ESPECIAL JUNINO 2021

'Tivemos que andar 4 km na lama', relembra Leo Estakazero sobre início de carreira

Cantor falou sobre pandemia, perrengues do início da carreira e os 20 anos na estrada com a Estakazero

Malu Vieira* (malu.vieira@redebahia.com.br)

Se você já passou um São João na Bahia, deve ter dançado forró ao som de ‘Encosta Neu’, sucesso romântico da banda Estakazero, formada lá no início dos anos 2000. Durante esses 20 anos de carreira recém completados em março de 2021, a banda tem colecionado histórias e sucessos, mas talvez o maior desafio tenha sido se manter durante a pandemia da covid-19. 

O iBahia conversou com Leo Macedo, o vocalista da banda. Ele desabafou sobre a tristeza do segundo ano consecutivo sem São João, falou sobre os perrengues do início da carreira e comentou sobre a polêmica envolvendo uma live de São João no ano passado. Confira a entrevista completa: 

  • Como a paixão pela música surgiu na sua vida?  

Na família eu tenho a música muito forte. Minha mãe é professora de música e dava aula de iniciação musical para crianças, então eu literalmente tinha uma professora em casa. Meu pai também gosta muito de música e é uma pessoa muito musical. Eu cresci ouvindo música de qualidade, como Gilberto Gil e Chico Buarque.

Pela influência de minha mãe eu acabei estudando trompete, canto e violão, e acho que foi um privilégio crescer nessa família tão musical. Digo que meu ouvido foi lapidado desde cedo.  

  • A música sempre esteve presente na sua vida, mas como foi a chegada do forró? 

O forró foi minha profissionalização, porque gostar de música é uma coisa e viver de música é outra.  Como eu falei, sempre fiz música e quando entrei na faculdade comecei a tocar em barzinho e criei a banda “Colher de Pau”, com primos e amigos. Era uma banda de garagem, a gente tocava forró e era para curtir, entrar nas festas e beber de graça.  

A banda foi crescendo e pela primeira vez eu vi a possibilidade de viver de música, até porque a gente cresce ouvindo que músico não ganha dinheiro. Em 1997, ainda no século passado, nós fomos eleitos a banda revelação no São João de Amargosa, que era (e ainda é) uma cidade com um super São João. Então a pura verdade é que não fui eu quem escolheu o forró, ele que me escolheu. E eu não pude deixar essa oportunidade passar. 

Nessa época, a gente não tinha nem disco, tocávamos as músicas de outros cantores, então decidimos que iríamos nos profissionalizar e gravar nosso disco. A banda conquistou um espaço muito legal aqui em Salvador, mas depois eu tive que sair para montar a Estakazero. 

  • E como se deu o surgimento da Estakazero? Por que esse nome? 

Neste processo de profissionalização, a banda [Colher de Pau] começou a ter muitos atritos, muitas discordâncias de pensamento. Uns se dedicavam mais, outros menos e eu praticamente abri mão de tudo: faculdade, emprego e até a namorada da época para me dedicar exclusivamente à banda, diferente do resto da galera. Então eu percebi que a única chance seria começar um novo projeto do zero, ou seja, voltar à estaca zero - daí surgiu o nome. 

A banda Estakazero foi uma banda formada com planejamento, com o propósito de ser forró pé de serra, acompanhando o movimento pé de serra que estava estourando no Brasil inteiro com a banda Fala Mansa. Acho que a Estakazero puxou esse movimento aqui.  

  • A Estakazero fez 20 anos de carreira em março deste ano e se tem uma coisa que acontece na estrada é perrengue. Quais foram os perrengues mais insanos que vocês já tiveram que encarar?  

Tiveram alguns perrengues ao longo da carreira, mas têm dois que foram perrengues de verdade, não sei se vários artistas passaram por isso. O primeiro perrengue foi no nosso primeiro São João e eu não diria que foi só um perrengue, mas também uma prova de profissionalismo. A gente tinha uns dez shows para fazer em três dias e depois da primeira apresentação, na volta, o ônibus quebrou. A banda ainda tinha mais dois shows naquela noite e outros três no dia seguinte e eram shows muito importantes. 

Fotografias antigas que retratam os 20 anos de estrada da banda | Reprodução: Instagram 

Para conseguir atender esses shows a gente ficou pulando de ônibus em ônibus na estrada, contratamos ônibus no interior, fomos com motorista bêbado, um motorista levou a gente e não voltou para buscar, ficamos com as malas no meio da estrada... E no dia seguinte a gente tinha show na fazenda de Bell Marques, o Forró do Lago, e o último ônibus que a gente tinha conseguido furou o pneu. Nós estávamos praticamente certos de que íamos perder esse show e de última hora passou um ônibus vazio e deu carona para a gente! Se a banda tivesse feito corpo mole, ficaríamos queimados logo no primeiro São João. 

