Turismo

Cerrado garante sobrevivência de quilombolas também na pandemia

Bioma que é considerado a caixa d´água do Brasil é fundamental para povos tradicionais em tempos normais ou anormais

*Alexandre Reis
- Atualizada em

O Cerrado, bioma que celebra hoje (11) a sua data nacional e que ocupa um quarto do território brasileiro, leva água a oito das 12 bacias hidrográficas do país, inclusiva a Amazônica e a do São Francisco. Além disso, ele é fundamental para a sobrevivência de povos tradicionais espalhados por diversas regiões, inclusive nas chapadas. Em Goiás, na Chapada dos Veadeiros, essa relação quase que umbilical foi intensificada com uma espécie de retorno às origens, quando a exploração de atrativos turísticos perdeu importância para a agricultura familiar de subsistência, impactando principalmente na rotina dos mais jovens. 

Cachoeira de Santa Bárbara

Descendentes de escravos, os quilombolas conhecidos como Kalunga são donos de alguns dos atrativos mais desejados por viajantes de todo o Brasil. Certificados pela Fundação Cultural Palmares, eles ocupam um vasto território delimitado pelo Incra que se estende entre vãos de serras e afluentes pelos municípios goianos de Cavalcante, Teresina e Monte Alegre, próximos à divida com o oeste baiano. Mas foi em Cavalcante, privilegiada pelas centenas de cachoeiras, muitas ainda desconhecidas, que o boom turístico aconteceu, embora na cidade ainda se respire em meio a uma paz e tranquilidade que não se encontram mais na vizinha Alto Paraíso de Goiás, a mais badalada da Chapada dos Veadeiros. 

Os primeiros visitantes começaram a chegar na comunidade Kalunga do Engenho II, a 27 quilômetros do centro do município, na década de 1990, ainda de forma tímida. Foi quando uma parcela dos quilombolas começou a perceber que poderia se organizar para explorar o ecoturismo, sobretudo o potencial da cachoeira de Santa Bárbara, a mais famosa da chapada por conta do poço de água azul cristalina, fenômeno visual causado pela presença do mineral calcita, o fundo de areia pura e o reflexo da luz solar. 

Cachoeira de Santa Bárbara 

Com a pandemia, os Kalunga, de forma associativa, foram os primeiros a determinar, em março passado, o fechamento da Santa Bárbara e dos demais atrativos do Engenho II e das comunidades habitadas por este povo tradicional, a exemplo do Vão do Moleque, já na divisa com Tocantins e que iniciava um gradual e constante movimento de crescimento turístico, apesar da quase nula infraestrutura e do difícil acesso. Afinal, uma das máximas desse tipo de turismo de aventura e contato com a natureza é: quanto mais difícil o trajeto maior é a recompensa.  

Apesar das perdas econômicas, não há previsão de reabertura no território Kalunga, tendência que é seguida pela prefeitura de Cavalcante (a cidade segue fechada para os turistas), apesar da retomada já ter sido iniciada de forma atabalhoada em Alto Paraíso de Goiás (a cidade paga o preço com aglomerações, insatisfações e medo dos moradores), das queixas de empresários do setor (principalmente proprietários de hospedarias) e até de alguns visitantes (houve quem tentasse entrar à força no Engenho II no feriadão da Independência do Brasil).

Sem estrutura de saúde

“Fomos os primeiros a parar com o turismo, pela segurança dos Kalunga. Cavalcante não tem estrutura hospitalar adequada. Por isso, enquanto a doença estiver aí, não temos previsão de reabrir. Nesses tempos difíceis, a comunidade, principalmente os mais velhos, está vivendo da roça de toco (cultivo sem uso de fertilizantes e com instrumentos manuais, baseado na derrubada e queima da vegetação, se seguindo ao período de cultivo e descanso para restauração da fertilidade da terra)”, afirma Sionílio Paulino da Silva, ex-presidente da Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE). 

