Música

Emicida renova o discurso do rap brasileiro e faz show em Salvador

O artista, que fez show no Festival de Coachella 2011 (EUA), prepara EP com produtores americanos

Hagamenon Brito | Redação CORREIO (hagamenon.brito@redebahia.com.br)
- Atualizada em

Nascido Leandro Roque de Oliveira, o rapper paulista Emicida, 25 anos, é o grande nome da novíssima cena do hip hop brasileiro. Sua habilidade como rimador nas batalhas de improvisação lhe rendeu o apelido que funde as palavras MC e homicida.

O rapper paulista Emicida, 26 anos, é um fenômeno do novo hip hop nacional

As músicas do EP Sua Mina Ouve Meu Rap (2010) e das coletâneas Pra Quem Já Mordeu um  Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (2009) e Emicidio (2010), vendidas a R$ 5, revelam um rapper de mente aberta, sem machismo e sintonizado com o século 21. A sagacidade tem aberto boas portas para Emicida, como o convite para o Festival Coachella 2011, nos EUA, o mais importante evento  de rock do mundo - ele também estará no Rock in Rio.Enquanto prepara um EP com os americanos K-Salaam & Beatnik, o MC lança o clipe de Então Toma, com participação de Criolo (do discaço Nó na Orelha), NX Zero e Zeca Baleiro, entre outros. Emicida, que se apresentou no Pelourinho em 2009, faz show em Salvador dia 12 de agosto, às 22h, no Casarão da Montanha, no Comércio.


O que acontece com o rap brasileiro que, tirando algumas exceções e hits ocasionais, não se firma como um segmento relevante no mercado? Nada contra o underground, mas quanto maior for  a exposição no mainstream melhor para o rap, creio.
Concordo com você. Falta um pensamento mais mercadológico, planejamento, uma visão séria do que é o mercado, mas sendo oriunda do rap, longe dessa coisa superficial de parecer que está ganhando dinheiro, sabe? Business man, essa parada é ridícula quando é forçada e tá na moda, viu? Todo mundo agora entende do “jogo”. Você vai num show e, em vez de perguntarem se foi bom, perguntam se tava cheio (risos). Acredito que os artistas tiveram um problema com a redefinição das plataformas de distribuicão, por exemplo.  Alguns irmãos ficaram décadas atrás nas ideias, outros adiantaram demais e também não servem, porque só sobrevive quem sabe trabalhar no presente. Sinto que começa a haver uma mentalidade onde se crê menos na indústria e mais em sua disposição e capacidade. Tento popularizar isso, porque a indústria somos nós, se eu tô bem a indústria tá boa também, entende? Teve o lance de não mostrar a cara por um bom tempo também, o lance de muita gente copiar os Racionais na música e na filosofia, sendo que Mano Brown só vai ter um pra sempre...  Todos precisam  hoje saber a hora de estar na internet e a hora de estar fora dela, saber onde levar sua arte pensando menos como rebanho e mais como pastor.


Você não tem preconceito em usar, com integridade, as oportunidades que surgem na grande mídia para divulgar seu rap. Por exemplo, participou do disco do NX Zero. Essa tua postura recebe críticas dos rappers mais puristas?

Cara, houve um tempo em que eu me baseava na opinião de algumas pessoas que eu admirava pra tomar minhas decisões e isso é uma merda, pois quem vive minha vida sou eu. Sempre ouvi todo tipo de música, nunca tive preconceitos com gêneros. Óbvio que tem músicas que não gosto, mas é um lance pessoal meu. Convivo com essa molecada do rock na direta (eu com 16/17 anos tinha uma banda de rock). Aliás, não só com eles, como do funk, do pagode, de vários gêneros que tocam lá na quebrada. Aí, quando estou convivendo no meio musical, eu começo a ver que a coisa é meio esquisita, essa proximidade não aparece muito. Mas, porra, eu já curtia Cedo ou Tarde, do NX Zero. Estávamos lançando uma mix tape nova e quando vi Só Rezo pirei, falei que som louco e me surpreendeu, sim, porque eu não esperava um som daqueles no Top 10. Dias depois, o (Rick) Bonadio me ligou pra falar do projeto, topei, pela música. Pensei no que diriam, mas descartei isso de início, pois muita gente fala muita coisa, mas quem trabalha sou eu. Recebo críticas, às vezes, não na minha cara... Mas, em geral, todo mundo relevante se respeita aqui. Tenho uma convivência pacífica com todos os caras que admiro, de Racionais a Marcelo D2, MV Bill, Rappin’ Hood. São mestres e pilares da nossa cultura. Não procuro ter problemas com ninguém. Estamos no mesmo barco pra achar soluções.


