Séries

'Compulsão': nova série em documentário do GNT estreia nesta terça (22)

Atração reúne 19 histórias de dependência de drogas, anorexia, comida, compras, sexo e afeto

Monique Lôbo (monique.lobo@redebahia.com.br)

No dicionário, compulsão significa uma força que compele a repetição de um ato não deliberado ou mesmo contrário à vontade da pessoa. E não importa a natureza do ato, essa repetição desmedida acaba gerando uma doença. Alguém que ingere substâncias tóxicas com frequência sofre tanto quanto alguém que não consegue parar de praticar exercícios físicos. 

É sobre esse tema que a nova série documental do GNT gira em torno. Compulsão, que tem direção do premiado João Jardim, 51 anos, reúne 19 histórias de dependências ao álcool, anorexia, jogos eletrônicos, crack, cocaína, jogos de azar, comida, compras, sexo e afeto em 10 episódios exibidos toda terça, às 23h30. 

Ruy Castro (à esq.) no primeiro episódio já exibido, que abordou o alcoolismo; Fernanda (à dir.) era modelo e sofreu com bulimia e anorexia, hoje controladas (Foto: Divulgação/GNT)

Nesta terça, a atração apresenta os depoimentos de Renato e Ylan, que jogavam games no computador compulsivamente. Desde os 10 anos jogando, Renato mantinha uma relação conflituosa com a família, já Ylan chegou a pesar 100 kg com a obsessão pelos jogos e por doces. 

Cineasta e documentarista, João Jardim traz no currículo filmes como o longa Getúlio (2014), protagonizado por Tony Ramos e que narra os últimos 19 dias de vida de Getúlio Vargas (1882-1954). A produção alcançou mais de 500 mil espectadores. 

É dele também o documentário Lixo Extraordinário (2010), codirigido pela inglesa Lucy Walker e pela brasileira Karen Harley.  O filme foi indicado ao Oscar de 2011 na categoria de melhor documentário. Antes, levou prêmios de melhor documentário internacional pela audiência no Festival Sundance 2010; da Anistia Internacional e do público, na mostra Panorama do Festival de Berlim de 2010; e o Target Filmmaker Awards do Dallas International Film Festival 2010.

Em entrevista exclusiva para o jornal 'CORREIO', João fala sobre a série e sobre o processo delicado de gravação. Ele conta um pouco da sua carreira e dos prêmios conquistados, e revela o que ainda tem vontade de fazer na TV e no cinema. 

 Ex moradora de rua, Esmeralda (à dir.) se viu no fundo do poço com o crack; Rodrigo Santos (à esq.), baixista do Barão Vermelho: compulsão por cocaína (Foto: Divulgação)

Como surgiu a ideia de fazer uma série sobre compulsão? 

É um assunto que está no inconsciente coletivo, importante para a sociedade e o GNT é um canal de comportamento. Eles fizeram essa encomenda. Sempre é assim, eles colocam assuntos que nunca foram abordados de forma explícita. O GNT percebeu que era um assunto que se tinha que falar abertamente, abordar as diferentes compulsões. É realmente uma demanda da sociedade falar sobre algo que atinge tantas pessoas. 

Como foi feita a escolha dos personagens?

Isso é o mais difícil, a parte da pesquisa. Temos uma equipe de pesquisadores no Rio, em São Paulo e Porto Alegre que fica procurando, entrevistando pessoas para achar aquelas que vivem uma situação limite na compulsão, mas tem um corte que as pessoas se identificam. A gente procura trabalhar o border line: não é completamente absurdo, mas é no limite do absurdo. 

Como você faz para extrair as informações de histórias tão delicadas?

Isso é uma coisa que a gente desenvolve com o tempo de carreira. Acho que uma das coisas importantes é pesquisar o tema e faço sempre meu dever de casa: como é, o que acontece com as pessoas... Como se eu chegasse para conversar com elas com um conhecimento prévio sobre aquela situação compulsiva. Eu desenvolvo um vocabulário que elas entendem, são perguntas simples e diretas. E sempre seguir do que elas estão contando, não impor um determinado questionário.

Para o GNT, você já fez o Amores Livre, Novas Famílias e Família é Família. O que ainda tem vontade de fazer na TV?

