Música

Com sonoridade mais orgânica, Baiana System lança novo disco 'O futuro não demora'

No novo álbum, Salvador aparece observada a partir da ilha de Itaparica e da Baía de Todos os Santos

Agência, O Globo
Em meio a uma agenda de shows impossível, o BaianaSystem se refugiou na ancestral Ilha de Itaparica para gravar seu novo álbum, “O futuro não demora”, que chegou às lojas e streamings nesta sexta-feira (15). Foi lá, na terra de João Ubaldo Ribeiro e abraçada pelo antropólogo Antonio Risério, que a antropofagia cultural proposta pela banda surgida nas ruas de Salvador, há dez anos, encontrou novos frutos para criar este terceiro disco.
O novo cenário representa também a busca de uma sonoridade mais orgânica pela banda. Arranjos de orquestra, percussão gravada ao vivo, pianos e coros dividem o espaço com a veia eletrônica de ritmos como dancehall e dub, antes priorizados.
"Quando voltávamos da rotina intensa de shows, queríamos respirar. E respirar era testar um ijexá com beat, tocar só com piano, guitarra baiana, voz e baixo... — explica Roberto Barreto, condutor da tal guitarra baiana que marca o som do grupo. — Entendemos que o Baiana tinha um sentido mais amplo do que aquela categorização de pagode eletrônico com não sei o quê, que algumas pessoas faziam. Nos aproximamos da raiz da música baiana e da música popular brasileira", explicam.

                                     

Água e fogo
No novo álbum, Salvador aparece observada a partir da ilha de Itaparica e da Baía de Todos os Santos. “O futuro não demora” é dividido em início (“Água”, o lado A), meio (o mantra “Melô do centro da Terra”) e fim (o lado B, “Fogo”), numa narrativa cíclica em que os versos da última faixa dialogam com os da primeira.
"É uma história contada como se fosse um livro, com capítulos. — diz o cantor e compositor Russo Passapusso. — Água é vida, traz o homem como célula. A partir dela falamos de ancestralidade, da relação do homem de neandertal com o moderno; “Sulamericano” já traz o homem lidando com territórios, com a criação de espaços físicos. O mantra divide para então vir o fogo, que fala de questões como diáspora, das relações urbanas"



Participações mais que especiais
“O futuro não demora” eleva à potência máxima a ideia de coletividade que sempre pautou o grupo. Nomes como o maestro Ubiratan Marques, regente da Orquestra Afrosinfônica, Manu Chao, BNegão, Curumin, Vandal, o produtor João Meirelles ou a dupla Antônio Carlos e Jocafi não fizeram apenas participações, mas estão no núcleo criativo do trabalho tanto quanto os jovens do grupo Maré de Março, movimento sociocultural de Itaparica, ou o Mestre Lourimbau, figura mítica da música baiana.
"Nos cercamos não só de músicos, mas também de pessoas que participavam somando com ideias, conversas, que trabalhavam a psique dos agentes que iam tocar. De mestres e de crianças", destaca Russo. — Como se fossem preparadores de contextos e emoções. Foi assim que montamos um quebra-cabeças mais rico do que “Duas cidades”, com caráter atemporal.