Um outro perrengue foi em Ibicuí, no Forró Te Comia. Neste dia teve uma chuva forte e foi praticamente uma calamidade, o evento deveria ter sido cancelado, mas as pessoas já estavam na festa e não tinham como voltar. Uma parte da estrada que dava acesso à festa era de barro e o acesso estava muito perigoso, tinham carros capotados no caminho. Por causa disso, as bandas que iam tocar, Calcinha Preta e Mastruz com Leite, não conseguiram chegar. O público estava ficando revoltado e o contratante foi falar com a gente desesperado, chorando, pedindo que a gente não desistisse também.  

  • Este é o segundo ano sem as comemorações de São João por causa da covid-19. O que vocês têm feito para se manterem ativos e contornar essa situação?

Quando a segunda onda começou no final de 2020, a gente realmente tomou consciência do tamanho da situação, da gravidade. Este é o segundo ano sem São João e não sabemos se serão três anos sem a festa, até porque as notícias do mundo inteiro mostram isso. Países que começaram a vacinar, mas depois a curva voltou a subir, aparecem novas variantes [...] Ainda não se sabe quando essa loucura vai acabar. 

Este ano nós estamos fazendo lives e lançamos músicas novas. Claro, 20 anos de carreira, a gente queria comemorar com shows, mas infelizmente temos que aceitar e não deixar a peteca cair. Lançamos uma música com Flávio José dia 18 de junho e vamos gravar com outros artistas também para comemorar esses 20 anos. 

Mas é difícil se manter produtivo, se manter de cabeça erguida. Para sobreviver, na música tem muita gente fazendo outras atividades, como aulas de instrumentos e Uber. Até parece que eu estava prevendo, porque já há um tempo eu falava com meus músicos que era importante ter uma outra atividade, porque viver de arte é uma arte mesmo. 

Nosso trabalho precisa de aglomeração e hoje aglomerar é crime. Eu tenho recebido convites para fazer algumas apresentações em barzinhos, mas prefiro não fazer, até porque como eu vou fazer forró para as pessoas não se abraçarem, não se encostarem? Prefiro respeitar os decretos e focar em outras atividades, sem perder a minha prioridade que é a música. 

Último São João presencial da banda, em 2019 | Reprodução: Instagram
  • Em 2020, aconteceu uma live de São João na qual cada estado do nordeste escolheu um artista para se apresentar. Na época, o artista escolhido para representar a Bahia não era do cenário do forró e você gravou um vídeo que viralizou nas redes sociais falando sua opinião sobre o assunto. Você acredita que existe um preconceito com o forró aqui na Bahia? 

Não é uma questão de preconceito não. Olha que eu não falei isso em entrevista nenhuma, porque foi uma polêmica, uma confusão e resolvi deixar de lado. 

A música baiana é muito forte, nós temos muitos artistas conhecidos nacionalmente e aí os outros movimentos acabam ficando abafados. Isso acontece com o reggae e com o forró da Bahia, que fora do estado não são tão conhecidos. Apesar de termos um São João muito forte, o maior do Brasil, os artistas de forró mais famosos não são daqui, são da Paraíba, Ceará... Não tivemos artistas de forró com grande repercussão nacional. 

Diante disso, vários artistas da música baiana, axé e pagode, como Léo Santana e Ivete Sangalo, são bastante conhecidos. O que falei naquela época era que escolher um artista que não era do forró tinha sido equivocado e injusto, mas depois eles até colocaram o Forró do Tico participando, então foi uma saída legal.  

Eu me posicionei, dei minha opinião e teve uma grande repercussão, o público do forró mostrou sua força. Mas na verdade essa escolha [feita pela live] foi meio que natural mesmo. O que achei incrível foi a iniciativa de fazer a live, aquilo não tinha precedentes e é muito louvável.  

  • O que a gente pode esperar do próximo São João com a Estakazero? 

Esperar o de sempre: nosso som, nossa música. Eu fico muito feliz de nossa história estar sendo lembrada neste momento de pandemia. Nesse momento de ausência, as pessoas procuram em suas memórias as histórias que viveram, as músicas que marcaram e a banda tem um papel que foi muito importante para o forró da Bahia, escrevemos muitas músicas que tiveram impacto na vida das pessoas. E quando tudo voltar ao normal, esperamos todos bem juntinhos e aglomerados nos nossos shows.  

*Sob supervisão da repórter Lívia Oliveira