Música

Daniela Mercury lança disco e fala da vida: "Ser gay é como viver sob censura"

Cantora defende suas ideias, orientação sexual e arte pop em Vinil Virtual

Hagamenon Brito (hagamenon.brito@redebahia.com.br)
- Atualizada em
Uma das cantoras brasileiras mais bem-sucedidas de sua geração, Daniela Mercury, 50 anos, reinventou a sua vida íntima e, por tabela, a sua persona pública, desde que se apaixonou e casou com a jornalista Malu Verçosa, 39, em 2013. A união de Daniela & Malu, que têm as filhas Márcia, Alice e Isabel Verçosa de Sá Mercuri (17, 14 e 6 anos, respectivamente), gerou polêmica e admiração, mas também deu uma revigorada na carreira da artista, que foi fundamental para a consolidação nacional da axé music no começo dos anos 1990.   

Daniela lança novo disco e fala de planos para o verão
(Foto: Célia Santos/Divulgação)

Autoral
Décimo quinto trabalho solo de Daniela, Vinil Virtual (Biscoito Fino) é o primeiro e autoral disco da artista após a sua corajosa guinada de vida. Das 15 canções, todas misturando ritmos e timbres, ela assina dez sozinhas e as outras em parceria. O show “afro-indígena-canibalista-pop”, como ela define, já está na estrada e não tem data prevista para chegar em Salvador. Com vocês, a Rainha Má.

Novo disco

Vinil Virtual é o seu primeiro álbum após o casamento com Malu Verçosa Mercury. De que maneira esse amor, que você fez questão de tornar público de forma libertária, influenciou sua carreira desde então e esse disco, especificamente? A vivência de uma relação incomum para o mundo tem me relembrado todas as lutas de afirmação profissional e individual ao longo da minha vida. Estou, de novo, aguerrida e mais confiante do que nunca. A cumplicidade de Malu como pessoa que admiro e jornalista que ela é tem reforçado minhas convicções. O amor dela por mim reacendeu meu sol. Me permita fazer um pouco o advogado do diabo (risos). Sinceridade e direito próprio à parte, o casamento com uma mulher ajudou sua carreira a ter novamente um upgrade na mídia, no showbiz. Teve um lado de estratégia nisso, também, de usar um fato real em termos de mercado (o que seria, ao meu ver, compreensível em termos de cultura pop)?Em hipótese alguma! A única estratégia que houve foi de viver livremente. Ser gay é como viver sob censura, é se colocar dentro do ambiente de censura - e me senti na obrigação de iluminar esse lugar que sempre foi de escuridão social. Falando em estratégia (e não vamos esquecer que Malu é jornalista), também é pop, demasiadamente pop,  o fato de vocês emularem na capa de Vinil Virtual a lendária foto de nudez de John Lennon e Yoko Ono para a Rolling Stone. Como surgiu a ideia?

Eu queria fazer uma foto nua, porque a nudez pode trazer muitas mensagens quando ela é usada de forma artística. Fiz algumas possibilidades como a foto da bolacha do disco, em que estou “grávida do mundo”, e pensei no verso de Caetano “todo mundo quer saber com quem você se deita. Nada pode prosperar” . Quando Yoko e Lennon tiraram fotos na cama, eles queriam dizer também que o mundo se preocupa demais com quem a gente se deita. Então, me deitei com Malu pela paz, contra a caretice e por mais lucidez na face da terra. A foto que eu e Malu fizemos ficou tão linda, tão elegante e tão marcante que foi impossível não usá-la como uma obra de arte de Célia Santos na capa do meu disco.

Você se tornou, com o tempo, uma artista com várias faces e responsabilidades, digamos: a rainha da axé music que não esquece as raízes carnavalescas, a compositora, a mulher que ama a dança, a intérprete com conexões pop e com a MPB e que faz muitas turnês internacionais, a embaixadora da boa vontade do Unicef, a mãe, a cidadã, o símbolo feminino da homoafetividade... Na hora de fazer um álbum diversificado como Vinil Virtual você pensa em colocar um pouco de cada uma dessas faces no painel musical?

Isso tudo está na minha música porque é quem eu sou. Tudo em mim se exacerba nessa altura da vida. Quando a gente é jovem, a gente quer acertar de primeira. Quando já se tem sabedoria, a gente volta a não ter medo de errar, de seguir a simplicidade e tudo que temos afeto e tudo que amamos mais. Alegria e Lamento, De Deus, De Alah, De Gilberto Gil e Três Vozes são, pra  mim, canções de ninar, estão na minha afetividade. Em Rainha do Axé eu sou meio adolescente (risos). Em Antropofágicos São Paulistanos, eu sou bem irreverente... Na sua opinião, por que o samba-reggae foi sendo gradualmente esquecido pela axé music, com poucos artistas gravando a célula rítmica mais original e vibrante da cena surgida a partir de 1985? Aliás,  Três Vozes é um samba-reggae lindo.

