Música

Da Ladeira do Prata ao Rio Vermelho: Pitty retrata suas origens no disco 'Matriz'

Em entrevista ao iBahia, cantora confirmou show na capital ainda este ano

Lucas Mascarenhas* (lucas.mascarenhas@redebahia.com.br)
- Atualizada em

Matriz, na livre significação dos dicionários é o "lugar onde algo é gerado e/ou criado", nada mais apropriado para ser o título do quinto disco de estúdio da Pitty, soteropolitana, mãe de Madalena Novaes e 'princesa do rock brasileiro'. 

Com participações de BaianaSystem, Larissa Luz e Lazzo Matumbi, sample de Dorival Caymmi e covers de Maglore e Peu Souza, o disco não poderia ser mais baiano. Em meio à riffs de guitarra poderosos em "Ninguém é de Ninguém", uma vibe mais reggae em "Te Conecta" e até no cavaquinho de "Roda", a conexão com a Bahia é clara e específica também na percussão, já experimentada no disco "Setevidas" (2014) e potencializada em Matriz.

Nas letras, as experiências de quando cresceu em Salvador são lembradas em "Bahia Blues", escrita pela própria cantora e que não deixa de lado o rock característico de seu som.

"Cresci na ladeira do Prata
Andei no Campo da Pólvora
Rodei pela Barroquinha
O bar do pai, a boemia
A mãe secretaria na sapataria
A reza na escola todo santo dia
Medalha de santo pra boa menina" Bahia Blues, Pitty.


Foto: Otavio Sousa / Divulgação

Em entrevista ao iBahia, a cantora falou sobre sua turnê, inspirações para o disco e ainda confirmou show em Salvador ainda este ano. Confira:

iBahia: Como foi sair em turnê antes de lançar o disco por completo? Ir tocando novas músicas durante a turnê serviu como um termômetro do público para você? 
Pitty: Foi uma experiência massa! Eu adorei inverter a ordem padrão e ir testando as músicas, me conectando com o público na estrada, sentindo as canções no show. E na real, o que me inspirou a fazer o disco foi a turnê. Porque até então eu nem tava pensando em fazer álbum, quando caí na estrada as ideias de Matriz foram ganhando força e o conceito do disco foi surgindo durante a turnê.

iBahia: Em um cenário onde artistas lançam singles e EPs, você traz um disco com início, meio e fim e ainda consegue êxito nesse formato. Os fãs que compram o Matriz ainda são os mesmos de 2003 ou você percebe um público novo te acompanhando? 
Pitty: Tem uma turma que vem das antigas, desde o Chip Novo e tem também uma galera que foi se juntando no meio do caminho. Eu senti que isso foi mudando e crescendo, se expandindo. Vejo meu público bem heterogêneo, misturado, de várias idades, gêneros. Isso foi vindo com o tempo, cada trabalho me aproximava de pessoas diferentes, e hoje se vê uma turba maravilhosa. Tenho sentido o Matriz meio que como um “desdivididor de águas”, se me permite o neologismo rs. Porque os comentários positivos têm vindo de gente nova e de fãs que curtem todas as fases, parece que esse disco de alguma forma agregou geral.




iBahia: "Sol Quadrado" veio de uma safra antiga de demos do início da carreira e ainda assim soa muito mais atual que músicas lançadas hoje em dia. Ao que você credita esse fato?
Pitty: Pois é, esse é um lance que fiquei tentando entender também. Acho que é porque ela tem um texto que dialoga com sentimentos particulares de cada um. Cada pessoa que escuta interpreta de um jeito, e ninguém sabe que estou falando de um fato específico e real. Mas a poesia leva todo mundo pro subjetivo, e isso é ótimo. Larissa tava indo gravar outro som no disco, e quando ela escutou essa ela sentiu uma conexão. Bateu na hora, e decidimos ali então que essa seria a participação dela no disco. Além disso, eu sinto também que as músicas têm sua hora de existir no mundo. Ela estava pronta, mas não pertencia àquele primeiro disco. Não faria sentido naquela história como faz agora. O tempo não existe.

iBahia: Matriz conta uma história que levou mais tempo para criação e lançamento, foi o disco mais difícil da sua carreira?
Pitty: Não foi difícil não, eu diria que foi o mais fácil no sentido de intuitivo, livre, fluido. Eu me desprendi totalmente de qualquer coisa que não fosse a música, a poesia, o sentimento. Larguei de mão formatos, e gravei em vários estúdios, com músicos diferentes, focando no que cada música pedia. E aí isso abriu alas para ter sons e texturas diferentes. Me libertei de pensamentos e cobranças externas sobre como um disco de rock deve ser, ou sobre o que se espera que uma compositora de rock faça, ou qualquer demanda externa. Como nunca antes. Livre disso tudo, comprometida em me conectar de forma real com as pessoas que participam do disco, com as composições e principalmente com a história que eu queria contar. Deixando a alma falar mesmo, sem medo. 

