Teatro

Com número crescente de estreias, teatro ainda sofre com gargalos

Passado os ensaios de verão, espetáculos voltam a ter destaque na programação cultural da cidade

Marília Moreira, do Correio 24 horas (marilia.silva@redebahia.com.br)
Sessenta e uma montagens locais estrearam nos palcos de Salvador ano passado. O número, levantado pelo Prêmio Braskem de Teatro, é também o maior registrado em todos os tempos pela premiação.Com isso, são cerca de cinco espetáculos estreando na cidade por mês - fora as peças de fora e em reapresentação. 
Quem vê o número crescente e razoável de produções, não imagina os entraves que artistas, gestores e produtores culturais enfrentam para pôr um espetáculo em cartaz. E os gargalos são muitos: vão desde número de espectadores à atenção midiática, passando por patrocínios, editais e bilheteria. 
Distopias discute migrações contemporâneas ao apresentar 13 personagens cujas histórias se cruzam em uma grande cidade (Foto: Diney Araújo/ Divulgação)
“Ficamos na dependência de festivais, editais e convites, pois se tivéssemos certeza que teríamos 70% de pagantes por sessão, talvez pudéssemos voltar no risco”, destaca o diretor Gil Vicente Tavares, que estreia hoje o espetáculo Zucco, no Teatro Martim Gonçalves. 
Indicado ao Prêmio Braskem de Teatro 2018 pela direção dos espetáculos Os Pássaros de Copacabana e Um Vânia, de Tchekhov, ele lembra que “ano passado estava sem perspectiva de lançar nada novo por causa dessa crise toda e de problemas com as leis de incentivos”. “As empresas não se sensibilizam com espetáculos que não tragam uma super visibilidade”, constata. 
Zucco traz reflexão sobre uma sociedade que carece de afeto (Foto: Diney Araújo/ Divulgação)
No caso de Os Pássaros de Copacabana ele conseguiu patrocínio da Vivo, através do Fazcultura. “Tivemos sorte de a produtora do espetáculo, Fernanda Bezerra, estar no lugar certo, na hora certa. A Vivo não tem aberto edital de selação na Bahia, mas por conta do orçamento do espetáculo ser muito baixo para os padrões deles, foi tranquilo conseguir esse financiamento”, comenta, ao lembrar que um espetáculo montado em Salvador, com temporada de três meses, pode ser mais barato que o valor de um mês de ensaios de um ator em São Paulo.
Já Um Vânia, de Tchekhov foi montado com uma verba excedente da Companhia de Teatro da Ufba, que ano passado chegou a montar outros dois espetáculos: Gusmão, o Anjo Negro e Na Fila.
Temporada de estreias
Espetáculo de formatura da turma de  Interpretação Teatral da Escola de Teatro da Ufba, Zucco estreia hoje em uma temporada gratuita que segue até o dia 18, com apresentações de quarta a domingo. Para ajudar a financiar os custos da montagem, a produção abriu uma campanha de financiamento coletivo, estratégia adotada também pela peça Distopias, que estreia nesta quinta no Teatro Vila Velha.
Enquanto a primeira estipulou como meta R$ 3 mil, a segunda pôs o teto de R$ 5 mil para cobrir os custos de cenário e figurino - ambas conseguiram um pouco mais que o esperado. "Essa é uma grande opção. Você não vai conseguir o dinheiro para tudo, você tem que ter bastante amigos e pessoas que queiram colar de fato com você, e isso é o mínimo que você precisa ter para fazer. É uma solução alternativa, que vem a nosso favor", comenta a diretora Zeca de Abreu, de Distopias, que ressalta ainda a importância da formação do público nesse sentido. "Foi preciso fazer um corpo a corpo, porque as pessoas não estão acostumadas a ir e dar o dinheiro. Temos que reforçar isso, é uma ajuda, por mais que não banque tudo", diz.
As 12 sessões da temporada de estreia de Zucco se aproximam do número de apresentações dos espetáculos que ficam um mês em cartaz, com exibições de sexta a domingo - realidade que, segundo todos os entrevistados ouvidos por essa reportagem, é cada vez mais difícil de manter. “As temporadas hoje são muito curtas. Há alguns anos, eram menos espetáculos, com temporadas mais longas, que iam de quarta a domingo. Hoje o teatro abre para espetáculos que só se apresentam aos sábados e domingos”, comenta Vadinha Moura, gestora do Teatro Módulo e coordenadora da Comissão Julgadora do Prêmio Braskem de Teatro.
Como gestora, ela ressalta ainda que é preciso negociar bastante para que nenhuma das partes envolvidas saia no prejuízo. “Abrir um teatro como o Módulo para uma temporada dessas custa 5 mil, mas uma pauta gira em torno de 1,5 mil. Quem paga o restante?”, questiona.
Um dos poucos grupos a conseguir manter temporadas constantes e relativamente longas na cidade, a Cia Baiana de Patifaria aproveitou os primeiros meses do ano para reapresentar A Bofetada  e hoje reestreia As Noviças Rebeldes no Teatro Isba, com temporada que segue até o dia 8 de abril.
“Tudo que uma trupe teatral quer fazer, em qualquer tempo, é sempre estar em cena”, destaca Lelo Filho, ao ressaltar que a Cia Baiana de Patifaria, sem editais nem patrocínios, tem conseguido isso via bilheteria. 
E dá para fechar as contas?! “Durmo e acordo pensando nessa sua pergunta. A gente tem espetáculos de grande comunicação, nossa história de 31 anos se desenvolve a partir disso, envolvendo plateias distintas, de idade e origem diversas. Só que ao mesmo tempo a gente perdeu, como todo o teatro brasileiro, dias de apresentação. De quarta a domingo para só sábado e domingo. O bolo da bilheteria acaba sendo dividido entre todo mundo envolvido no espetáculo”, diz.
Foi por falta de um apoio financeiro maior, que o grupo não conseguiu realizar uma turnê em São Paulo no ano passado. “Tínhamos viagem, hotel e restaurante garantidos para oito pessoas, durante os dois meses da temporada, mas não conseguimos apoio para contratar uma transportadora para levar o cenário e, por isso, a turnê foi cancelada”, lamenta.
Na cara e na coragem
Mesmo tendo a maior parte dos seus espetáculos montados com financiamento público, o diretor Celso Júnior lembra que essa realidade diminuiu drasticamente em relação aos primeiros 10 anos do século XXI para cá. 
“Para o meu último espetáculo, comemorativo dos meus 30 anos de carreira, não consegui nenhum edital, nem patrocínio. Resolvi que os gastos sairiam do meu boslo. Determinei um teto de gastos, o Teatro Vila Velha entrou como parceiro, assim como a Saladearte. O elenco trabalhou comigo sem receber dinheiro, como parceiros do projeto. Dividi os rendimentos da bilheteria ao meio com o teatro, sem teto mínimo”, lembra.
Não há relatórios que informem a quantos espetáculos receberam incentivo público e/ou patrocínios, mas não é leviano afirmar que das 61 peças que estrearam em Salvador ano passado mais de 50% foi montada na cara e na coragem. “Em 2017, produzi apenas o espetáculo Desviante. Fizemos o espetáculo sem qualquer investimento ou edital... Foi no suor, na coragem e no afeto! Na realidade, tenho feito muitas produções assim de risco, dadas as condições atuais de captação”, comenta o diretor Luiz Antônio Sena Jr.
 
