Música

Entrevista: Guitarrista Fernando Deluqui apresenta novo trabalho solo

Além dos shows e da gravação do CD com o RPM, o músico segue com seus projetos autorais: um EP, um disco, apresentações e um programa de TV. Confira o papo!

Márcia Luz (marcia.luz@redebahia.com.br)
- Atualizada em




Uma geração cresceu ouvindo o vocalista Paulo Ricardo do RPM fazer a emblemática apresentação da banda na música 'Rádio Pirata' ao vivo. Quem não lembra da frase: "E na guitarra... Fernando Deluqui"? Pois é, ele é o cara que não se acomodou com o sucesso dos anos 80 e muito mais de dois milhões de discos vendidos depois, se reinventa junto com os outros membros da banda, com quem está na estrada com uma agenda cheia de shows e no estúdio gravando o novo CD. Mas não só!


Na carreira solo, os projetos estão a mil. Ele acaba de lançar o EP 'Nau' com cinco músicas autorais, um videoclipe da música 'Dançarina' (direção de Bruno Navarro), já tem apresentações marcadas, está gravando seu quarto CD solo e também apresenta o programa 'Deluqui Nau' (canal Play TV), com o qual viaja o Brasil em busca de destinos interessantes, personagens, histórias, música e surf.


As múltiplas tarefas, no entanto, não fazem do músico aquela personalidade inacessível e apressada. Pelo contrário, com uma tranquilidade que a maturidade reserva a quem vive do que gosta, ele bateu um longo papo com o iBahia, por telefone, após sair de uma sessão de gravação. Acompanhe como foi a entrevista sobre lançamentos, composições, parcerias, som e outras aventuras deste guitarrista, que já conta 30 anos de carreira, passou por bandas como Proveta Negra, Ignoze, Gang 90 e Engenheiros do Hawaii e gravou três CDs: 'Fernando Deluqui' (2000), 'Delux' (2007) e 'Jardim Secreto' (2009). 




EP Nau
"São cinco canções minhas, algumas em parceria, com produção do Lampadinha e do Tadeu Patolla, que trabalharam com muitas bandas e artistas bons, inclusive, Charlie Brown Jr. Estou muito contente em poder trabalhar com esses caras; eles têm bom gosto, sabem valorizar o trabalho bem feito, boas composições e a minha guitarra. Eu estou muito contente com isso".




Soltando a voz
"Já faz tempo que estou cantando. Desde os anos 90, tenho o trabalho paralelo ao RPM, mas em 2010, a gente fechou uma posição de não trabalhar individualmente para recolocar o RPM no mercado. Agora as coisas estão tão bem que a gente reabriu para poder trabalhar individualmente. Mas estamos gravando com o RPM e tem coisas muito legais para 2015"


Turnê Solo
"Eu já tenho algumas apresentações agendadas para 2015. Não é o mesmo tamanho do RPM, por enquanto, são casas médias e pequenas, mas já tem interesse. Algumas pessoas já viram os programas de televisão que eu fiz e o meu videoclipe 'Dançarina' ficou ótimo. O trabalho está sendo muito bem recebido. Isso vai ser legal para eu abrir outras frentes de trabalho, junto com o RPM e também com meu programa de televisão. Vou trabalhar muito. Quero ir para a Bahia, que eu adoro. Adoro surfar e Salvador têm muita onda, lindas praias e eu quero muito mostrar esse novo material para vocês aí. A Bahia tem muita música também. Daí vieram Gil, Caetano e muitos artistas do rock´n´roll, como Pitty e Raul Seixas. Vai ser muito legal mostrar este trabalho para vocês".





RPM x Som solo
"O RPM funciona de uma maneira, ele tem as suas indiossincrasias, mas a música brota com muita força e de diferentes maneiras, então, é legal que não haja nenhum impedimento. O trabalho solo são canções que estão sendo trabalhadas, eu dediquei muito tempo a elas. Não é um trabalho que precisa ser dividido para rearranjar e ser modificado por outras pessoas, porque são canções que já estão prontas. É diferente do RPM, porque não tem teclado. O que tem é o Lucas Max, que é um menino super talentoso, que toca guitarra e teclado e vai fazer ao vivo as partes que eu fiz no disco. É uma banda mais pesada, com bastante energia e melodia. São músicas melódicas, é um som que tem punch. É um lado mais concentrado da minha musicalidade, mas que tem elementos do RPM, com certeza".


Apresentações
"Agora nos dia 31 de dezembro e 1º (janeiro), faço duas apresentações em Barra Grande, na Bahia. Depois, em março, tenho apresentação em Santa Catarina, e já tenho outros pedidos. As pessoas estão achando legal saber sobre o trabalho. Estou louco para que as rádios conheçam o trabalho, porque o Tadeu (Patolla) e o Lampadinha deixaram as músicas muito radiofônicas. É um disco com tantas músicas legais que nem a gente sabe exatamente qual música trabalhar. Acho que 'Dançarina' é muito legal, a gente escolheu ela, porque tem tudo o que as pessoas querem ouvir e mais. Tem ainda outras canções como 'Ester', por exemplo, e as pessoas também querem saber quem é Ester. Está sendo muito boa essa dificuldade em escolher qual a música de trabalho"


Processo de compor
"É muito louco. Dentro da minha cabeça, quando eu percebo, a música já está pronta, já existe. O legal é perceber quando ela aparece, essa que é a jogada. Já estou com ideias muito boas e pretendo continuar as gravações (com o RPM) e aprontar um CD meu para ser lançado lá pela metade do ano. O EP vai ser trabalhado, mas enquanto isso vou gravando com o RPM, vou gravando minhas músicas e compondo novas. Meu processo de composição é um pouco lento, mas ele não para. É uma velocidade de cruzeiro, é um trabalho sem fim, mas não é ocioso. Eu deixo o canal da música aberto".


