Música

Amy Winehouse resgatou as raízes do soul que voltou a ser sucesso

Com uma voz poderosa, a cantora inglesa impulsionou o chamado "neo soul", ao lado de cantoras como Adele, Janelle Monáe, Rox e Sharon Jones

Lívia Rangel (livia.rangel@redebahia.com.br)
- Atualizada em
Amy Winehouse vendeu mais de 10 milhões de discos, com apenas dois lançamentos

A cantora Amy Winehouse deixou milhões de fãs órfãos na tarde do último sábado (23), após ser encontrada sem vida em seu apartamento, em Londres. A breve passagem da polêmica artista, que durou apenas 27 anos, foi intensa e, na música, o rastro de sucesso deixado pela britânica, criada ao som de jazz, não poderia ser diferente. Graças ao seu talento - e as inúmeras polêmicas -, a soul music voltou a ser pop, e, ao lado de conterrâneas como Adele e Rox e as americanas Janelle Monáe e Sharon Jones, ajudou a impulsionar a chamada "neo soul" ou música retrô.

Depois da boa aceitação de "Frank" (2003), o seu álbum de estreia, viria o grande sucesso da sua carreira, o disco "Back to Black" (2006), que trazia a marca registrada da cantora: ser uma artista completa de voz marcante - comparada a divas da black music e do jazz como Aretha Franklin e Etta James -, que interpretava letras autobiográficas, repletas de ironia e dores de amor. Os músicos da banda The Dap-Kings, que acompanham a cantora Sharon Jones, fizeram uma participação impecável no segundo álbum de Winehouse, resgatando a magia da soul music, unindo ainda a linguagem do funk e hip hop.

A soul music de Amy se voltou às raizes influenciando o visual da artista, que ditou moda com a maquiagem forte de olhos puxados e o coque inspirado nos anos 50, e conquistou as paradas de sucesso com os hits "Rehab" e "Back to Black", vendendo mais de 10 milhões de discos pelo mundo e levando cinco Grammys para casa.

Junto a Winehouse surge um time de jovens vozes poderosas da inglaterra com Adele, 21, que disputa com os Beatles no ranking de músicas mais vendidas na internet. Além do também britânico James Blake, 22, que estreou em disco, em fevereiro deste ano, com elogios em sites e revistas do mundo todo; e a cantora Rox, 21, que lançou o disco "Memoirs" e emplacou o single "My Baby Left Me" na trilha da novela global Araguaia, além de ser bem recebida pelos britânicos, que incluíram a moça nas listas de promessas de 2010.
As cantoras Adele, Janelle Monáe e Sharon Jones fazem sucesso no embalo retrô
Nos EUA, a soul music ganha novo fôlego com a veterana Sharon Jones, que esteve em Salvador, em apresentação memorável no TCA, e que emprestou a sua banda para gravar com Amy em "Back to Black". Outra aposta do neo soul numa versão mais funkeada é Janelle Monáe, que abriu os shows da turnê de Amy aqui no Brasil e incorporou um topete em seu visual. A gênese da chamada neo soul surgiu na década 90 com a chegada das belas e talentosas cantoras Laurin Hill, Erykah Badu e Alicia Keys, que misturavam rimas do hip hop com música gospel e R&B.

Para o produtor Pedro Albuquerque, curador do BMW Jazz Festival, que aconteceu em junho em São Paulo, esse retorno às raízes se personifica na figura do instrumentista americano Gabriel Roth, da banda The Dap-Kings. Roth colaborou para o sucesso de Amy Winehouse, tocando e atuando como engenheiro de som no CD "Back to Black", lançou Sharon Jones e mantém uma gravadora, a Daptone, na qual os sintetizadores são "proibidos". "Tudo o que tocamos vem de instrumentos analógicos, e as gravações são feitas em rolos, como antigamente", explica Roth, em entrevista para a Folha.

O rótulo, no entanto, incomoda a ele e a sua principal artista: "Não tenho nada de retrô", afirma Sharon Jones. "Minhas influências são daquela época, mas não parei no tempo".Independentemente das etiquetas de "neo" ou retrô, as novas gerações trouxeram o estilo de volta às prateleiras. "Muita gente voltou a ouvir Otis Redding, e a procura por discos de Amy Winehouse se mantém grande", afirmou Albuquerque.