Como surgiu o convite para o Festival de Coachella, na Califórnia, em abril?
Após a boa repercussão do episódio da série Creators Project  contando minha vida, a gente continuou se relacionando com a rapaziada do Creators e fomos fazendo outras coisas em parceria com a revista Vice do Brasil. Quando iniciaram a organização do line up do Festival de Coachella, a equipe da Vice estava fazendo parte da curadoria e nos indicou. Os gringos aceitaram e fomos! A reação foi uma surpresa. Fui achando que ninguém entenderia nada do que falamos, mas foi bem o contrário, né? Os caras piraram. Obviamente, não cantaram as letras, mas fizeram barulho pra caramba e aplaudiram um bom tempo. Tô feliz com isso ainda...


Crescer na periferia de um país com tamanha desigualdade social e violento como o Brasil não é fácil e, sendo negro, enfrenta mais dificuldades ainda. Diferentemente de muitos rappers criados nessas condições, você não utiliza o discurso influenciado pelo gangsta rap americano, o que os Racionais MC’s fazem bem. Mesmo criticando, você é positivo. Estou enganado?
Não, você está certo. Eu conto a história sob a minha ótica. Relato uma luta do lugar onde cresci. Sinceramente, acho que os frutos que o discurso radical poderia render estão aí: esses frutos somos nós, levantamos a cabeça e vamos à luta agora, construir. O ódio foi importante também, bater de frente ainda é nossa realidade. Eu não abraço essa ideia de que da noite pro dia ser preto virou legal. Quem não consegue pegar táxi ainda somos nós, sem empregos, amontoados nos morros, ouvindo as mesmas piadinhas idiotas, ainda mais em tempos de stand-up comedy onde qualquer imbecil se considera humorista e o lance da piada não é mais fazer rir, é ser sem noção.  Então, eu não abraço essa parada do discurso sisudo como único caminho, mas também não acredito que rir de tudo é saudável. Nossos ideais e motivos para lutar ainda são os mesmos, cada um com suas ferramentas. A maravilha do mundo está na diversidade e eu honro isso fazendo a minha poesia, contando a história que eu vejo. Sou refém de um otimismo inacreditável e de uma imaginação fértil monstruosa. Enquanto tiver essas duas coisas comigo, continuo vencendo.


Você mostra muito carinho pela sua mãe, dona Jacira, e por sua filha, Estela. Essa presença feminina tão íntima influencia a tua postura nada machista em relação às mulheres?
Fui criado por uma familia de mulheres. Os homens morreram ou se mandaram todos. Os que ficaram também não representaram muito. Tenho muito orgulho das nossas mulheres e estou do lado delas. Gosto de tudo nas mulheres. Tirando algumas loucuras hormonais, me sinto bem perto de mulheres. Gosto do cheiro delas, dos timbres das vozes, da textura da pele, dos carinhos. Acredito que as mulheres sintetizam muito, principalmente após se tornarem mães, que é o amor de verdade. Só uma mãe sabe o que é amor... Não falo sobre homem e mulher, falo sobre ser humano. Por isso admiro tanto as mulheres. São melhores que computadores da Apple. Elas entram em sincronia, conversam com a Lua sem palavras e a Lua conversa com as marés. Tudo tá interligado e conectado às mulheres. Só existe vida nas periferias e esperança graças às mulheres. Minha mãe me inspira muito, minha filha e a mãe dela também, minhas irmãs, são guerreiras em um mundo que segue imposições arcaicas e machistas... Tento fazer o mundo ser melhor para elas também.


Me fale da tua relação com Estela, inspiração evidente de Novo Nego Véio...
Minha filha é o melhor lugar para descansar. Ela faz toda essa loucura valer a pena. Ver aquele sorriso banguelo depois de uma semana, um mês inteiro de viagens estressantes, me revigora e me faz crer que a luta não é em vão. Antes era tudo pelo rap, agora é tudo por ela. É como se eu voltasse a crer no mundo... 


Na música Avua Besouro, você cita Beto Jamaica, do É o Tchan. Você ouve axé music?
Já ouvi essa que chegava nas rádios, por isso a rima nasceu. Citei ele como exemplo de algo que aparece, é massificado e some sem dar tchau.  Gostaria de conhecer mais coisas desse gênero. Tipo, eu gosto de Daniela Mercury, Margareth Menezes, Timbalada, Olodum, Carlinhos Brown, são minhas referências de música baiana depois de Gilberto Gil, Caetano etc. Se isso for axé, então eu respeito axé. Agora, o tingalagatinga de 4 notas que só manda mexer a bunda me dá preguiça.



Confira abaixo o videoclipe da música Então Toma, de Emicida:


SERVIÇO
Disco: Emicidio

Artista: Emicida

Produção: Emicida

Selo: Laboratório Fantasma

Preço: R$ 5

Site: www.emicida.com