Eu acho todos esses temas que trabalhei muito interessantes. Acho um privilégio poder ter trabalhado isso na TV. Hoje, tenho vontade de trabalhar mais ficção, mais histórias ficcionadas que permitam explorar ao máximo a minha criatividade. Mas gosto de fazer temáticas documentais e continuar fazendo séries documentais. Eu estou tentando provocar algumas situações para trabalhar com ficção (risos), porque estou com vontade de trabalhar com atores.

O que te inspira a criar esses projetos?

Justamente a originalidade, isso me motiva a aceitar os trabalhos, explorar ao máximo e fazer com que tenham repercussão. Falo de coisas que não são discutidas, mas que é necessária a discussão. Isso é instigante, falar de uma coisa que precisa ser mais revelada. 

Você já conquistou muitos prêmios desde seu primeiro longa Janela da Alma (2001), que levou 11 deles e conquistou mais de 140 mil espectadores, a Pro Dia Nascer Feliz (2006), que conseguiu 10 prêmios, até Lixo Extraordinário (2010), que concorreu ao Oscar. Esses resultados te dão segurança ou uma pressão extra?

As duas coisas. É exatamente isso: dão segurança de encarar os trabalhos diferentes, porque você se sente forte, capaz e curioso de abordar a maior parte das temáticas, mas ao mesmo tempo tem o de fazer uma coisa relevante. É uma cobrança minha em cima de mim mesmo, mas uma cobrança muito grande. Às vezes, você acha que vai ficar cada vez mais fácil, mas fica cada vez mais difícil (risos). Mas você vai se colocando desafios e vendo outros aspectos do trabalho, atores, entrevistados, equipe e vai ficando disponível para adentrar campos não explorados. 

Nas últimas vezes que concorreu ao Oscar, o Brasil esteve representado por gêneros como o documentário e a animação, em vez da ficção que é mais predominante. Você acha que isso demonstra uma mudança na produção nacional?

Eu acho que isso tem a ver mais com uma questão de ambiente. Porque é um ambiente muito concorrido, com produções com muita estrutura. É um prêmio da indústria e a indústria internacional é muito bem preparada na hora de colocar um competidor. E o Brasil não tem essa indústria. Os que entram são aqueles mais bem estruturados. As empresas e as pessoas em volta representam muito dinheiro. Então, é uma ingenuidade pensar que aqueles que estão ali concorrendo são os melhores filmes do ano. Não é um negócio isolado, a animação e os documentários são as brechas para concorrer. Lixo Extraordinário era uma coprodução brasileira e inglesa, então tinha interesse dos ingleses e dos americanos ali também. 

Seu primeiro filme de ficção foi o drama político Getúlio (2014), um sucesso de bilheteria. Você considera mais fácil fazer ficção ou documentário? 

Eu acho que são diferentes, não tem melhor. Sou muito feliz de poder transitar nas duas áreas. O público em geral consome mais ficção, mas o documentário vem ganhando mais espaço com as TVs a cabo e a Netflix. Elas fizeram as pessoas consumirem mais documentários e isso aumentou a demanda para a TV e diminuiu para o cinema. Até por isso, não tenho feito documentário pro cinema, porque ficou um cenário muito pequenininho para documentários. 

Em Getúlio, você retratou uma crise política do país no início da década de 50. Você acha que ainda é uma história atual? Estamos vivendo uma crise política no momento, ela te inspira a fazer algum projeto?

Desde o princípio do filme, em 2007, eu já o achava muito contemporâneo. Os elementos que existiam naquela época no Brasil são supercontemporâneos. A estrutura política do país, a máquina política é muito mais forte que as pessoas, mais forte que Getúlio na época e isso ainda está aí. Essa politicagem independente das pessoas. O país está muito parecido, se passaram 60 anos e não mudou a forma de fazer política, a forma de pensar permanece igual e já falávamos disso na época e por isso me interessei pela história. Com certeza, tenho vontade de fazer alguma coisa com o tema de hoje, seria um documentário sobre o que está acontecendo no país, justamente falando do que está acontecendo nos últimos anos. Mas não poderia, até por questões de patrocínio. Quem patrocinaria? A Petrobras? (risos). Então, seria muito difícil, mas seria interessante fazer as pessoas pensarem. 

Quais são seus próximos planos profissionais?

Ainda estamos acabando a edição da série. Só entregamos cinco episódios e tem mais um mês e pouco de trabalho para entregar tudo. Então, não tenho nenhum trabalho em mente ainda, nada engatilhado. Essa é uma série que demanda muito tempo para edição, mais ou menos um mês e pouco por episódio, ainda estou mergulhado nela.