A grande maioria dos artistas não tem noção da importância do surgimento do samba-reggae e, quem tem noção, não se importa com isso. Eu estive no Axé Brasil (Belo Horizonte) muitos anos atrás com a Banda Didá e Neguinho do Samba para uma rara participação nossa e ninguém se referia aos termos samba-reggae, nem samba afro. Eu e eles éramos extraterrestres naquele lugar, naquela época. Eu tive que explicar aos jornalistas que o que fazíamos ritmicamente era a essência do axé.

Senhora do Terreiro (Mãe Carmen) é outro ponto alto do álbum. Me lembra Os Tincoãs, inclusive, pioneiros na musicalidade afro de candomblé na MPB. Como surgiu essa composição e qual sua relação com Mãe Carmen e o Gantois?

Eu sou filha de santo do Terreiro do Gantois. Frequento a Casa há mais de 20 anos. Compus essa canção para homenagear essa ialorixá que amo muito. Busquei a melodia mais sincera e profunda para homenagear a ela e ao nosso santo, Oxaguian. Essa música é pura emoção. A percussão é do magistral Luisinho do Jêje, um daqueles percussionista encantados que vivem por aqui.   Você sempre foi discursiva, dramática, teatral. Coisas de rainha (risos)! Em Extranhos Terrestres,  Vinil Virtual (Aperto na Mente 2) e Antropofágicos São Paulistanos, você evidencia isso, novamente. São canções manifestos, com influências do canto-falado do rap. Essa vontade de discursar está mais forte e necessária agora?

Eu resolvi ser quem eu sou até as últimas consequências (risos). Aquela coragem, aquela inconsequência, dos jovens de 50 anos (risos).  

E a bonita homenagem ao mestre Gil em De Deus, de Alah, de Gilberto Gil? Conte um pouco dessa canção e de sua relação com Gilberto. Gil é o Deus do suingue, da melodia e da poesia. Coisa de deus da música. Coisa de nordestino abençoado. Coisa de poeta do sertão. Coisa de negro, orgulhoso do seu legado africano! Coisa de orixá vivo, coisa de baiano! Conviver com ele durante um ano como sua vocalista (1989) me deu a chance de confirmar a genialidade que eu já percebia através de seus discos. Sou o que sou por causa dele também. Com essa canção, eu só quis dizer: obrigada, Gil! Como uma artista como você, que hoje usa a música também para defender ideias além do entretenimento, se posiciona numa realidade política e econômica tão conturbada como a brasileira atual, sem falar da alta violência e da falta de bem-estar social que nos envolve? De que forma isso te afeta?

O mundo já foi muito pior. O Brasil já foi um lugar muito mais difícil de se viver. Mas antes, não havia espírito para escutar manifestações. Desde o Plano Real, a euforia do equilíbrio/crescimento econômico reina no brasileiro. Não foi à toa que a trilha sonora desse período foi de celebração, alegria, leveza... Eu vim usando metáforas para falar das questões que sempre me tocaram. Agora, parece que o Brasil acalmou para escutar a diversidade de discursos dos seus artistas. Esse é o novo ciclo da música que, provavelmente, trará questões pertinentes às lutas que nunca acabaram. E eu vou continuar cantando minhas metáforas para mudar o que precisa ser mudado.

O Verão e o Carnaval vêm aí. Quais os seus planos para a temporada solar em Salvador?
A boa forma de uma exagerada, por Hagamenon Brito * A quaresma têm durado muito (risos). Esse foi um ano cansativo para todos nós. Acho que o Carnaval tem que ser um momento de leveza e bom humor. Quem quiser isso, pode vir atrás da Rainha Má no Crocodilo e no Trio sem Cordas. Vou mais uma vez me reinventar. Exagerado (1985), pérola de Cazuza sobre sentimentos exacerbados, deve(ria) ser uma das canções prediletas de Daniela Mercury. Com o amor de Malu Verçosa, a cantora parece que, enfim, aprendeu a brincar consigo e a defender suas ideias, características e musicalidade de forma  livre e desencanada em intenção e gesto. Vinil Virtual (Biscoito Fino) funciona como uma boa síntese pop da trajetória de Daniela: de discípula Malévola do tropicalismo a pioneira das timbragens eletrônicas no Carnaval de Salvador, passando pela apaixonada profissão de fé no samba-reggae (Três Vozes é uma obra-prima nesse sentido) e outros ritmos afro-baianos como o ijexá, passando pelas guitarras, pelo envolvimento com o candomblé (Mãe Terreiro, para Mãe Carmen, é linda e evoca Os Tincoãs), o samba funk, a reverência aos mestres (De Deus, de Alah, de Gilberto Gil) e a world music (Maria Casaria), sem esquecer do amor pela musa jornalista. São 15 faixas (canções mesmo, sem vinhetas), número exagerado para o padrão atual de álbum, com vibração, discurso e corência com tudo que ela construiu até aqui. No reino da Rainha Má é assim. *Editor e crítico musical do CORREIO

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