sendo tradicionais no seu conceito geral, também tendem a ganhar diferenciação e fidelidade —salienta.

André Luis Soares Pereira, sócio fundador do Grupo Soares Pereira & Papera (GSPP), consultoria de desenvolvimento de redes de franchising, também vê o crescimento dos produtos para a terceira idade, e aposta também em negócios voltados e com produtos para o público gay, produtos de pet, produtos de beleza, produtos digitais, serviços de reforma e consertos em geral.

— Este último cresce em decorrência da crise que afeta nosso país, o que leva o consumidor a reformar mais os produtos em vez de comprar itens novos —analisa.

Pereira destaca que um franqueado de sucesso deve ter algumas características essenciais para empreender. Ele cita comprometimento, espírito empreendedor, liderança, network , ser bom negociador e saber mediar conflitos.

Na opinião de Eliane Bernardino, da ABF, a principal característica é entender que abrir um negócio próprio implica em correr certos riscos.

— Por exemplo, é não ter décimo terceiro salário, férias, FGTS e benefícios como vale refeição e plano de saúde, o que normalmente um executivo espera quando trabalha no regime CLT — lembra ela.

Eliane acrescenta que ser empresário significa investir na montagem do negócio, escolher e coordenar equipes, lidar com fornecedores e clientes, pensar e repensar continuamente no conceito mercadológico da operação, contribuir com a sociedade por meio da geração de emprego, renda e recolhimento de impostos e, ao final, se houver sucesso, colher os lucros.

— É uma realidade totalmente diferente do mercado de trabalho tradicional — compara ela.

Aprendizado constante

Em agosto do ano passado, o engenheiro Vitor Mansur, de 29 anos, decidiu investir em uma franquia depois de anos de trabalho no setor de óleo e gás. Como sempre se identificou com a parte de engenharia civil, optou pela Helphome, empresa de reformas, obras e reparos.

— Era do mercado corporativo, então o empreendedorismo por si só já é um grande desafio. Nunca fui uma pessoa de vendas, e tive que aprender esta competência para administrar o negócio — relata ele.

Quem sempre foi empregado pode aprender a ser empreendedor. Para Claudio Corrêa, professor da Escola de Negócios da Universidade Celso Lisboa, quem não se sente preparado tem hoje muitas fontes para chegar a este objetivo, como livros, cursos, palestras, teses etc.

— Nunca se considere “formado” em empreendedorismo, mas continue buscando novas fontes de aprendizado — ensina ele.

Muitas dessas fontes estão disponíveis na internet sem qualquer custo. O professor de empreendedorismo da Unicarioca Marcos Ferreira lembra que o empreendedor de hoje deve ter a rede como um forte aliado., È lá que poderá buscar informações antes de começar um negócio, interagir com os clientes e também pesquisar fornecedores e ver seus concorrentes.

—Informação, planejamento e comunicação formam a chave para o sucesso de um negócio — diz ele.