FIQUE LIGADO!
ZUCCO
Onde:  Teatro Martim Gonçalves
Quando:  De 3 a 18 de março - quarta à sábado, às 20h; domingo, às 19h
Quanto:  Gratuito
TRAGA-ME A CABEÇA DE LIMA BARRETO
Onde:  Teatro Castro Alves
Quando:  4 de março (domingo)
Quanto:  R$ 1 | R$ 0,50
NOVIÇAS REBELDES
Onde:  Teatro Isba
Quando: De 3 de março a 8 de abril; sábados e domingos, às 20h
Quanto:  R$ 60 | R$ 30
DISTOPIAS
Onde: Teatro Vila Velha
Quando:  De 8 de março a 1º de abril - quinta a sábado, às 20h; domingos, às 19h
Quanto:  R$ 20 |R$ 10 (quinta); R$ 30 | R$ 15 (sexta, sábado e domingo)
ESCÂNDALO
Onde:  Café-Teatro Rubi
Quando:  De 8 a 29 de março; quinta a sábado, às 20h30
Quanto: R$ 50 (quinta) | R$ 60 (sexta e sábado)
SIRÉ OBÁ - A FESTA DO REI 
Onde:  Casa Preta
Quando:  22 a 25 de março (quinta a domingo), às 20h
PUTA: FILHA DA QUE TE PARIU 
Onde:  Teatro Gamboa Nova
Quando:  De 1º a 29 de março, à quintas
Quanto:   R$ 20 | R$ 10
MESMO SEM TE TOCAR
Onde: Teatro Gamboa Nova
Quando:  De 16 a 18 de março; sexta, 20h; sábado, 17h e 20h, e domingo, 17h
Quanto: R$ 20 | R$ 10 
CONEXÃO BABEL
Onde: Teatro Martim Gonçalves
Quando:  De  21 de março a 1º abril - quarta a sexta-feira, às 20h30; sábados e domingos, às 19h
Quanto:  R$ 30 | R$ 15