Economia

Quer saber como tirar as contas do vermelho no Ano Novo? Confira

Segundo especialistas, falta ao brasileiro fazer o básico: listar seus gastos e fugir das compras por impulso e do crédito caro

Agência O Globo
A relações públicas Giovanna Bizelli, de 24 anos, já fez sua promessa de Ano Novo: não quer mais usar o cheque especial como renda complementar. Giovanna tem um limite pequeno, de R$ 500, mas desde agosto passado incorpora quase todo o valor a seu orçamento doméstico. Começou usando R$ 100 para pagar despesas do dia a dia, como o supermercado; no fim, já estava consumindo R$ 400 daquele limite e se viu em apuros. Paga os juros todo mês, mas, na ponta do lápis, não faz ideia de quanto já abateu do seu saldo. Resultado: terminará 2018 no vermelho.
Foto: Divulgação
— Sou despreparada para ter cartão de crédito, então prefiro o cheque especial. Quando o salário cai, ele cobre a conta. O problema é que cada vez vai sobrando menos dinheiro — admite a jovem. — Agora, estipulei que só vou recorrer a ele em caso de emergência. A meta é ficar no azul em 2019.
Todo fim de ano a dúvida é a mesma para quem vê as contas no vermelho: como organizar as finanças e iniciar o novo ano no azul? Segundo especialistas consultados pelo GLOBO, os brasileiros sequer fazem o básico do planejamento financeiro. Não sabem quanto gastam, compram por impulso e acabam incorporando ao orçamento linhas de crédito com juros estratosféricos, como o cheque especial da Giovanna. Por isso, na virada do ano, a recomendação é que os devedores tomem decisões simples mas essenciais para reequilibrar as contas dali para a frente.
O uso indiscriminado do cheque especial foi um dos cinco principais vilões do equilíbrio financeiro este ano, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil. Outra pesquisa, do aplicativo de finanças pessoais Guia Bolso, mostra que o desembolso com juros chegou a R$ 10,8 bilhões.
— As pessoas gastam sem fazer planejamento. Não têm uma reserva de emergência quando precisam e acabam recorrendo a linhas de crédito pré-aprovado, como o cartão de crédito ou o cheque especial, que são as mais caras do mercado. Esse comportamento resulta em descontrole financeiro e pode acabar em inadimplência — alerta José Vignoli, educador financeiro do SPC Brasil.
Ciranda financeira
O estudo da CNDL e do SPC Brasil revelou que, até novembro, 63,1 milhões de pessoas estavam inadimplentes. Os principais “culpados” são o crediário (65%) e o cartão de crédito (63%). O empréstimo pessoal em bancos ou financeiras aparece em terceiro lugar na lista, citado por 61% dos entrevistados. O cheque especial foi apontado por 57% dos ouvidos na pesquisa. Os percentuais elevados indicam que, frequentemente, deve-se a vários desses vilões ao mesmo tempo.
Se colocasse suas despesas no papel, Giovanna Bizelli certamente teria evitado o cheque especial. Segundo Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor de pesquisas econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), a taxa média dessa modalidade de empréstimo é de 11,84% ao mês. No ano, o acúmulo de juros correspondente a 282,97% — ou mais de 43 vezes a taxa Selic, referência do mercado para a composição de juros.
— Uma pessoa que utiliza R$ 1 mil no cheque especial por 12 meses paga R$ 2.829,71 em juros. Quem entra nessa ciranda financeira precisa parar, cortar despesas e fazer um planejamento — recomenda Oliveira.
Sair do cheque especial é a primeira providência recomendada por especialistas. Vignoli, do SPC, sugere também que a pessoa nessa situação recorra a linhas de crédito mais baratas, como o consignado (com juros médios de 2% ao mês) ou o empréstimo pessoal (cujas taxas são de 3,9% ao ano, em média).
— O cheque especial foi criado como instrumento para uma emergência, não é capital de giro — afirma.
Além disso, ele recomenda um planejamento mínimo dos gastos mensais. São muitas as planilhas eletrônicas que ajudam os endividados a cumprir a tarefa. O site da Bolsa B3, por exemplo, disponibiliza para download tabela que ajuda a organizar o orçamento. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) também oferece planilha que pode ser baixada e usada off-line. Na seara dos aplicativos, o Guia Bolso ajuda as pessoas a ter controle sobre o orçamento.
— Muita gente nem se dá conta, mas o dinheiro do salário vai embora nas pequenas despesas. Este ano, os brasileiros gastaram R$ 1,3 bilhão só pagando tarifas bancárias. Muita gente nem utiliza os serviços oferecidos pelo banco e poderia estar no pacote básico, que é gratuito — diz Márcio Reis, diretor de dados e pesquisas econômicas do Guia Bolso.
Os especialistas recomendam ainda que o orçamento seja discutido em família, o que ajuda a definir prioridades. Rever hábitos de consumo ou de lazer pode ser o primeiro passo. O seguinte é separar pelo menos 10% da receita para começar uma reserva de emergência, que deve ser equivalente a pelo menos seis meses do salário.
A expectativa é que 2019 seja melhor do ponto de vista econômico, com recuperação do emprego e melhora da atividade. Portanto, diz Vignolli, haverá uma conjuntura mais favorável para começar essa reserva financeira.
— Não é deixar de viver, mas, sim, revisar os hábitos. Na época do crédito fácil, em 2011 e 2012, muita gente adquiriu hábitos acima das condições financeiras que tinha. Agora, é preciso rever essas despesas e eleger prioridades, como moradia, educação ou mesmo lazer — conclui Vignolli.