Música

Elza Soares: uma conversa com a cantora negra que desconhece a palavra tristeza

Em entrevista ao iBahia, a artista falou sobre carreira, política, feminismo e a sua ligação com a Bahia

Isadora Sodré (isadora.sodre@redebahia.com.br)
- Atualizada em

‘Dura na Queda’: o nome da música composta por Chico Buarque e gravada por Elza Soares no álbum ‘Do Cóccix Até O Pescoço’  (2002) dá uma boa ideia do que foi e é a vida desta artista negra de 81 anos eleita a cantora do milênio pela BBC.

Foto: Patrícia Lino/Divulgação
Obrigada a se casar aos doze anos, vítima da violência doméstica e da fome, marcada por um relacionamento conturbado com o jogador Garrincha e com a dor da perda de quatro dos sete filhos. Esta é uma parte da vida de Elza Soares que diz desconhecer a palavra tristeza e ainda dá apoio para outras mulheres através da música.

O disco ‘Deus é Mulher’ (2018), o 34º da sua carreira, só mostra a capacidade de reinvenção e da força desta artista diante da sua caminhada marcada por momentos de sofrimento e de reviravoltas.

Em entrevista ao iBahia, Elza Soares, que se recusa a ser chamada de senhora, fala sobre infância, sexo, política, carreira e sua ligação com a Bahia que, de tão forte, foi seu refúgio para se curar do sofrimento do falecimento do filho Garrinchinha, fruto do relacionamento dela com o jogador.

Além desta entrevista, resta aos baianos apreciar a voz singular de Elza Soares no palco principal do Teatro Castro Alves nesta sexta-feira (12),  às 21h, com a turnê que tem como nome o último disco da cantora. 

iBahia: Você teve uma infância sofrida, relacionamentos conturbados, perdeu filhos, mas mesmo assim você encontra uma força de vontade para lançar discos, se reinventar, estar sempre no palco. De onde é que você tira essa força?

Elza Soares: Eu sou uma filha de Deus perfeita, sou uma mulher, tenho raça, tenho coragem. Eu não conheço a palavra ‘tristeza’, eu conheço ‘luta’. Acredito muito na superioridade da vida.

Quando você percebeu seria cantora e que tinha esse dom dentro de você?
Desde criança, né? Desde pequenininha já cantava com meu pai, pois ele tocava violão e me chamava para cantar com ele. Então, desde criança já sabia dessa minha alegria de cantar.

O que esse cantar significa para você? O que você sente quando sobe no palco?
Uma energia positiva, pois eu não canto para mim, canto para as pessoas. Quando eu canto por trás de mim sempre há uma palavra de doação. Doar é muito importante, falar da vida é muito importante, crescer é muito importante e cantar me dá tudo isso.

Os seus discos mais recentes “Deus é Mulher” e “A Mulher do Fim do Mundo” ressaltam muito a força feminina e o lugar dela na sociedade. O que é ser uma mulher negra no Brasil?
É ter raça, é ter vontade de viver e acreditar. Eu acho que a cor da pele da gente, da minha cor da pele, nunca me atrapalhou em nada, me deu foi muita força. Nunca parei no espelho para dizer assim: “ah, eu sou preta”. Nunca parei para ver isso não, não tive tempo para isso não, não tenho tempo para isso. Chamo às mulheres e digo: “venha comigo, pare de se olhar no espelho e dizer que você é preta. Você é um ser humano”. É assim que eu me vejo.           

Seus discos mostram sua versatilidade de estilos musicais.  Você passeia pelo rap, pelo rock... Por que resolveu se voltar para estes ritmos?
Eu não resolvi me voltar para esses ritmos não. É você cantar música. Eu tenho um público muito jovem que me acompanha sempre. Eu nunca parei para dizer que sou sambista... Eu sou cantora e como tal tenho obrigação de cantar tudo. Eu não sou refrigerante, eu não tenho rótulo.

E o que é música para você?
Uma dádiva, um presente divino.

A música 'Exu na Escolas' é uma das canções mais fortes do seu novo disco e traz um tema discutido há anos, mas é muito atual: o racismo e a intolerância religiosa. Qual é a importância de trazer este tema em suas canções?

As escolas determinam só um caminho religioso. Você não pode ter um caminho religioso, você é o que você é, o que você quer ser. Você não tem que ser católica, você tem que ser o que tem que ser. Você tem liberdade. Eu busco a liberdade também na música.

Como é a sua ligação com o candomblé?

Pra mim o candomblé é uma coisa muito linda. Eu tive minha mãe (de santo) que partiu há pouco tempo (Mãe Stella de Oxóssi),  que morava aí na Bahia, que era minha referência mesmo. Eu tinha ela como tudo para mim. Vi muita força nela, que mulher maravilhosa... Que Deus dê toda a luz divina para ela.  

Elza e o filho Garrinchinha, falecido em 1986
Qual é a sua relação com a Bahia? Tem alguma história marcante que você viveu aqui?

A Bahia tem uma palavra para mim muito forte, sou irmã de todos vocês. Salvador é uma terra muito sagrada, muito doce, muito maravilhosa. E eu tenho Caetano (Veloso), que é uma pessoa que eu amo muito, que foi uma grande referência na minha arte, na minha música. Fiquei um tempo grande em Salvador quando perdi meu filho (Manoel Francisco dos Santos Júnior, o Garrinchinha, morto em 1986), precisava de um apoio e fui buscar em Salvador. Sempre tive nesta cidade uma referência maravilhosa, nunca me faltou nada.  Sempre tive bênçãos da Bahia. Tenho histórias mais fortes também que não devo contar em público.

As músicas ‘Banho’ e ‘Quero Comer Você’ são músicas que falam de sexo para uma mulher de uma forma sem tabu e com naturalidade. Qual é a importância disso?

Não tem que ter tabu pra isso, tem que ter liberdade. Sexo é vida. Acabou esse tabu, já passou o tempo desse tabu. Vamos parar com essa coisa horrorosa.

Na música ‘Mulher da Vila Matilde’, do álbum ‘A Mulher do Fim do Mundo’, você fala da importância de denunciar a violência doméstica. Você já viveu este tipo de violência? O que pensa sobre esse assunto?
Qual mulher brasileira, negra ou branca, que não sofreu este padrão de vida? A mulher sofre desde que nasce, a mulher já nasce sangrando, já nasce sofrendo. Nesta música eu fiz um alerta muito grande para as mulheres e eu tive boas respostas com essa música até hoje, tanto que ela está no repertório do show.

Você acredita que todo artista é um ativista político?
Ele é um ativista, se é político eu não sei. O microfone na mão é um perigo. Com o microfone na mão você denuncia, você se defende, você fala o que você quer. Então todo aquele que tem um microfone tem arte e é um ativista sim.
Foto: Reprodução
Você já pensou em desistir da carreira de cantora? Se sim, por quê?
Há muito tempo, mas eu tive Caetano (Veloso) que me resgatou e parei com essa bobeira.

SERVIÇO
Elza Soares
Quando: 12 de abril de 2019 (sexta-feira), 21h
Onde: Sala Principal do Teatro Castro Alves
Quanto:
R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia), das filas A a W
R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia), das filas X a Z6
R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia), das filas Z7 a Z11
Descontos sobre a inteira: 20% para assinantes do Clube Correio*
Classificação indicativa: 16 anos

VENDAS
Os ingressos para o espetáculo podem ser adquiridos na bilheteria do Teatro Castro Alves, nos SACs do Shopping Barra e do Shopping Bela Vista ou pelos canais da Ingresso Rápido.