Sem o turismo, os Kalunga se voltaram para a agricultura 

“Os mais jovens estão sofrendo mais porque trabalhavam sempre com o turismo, principalmente como guias, e não estavam tão acostumados com a roça, embora a gente nunca deixasse de plantar. Algumas pessoas conseguiram o auxílio de R$600 do governo federal, mas foi uma minoria. Também conseguimos algumas cestas básicas que foram distribuídas na comunidade por meio de projeto sociais. Enfim, estamos sobrevivendo”, acrescenta Sionílio. 

Alta estação - Ao mesmo tempo em que chegou no momento da colheita, a pandemia também atingiu os Kalunga e todo o turismo na região já no período de maior movimento. Na Chapada dos Veadeiros, a alta estação se dá no período mais seco, que costuma ser de abril a novembro. O mês de julho é o melhor para o segmento, por conta das férias escolares, como conta o guia Kalunga Edivaldo Paulino da Silva.

 “Dinheiro a gente recupera, vidas não. Temos muitas pessoas idosas no Engenho II, e é muito arriscado reabrir enquanto essa doença estiver por aí. Eu e minha família estamos sofrendo muito, mas graças a Deus temos o Cerrado, assim como os vizinhos, pois a comunidade é unida”, diz Edivaldo, que é guia há sete anos e costuma fazer, em tempos normais, até 15 passeios por mês cobrando em média entre R$80 e R$100 para grupos de no máximo seis pessoas na alta estação.

Restaurante da Minelci, no Engenho II

“Quando a pandemia começou, a gente se voltou só para a roça. Plantamos arroz, milho, feijão, alguns cultivam mandioca, coisas para o consumo mesmo, em roça pequena que, no meu caso, fica lá para as bandas da cachoeira do Candaru. Com os filhos em casa, já que não está tendo aula, todos ajudam. Isso que garantiu nossa sobrevivência, além do que tínhamos guardado. Mas ninguém se preparou para uma coisa dessas e muita gente contou com a ajuda um do outro”, afirma Minelci Paulino da Costa, dona de um dos sete restaurantes do Engenho II todos instalados nas residências dos Kalunga e que servem comida caseira feita ainda no fogo à lenha para os visitantes.

Em tempos normais, Minelci chega a receber em seu salão e na própria cozinha grupos de 70 viajantes em julho, faturando até R$2,1 mil em um dia (a refeição custa R$30 por pessoa), o que é fundamental para manter a família de seis componentes o ano inteiro, inclusive na baixa estação. 

Cachoeira de Candaru 

Desmatamento em sítio histórico

Além da Covid-19, os Kalunga tiveram que enfrentar, em junho, o desmatamento criminoso do Cerrado em seu sítio histórico e patrimonial regulamentado pelo governo goiano. Até então visto com desconfiança pelos ambientalistas na chapada, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, determinou que a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável punisse com rigor os criminosos, apreendendo equipamentos e aplicando multas milionárias após a divulgação de imagens da destruição do bioma em uma área equivalente a 1,4 mil campos de futebol. 

A sociedade de Cavalcante e de toda a chapada se mobilizou para chamar a atenção das autoridades. Artistas e celebridades também se manifestaram em um vídeo apontando os riscos desse crime para a sobrevivência do Cerrado e dos próprios Kalunga, colocando em cheque, inclusive, o direito básico à água, na medida em que ameaçou nascentes. Tudo isso para a plantação de soja. Ao menos um garimpo ilegal também foi desativado em Cavalcante.

Entidades como a WWF-Brasil estimam que já são mais de 10 anos com o desmatamento no Cerrado superando as taxas da Amazônia. Esse ritmo de destruição torna o bioma que encanta milhares de turistas todos os anos em destinos como a Chapada dos Veadeiros um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta. Vale frisar que o Cerrado, que é a savana com maior biodiversidade do mundo, já perdeu 50% de sua área original.



*Jornalista