Opiniões dos parceiros
"Quando eu mostrei, na época da seleção para o CD 'Elektra' (RPM), eles queriam mexer e mudar, aí eu falei: 'vamos fazer o seguinte: vamos mudar as ideias menos acabadas, às quais eu não dediquei tanto tempo'. As músicas que já estão prontas, se você acaba mexendo, mexendo, vai ficando ruim. Com o RPM, o que eu tenho e o que está sendo aproveitado são ideias, grooves, pedaços de música, riffs, não são coisas mais completas. Neste CD, que está sendo feito agora, se encontram muitos riffs de coisas que estão feitas ali na hora, inclusive pelo Lucas Silveira (banda Fresno, que produz o novo CD do grupo), um cara muito dinâmico. Músico talentoso. É surpreendente a rapidez com que ele trabalha no estúdio. Ele combina com o RPM por gostar de coisas épicas, dos teclados e de trabalhar com melodias. Ele também tem uma personalidade muito boa para trabalhar com outras pessoas. Então, está sendo muito bom. Tenho certeza que vai gerar frutos muito bons e deixar muita gente satisfeita. No RPM, a composição acontece do jeito de um liquidificador, onde todo mundo põe a mão. No meu trabalho solo, optei por dar vazões a canções que já estavam prontas, algumas há muito tempo".




Programa Deluqui Nau
"Estou adorando. Posso mostrar o Brasil, as figuras, a música, os esportes radicais, o surf que eu adoro. Nos últimos meses, comecei a receber realmente críticas positivas. Eu nunca tinha feito televisão do lado de lá da câmera, do lado da técnica, então, demorou um tempo para desenvolver e, graças a Deus e com muito trabalho, as coisas estão dando certo e o programa já está fazendo um ano. A emissora Play TV deu carta branca para continuarmos a trabalhar no ano que vem e estamos fazendo pesquisas para encontrarmos novos destinos, coisas diferentes e que sejam legais mostrar para o público, dentro e fora do Brasil"


Inspiração
"Estou fazendo músicas novas que falam desses lugares. Jeriquaquara, por exemplo, é um dos lugares mais lindos do mundo. O Washington Post classificou a praia como um dos lugares mais lindos do mundo e eu presenciando aquele visual, com o sol do outro lado, é uma coisa absurda, um convite, uma afronta. Perfeito para colocar isso em música"  


Parceria e casamento
"Minha esposa (Virgínia Carvalho) defende minhas ideias com unhas e dentes, é parceira. Estamos sempre juntos, nas viagens, no escritório, aonde for. Estamos casados há dez anos. Ela canta bem, é flautista, e também reclama de coisas que não estão boas, pois tem um padrão estético muito alto. Às vezes, eu acho que estou fazendo uma coisa muito do c... e ela diz 'Nando, não está tão legal... Vamos rever'. Ela põe o dedo e é muito bom".


Autocobrança  
"Tenho muita vergonha de errar. Sou um cara que para ver uma entrevista minha, eu não gosto. Fico muito envergonhado, tenso mesmo, sou muito tímido. Se faço uma letra, deixo na gaveta meses, às vezes, anos, até liberar".


No Ipod
"Tenho ouvido Legião Urbana, que também está no repertório do meu show solo. Tem um cara que tem uma voz incrível e chama Paolo Nutili. Gosto das canções que têm força; pode ser um Bad Religion, Nirvana.. Eu gosto de rock com som encorpado, escuto um Jack Johnson, dou valor, mas meu barato é um som um pouco mais pesado, não necessariamente barulhento. Gosto mesmo de melodia. Pode até sujo, por exemplo, gosto de Jimi Hendrix, mas não a parte ao vivo dele. São músicas lindíssimas, mas gosto mais dos discos que ele fez em estúdio; são obras que modificaram totalmente o rock´n´roll. Rolling Stones é minha paixão. Gosto do Coldplay, da banda que não tem guitarra e o cantor tem uma voz limpa, linda, a Keane. O Beck tem umas coisas que eu gosto muito; o Foster the People veio com uma música muito legal, que é a 'Coming of Age'. Tem bastante som bom rolando, se você procurar acha, ainda mais agora com a internet e os canais que tocam muita música independente. Ao mesmo tempo em que existem a pirataria e a falência das gravadoras, existe o lado bom, que é a abertura da tecnologia, o acesso tem melhorado muito".


Novas bandas
"Muita gente vem perguntar e mostrar coisas, mas nem dá tempo de ouvir. Às vezes, o cara vai no facebook e deixa links. A gente entra lá para falar com algum amigo ou fazer uma divulgação, mas parar para ouvir não dá, a não ser que você vá produzir o trabalho de alguém. As pessoas não entendem isso. A mesma coisa é no show. Se eu tiver a possibilidade de colocar no carro ou no ônibus para ouvir, beleza, mas não é o caso. Agora, por exemplo, estou gravando com o RPM e o meu disco solo ao mesmo tempo, e tenho o programa de TV, que também faço muito da parte técnica, então, fica dificil de interagir muito sobre essa parte técnica com outras bandas".


Gabriel Medina
"Quero ressaltar a canção 'Gabriel Medina', que é uma homenagem a esse fenômeno. Esse garoto que está quase ganhando o campeonato mundial de surf, este ano. É uma música que tem masterização do Lampadinha, e é uma espécie de cruzamento entre o Jorge BenJor e o Jimi Hendrix, que eu gosto muito. Conta a história desse menino local de Maresias e uma das maiores feras no circuito mundial. Estou muito orgulhoso dele e da família terem escutado e gostado. É mais uma coisa que quem gosta do RPM e do meu trabalho pode dar uma checada e vai gostar".