Brasil

Último índio de povo massacrado vive há 23 anos em isolamento; veja vídeo

Vídeo divulgado pela Funai reforça necessidade de proteção das terras indígenas

Sérgio Matsuura, de Agência O Globo

Ele não tem nome, família, nem companheiros. Passou os últimos 23 anos em completo isolamento, após seu grupo ser dizimado em conflitos de terra numa região remota no sul do estado de Rondônia. Conhecido como “índio do buraco” — por escavar covas de aproximadamente três metros de profundidade nas palhoças onde vive —, é o último habitante da Terra Indígena Tanaru, uma área florestal de uso restrito com 80 km² encravada entre cinco fazendas de pasto e agricultura mecanizada. Arredio e traumatizado, foge ao perceber a presença dos agentes que fazem o monitoramento. Em apenas uma oportunidade foi filmado, e o vídeo acaba de ser divulgado pela Funai (Fundação Nacional do Índio).

Foto: Reprodução/ Funai

Altair Algayer, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé (FPE Guaporé), conta que os primeiros relatos sobre a presença de um grupo indígena isolado na região surgiram na década de 1970. Por causa de conflitos com grileiros, madeireiros e fazendeiros, esse povo era constantemente forçado a se mudar e seus integrantes foram morrendo. Após um ataque em 1995, o grupo que já era pequeno — segundo relatos, formado por apenas seis membros — foi reduzido a apenas uma pessoa, o “índio do buraco”.

No ano seguinte, a Funai, enfim, conseguiu confirmar a presença de índios na área após encontrar vestígios de acampamentos, mas o “índio do buraco” só foi avistado em 1997. A confirmação permitiu a criação da Terra Indígena, em 1998, que tem como objetivo proteger os índios, mas enfurece fazendeiros que são proibidos de produzir nas áreas demarcadas. Mesmo com a presença da Funai, o “índio do buraco” foi alvo de atentados: a área só será protegida enquanto ele viver.

— Onde o índio está, a terra é dele. Isso é garantido pela Constituição — explica Fany Ricardo, especialista em povos indígenas isolados no Instituto Socioambiental. — Mas, se o índio morre, o uso da terra é liberado. Então, os interessados tentam matá-lo.

De dois em dois meses, uma equipe da FPE Guaporé faz operações de monitoramento para avaliar a situação do indígena. Para ajudá-lo a sobreviver, deixam sementes e ferramentas nos locais por onde ele passa.

— É um sobrevivente. É natural para ele conseguir caça, fazer pequenos cultivos, então o sustento não é a questão. O que me impressiona é a parte mental, como ele consegue trabalhar a cabeça para passar todo esse tempo sozinho — diz Algayer. — Certamente participava de rituais, festas, usava pinturas pelo corpo, produzia cerâmica. Isso tudo foi perdido e superar essa perda deve ter sido muito difícil. E ele conseguiu.

Foto: Reprodução/ Funai

Isolamento é decisão do índio

Desde 1987, a Funai tem uma política de não fazer contato com povos indígenas isolados, mas de garantir a proteção dos territórios por eles ocupados. Como o “índio do buraco” estava solitário, foram feitas tentativas de aproximação, mas ele sempre mostrou claramente que não desejava ser contatado. O antropólogo e cineasta Vincent Carelli participou da descoberta dos primeiros vestígios e avistamentos.

— Sempre que a gente encontrava a cabana onde ele estava, ele se mudava — relembra. — Em uma oportunidade, ele se escondeu em uma cabana de caça, e conseguimos cercá-lo. Ele ficou lá dentro por seis horas, sem emitir nenhum som. A gente nem sabe se ele é mudo.

A última tentativa de contato aconteceu em 2005 e acabou com um funcionário da Funai ferido por uma flechada no pescoço. A primeira reação do indígena é fugir, mas, ao se sentir ameaçado, ele pode atacar. Contudo, não existem relatos de que ele tenha ameaçado ou atacado moradores de comunidades vizinhas.

O monitoramento é realizado por meio de incursões no território. “Com rede e mochila nas costas e dias de caminhadas”, conta Algayer. Até agora, já foram identificadas 48 palhoças usadas pelo índio como moradia, além de campos de caça e pequenos cultivos de mandioca, milho e outras variedades. Em todas as casas existe um buraco, com cerca de um metro de comprimento por meio metro de largura e três de profundidade. É possível que a cova seja usada para armazenar água ou sirva de esconderijo.

Os sertanistas que estudam o índio pouco sabem sobre seu passado e sua cultura. Segundo Algayer, são poucos os registros em imagens, já que ele sempre percebe a presença dos agentes e foge sem ser visto. Nessas duas décadas de monitoramento, não há um único registro em áudio para a identificação da língua, e os arcos e as flechas são similares aos de todos os outros povos da região. O vídeo divulgado esta semana, gravado em 2011, foi a única oportunidade em que os funcionários da Funai conseguiram se aproximar sem serem notados.

Implicações políticas

Nas imagens é possível ver um homem, aparentemente forte e saudável, usando um machado para derrubar uma árvore. Algayer calcula que ele tenha cerca de 55 anos. Foi o barulho das machadadas que permitiu aos sertanistas identificar exatamente onde estava o índio, para que se aproximassem sem serem vistos. As imagens tremidas, com pouco mais de um minuto de duração, repercutiram em todo o mundo. Para Fiona Watson, diretora da ONG Survival International, a divulgação do vídeo neste momento tem implicações políticas.

Com a força da bancada ruralista, o Congresso tenta aprovar leis que dificultam a preservação dos territórios indígenas, como a PEC 215/00, que transfere do Executivo para o Legislativo a competência de aprovar demarcações de terras, e o PLP 227/12, que abre portas para a exploração comercial de riquezas em terras indígenas.

— Este vídeo não é apenas uma curiosidade. Ele serve para chamar atenção da sociedade de que esse homem só existe por causa dos sertanistas que estão lá trabalhando. Sem a Funai, ele já estaria morto como os outros do seu grupo — destaca Fiona. — Existem políticos de Mato Grosso e Rondônia que negam a existência de índios isolados. Acusam a Funai de inventá-los para proteger terras que poderiam ser usadas para a exploração. Eles existem, e o vídeo prova isso.

A especialista destaca que o Brasil é o país com o maior número de povos indígenas isolados. Segundo dados da Funai, existem 28 grupos confirmados e 86 em avaliação, sendo 26 em estudo e os outros 60 apenas com indicações. E a tragédia do “índio do buraco” não se restringe a Tanaru. Na Terra Indígena Pirikpura, em Mato Grosso, restam apenas dois homens.

— O nosso “progresso” reduziu as florestas e os povos indígenas diminuíram com elas — lamenta Algayer. — O “índio do buraco” está nessa situação não porque ele quer. Cabe a nós garantir que ele tenha a liberdade de viver, bem e em paz, dentro da floresta.