Foto: Divulgação

iBahia: O que a capa diz sobre Matriz?
Pitty: A capa pretende mostrar essa personagem que está abrindo a porta e saindo “de casa”, ou da sua cidade, para ir tentar a vida e buscar seu sonho em algum lugar. Ela se benze, se protege, respira fundo e vai. Ela sai para uma “claridão”, para uma luz que a atrai e que simboliza esse desejo- mas ela não vê o que há depois daquela luz intensa que ofusca a vista. É uma aposta. Ela se mostra sem recursos de vestuário, é pele, é estar de peito aberto. Não há conotação sexual nisso. É só um corpo que poderia ser feminino, masculino, ou qualquer outro. A calça tem a ver com rede de pescador, com mar e capoeira. Calça de trabalho, de luta e dança. As cores é meio óbvio, né? Azul vermelho e branco da bandeira da Bahia, e na minha cabeça ainda viajei que azul e vermelho resulta em roxo; que é a cor do primeiro disco. Matriz… 

iBahia: O que te faz queimar de novo?
Pitty: O desafio de pisar num palco com repertório novo, em cidades diferentes. Se reconstruir a cada disco e turnê, dar passos adiante a cada show.

iBahia: Qual a sua música favorita e por que? 
Pitty: Cada dia uma me pega mais. No momento Noite Inteira, porque é o primeiro single do disco e acabou de ganhar três remixes foda; do Deeplick, da BadSista e do Brabo. Acabou de sair um EP com esses remixes. Tô achando uma experiência massa vê-la reinterpretada por cada um desses artistas



iBahia: A Bahia de hoje em dia está diferente daquela que te criou como cantora? Em quais aspectos ela te inspirou para a criação de Matriz?
Pitty: Sinto que está bem diferente em alguns aspectos, outros não. A cena alternativa e o jeito de se “botar o bloco na rua” digamos assim, parece diferente. A gente produzia e fazia os shows, festivais, demos, tudo. E teve uma época que teve um público grande, um volume grande de gente frequentando esses espaços. A internet e o mundo digital mudou a forma de dialogar, divulgar, tudo. Na época não tinha isso, era zine, panfleto e boca a boca. E o Telefanzine! haha (quem lembra?)
Olhar para Salvador nesse disco e nessa fase da minha vida e pensar sobre as origens de tudo, os sentimentos, sobre coisas cotidianas, foi muito importante e terapêutico pra mim. Entendi muitas coisas dessa relação meio conturbada, como uma relação com pai e mãe mesmo, onde existem nuances psíquicas muito profundas. Coisas que marcam nossa alma. E no final sobrou um amor e uma gratidão enorme por tudo e por todos. Amor por todo mundo que encontrei nas ruas, pelos colegas de bandas, pelos amigos, pelos adversários, pelo Calypso, por Peu, por subir o areal do Costa Azul e ficar lá tocando violão, pela época que morei em Itapuã, por pegar o buzão lá na Dorival Caymmi e ir até o Campo Grande quando estudei na UFBA- será que hoje tá melhor por Ondina ou pela Cardeal? Por dormir no Imbuí na casa do Gordo e ele me mostrar altas bandas, por sonhar em viver de rock no Brasil. Esse sonho tão louco. Tudo em Salvador e todas as pessoas e todos os cheiros que estão entranhados na minha alma me levaram ao Matriz. É o olhar da retirante, é o banzo do distanciamento temporal, e é também a dor e a delícia de ter minha origem nesse lugar. 

iBahia: Dentre os samples, regravações e participações especiais do disco, tem alguém que você queria que estivesse nele?
Pitty: Todo mundo que está são pessoas que eu queria muito, há tempos. A honra e o orgulho de ter BaianaSystem, Maglore, Larissa Luz, Lazzo Matumbi, Peu Sousa, Nancyta nessa obra é gigante e simbólica. É mostrar pro resto do Brasil uma Bahia diversa em termos de composição e influências. Tem muito mais gente massa aí pra fazer parcerias e sons, e tudo tem sua hora. 

iBahia: Teremos show de Pitty em Salvador esse ano?
Pitty: SIIIIIIM! :) e que alegria poder dizer isso. Estamos programando mais pro final do ano. a turnê está esquentando e segundo semestre já está bem tomado. Logo mais amo aí na área com esse show novo, e eu já fico emocionada só de pensar em cantar essas músicas aí.

*Sob supervisão e orientação da repórter Naiá Braga