Teatro

Centros de Cultura no interior estão em situação precária

Profissionais do segmento teatral denunciam a falta de manutenção de equipamentos culturais em municípios baianos

Marília Galvão e Lívia Rangel (marilia.galvao@redebahia.com.br e livia.rangel@redebahia.com.br)
- Atualizada em

No Dia Nacional do Artista de Teatro, o iBahia denuncia a situação precária de alguns centros culturais no interior do estado, que deveriam abrigar espetáculos de música, artes cênicas e artes visuais para a população baiana, mas que vêm sofrendo com a falta de novos equipamentos e a degração dos espaços, devido a má conservação - uma herança de décadas de descaso do poder público.


Profissionais renomados do teatro como o premiado diretor Fernando Guerreiro e a produtora Marlúcia Sie, revelam problemas enfrentados pelos atores e diretores em salas de grandes cidades como Itabuna, mas também destacam exemplos positivos como é o caso do Centro Camilo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista.


Falta de Conservação
Para Fernando Guerreiro, um dos mais importantes diretores de teatro do país, o interior baiano é um pólo criativo importante, mas que ainda precisa de mais investimentos da iniciativa pública e privada. “Os espaços culturais do interior são muito importantes para a disseminação do teatro baiano, embora haja algumas questões, que dificultam o acesso dos grupos teatrais e, conseqüentemente, as apresentações dos espetáculos”, afirma.

— "a falta de conservação é um fator preponderante"
Guerreiro destaca a má conversação de espaços culturais

”Apesar do grande número de espaços que recebem os espetáculos no interior, a falta de conservação é um fator preponderante que, muitas vezes, inviabiliza o acesso às cessões de pauta. Isso acontece porque a maioria dos centros culturais não são voltados apenas para o teatro. Serve como um lugar polivalente que agrega desde a realização de formaturas até oficinas de dança", revela Guerreiro.


A produtora Marlúcia Sie, uma das profissionais mais atuantes do mercado cultural baiano, também se queixa da precariedade dos centros culturais no interior que, em casos mais extremos, chegam a impedir a realização de espetáculos.


“Acabei de cancelar três datas, em setembro, da peça ‘Confissões das Mulheres de 30’, em Itabuna, pois, parte do teto do teatro está prestes a desabar. Não posso expor o público a uma coisa dessas”, denuncia.

Para Marlúcia a situação da produção teatral no interior é grave. “Nenhum espaço tem equipamentos adequados, as mesas de luz são velhas, analógicas, o palco da maioria dos teatros não possui coxia e rotunda (aquele pano preto que cobre o fundo do palco), todos estão em situação precária. O pior é o de Itabuna e o mais bem conservado é de Vitória da Conquista, sob a gestão do coordenador Paulo Macena”, destaca.

Centro Adonias Filho, em Itabuna, precisa de reforma no teto

De acordo com a diretora de Espaços Culturais da Secretaria de Cultura do Estado (Secult/BA), Giuliana Kauark, o Centro de Itabuna é o mais deficiente.


"O espaço realmente está com a cobertura danificada. Já fizemos a vistoria e estamos aguardando a ida ao local dos técnicos da Sucab - Superintendência de Construções Administrativas da Bahia, que irá fazer uma análise técnica para assim darmos entrada na licitação das reformas. A perspectiva é que até o fim do ano, a empresa que fará a obra já esteja licitada. Estamos embuídos em resolver com a maior celeridade possível", afirma.

— "parte do teto do teatro de Itabuna está prestes a desabar"
Centro de Cultura de Vitória da Conquista é referência

Visando sanar os problemas estruturais acumulados "ao longo de décadas de descaso das gestões anteriores" nos Centros de Cultura estaduais, a Secult criou em 2007 a Diretoria de Espaços Culturais, que é responsável pelas licitações, reformas, programação e gestão dos 17 Centros no interior da Bahia.


Segundo Giuliana, nos últimos quatro anos já foram investidos mais de 2 milhões de reais em reformas nos 17 Centros de Cultura, e cerca de 1, 7 milhão de reais em aquisição de equipamentos de luz e som, além de máquinas fotógraficas, computadores e até chuveiros para camarins. "O novo PPA (Plano Plurianual), que vai até 2015, já está aprovado. A nossa intenção é continuar com as reformas e a manutenção dos espaços, mas investir de maneira mais sistemática em reformas periódicas e ações preventivas nas pinturas e instalações elétricas, por exemplo", afirma Kauark.


Abandono em Campo FormosoO Centro Cultural de Campo Formoso, cidade que fica a 400km de Salvador, durante muitas décadas foi o único espaço cultural do município, tornando-se o ponto de encontro de estudantes que praticavam oficinas e apresentavam espetáculos teatrais. Nos últimos anos, o local foi se destruindo, devido à falta de manutenção da prefeitura.

Centro Cultural de Campo Formoso, único teatro da cidade, está em ruínas

Esse ano, o Centro Cultural completa 10 anos de desativação depois de uma reforma que começou e nunca terminou. Em entrevista ao site Campo Formoso Notícias, a prefeita Iracy Araújo disse que o equipamento cultural é uma obra do estado e que quando ele foi criado foi feita uma associação.


“Na gestão do ex-prefeito Santana, foi feito o projeto de ampliação, mas hoje, não existe nem o material que tinha lá dentro. Recebi uma ligação do Governo do Estado, em que o governador pedia a indicação de uma obra e eu enviei o ofício com a sugestão da reforma do Centro Cultural”, diz a prefeita, jogando a batata quente para o estado.


Espetáculo nas Ruas
Ainda em Campo Formoso, a diretora teatral Irenilda Galvão idealizadora do grupo Culturart diz que “enquanto não houver uma resposta concreta para a revitalização de um dos espaços culturais mais importantes na história da cidade, o grupo e a população do município farão protestos”. Outro membro do grupo Culturart, Daniel Muniz, diz que além dos protestos, haverá programação cultural nas ruas, "incluindo shows, peças e movimentos de rua para ‘comemorar’ os 10 anos de descaso com o espaço cultural”.