Cinema

Estrela de 'How To Get Away With Murder' grava primeiro filme dirigido por Lázaro Ramos

Alfred Enoch é anglo-brasileiro e divide 'Medida Provisória' com grande elenco

Luiza Barros, da Agência O Globo
Fica difícil imaginar alguém com um currículo mais quintessentially british do que Alfred Enoch : filho do ator William Russell , conhecido por “Doctor Who” , ele estudou na Westminster School (escola anexa à famosa abadia e que funciona há mais de mil anos), se diplomou em Oxford e começou a carreira nos filmes de “Harry Potter” como Dean Thomas, um dos amigos do bruxinho. Mas, como é filho de uma brasileira, a médica Etheline Enoch, ele também fala português perfeito (com direito a sotaque e malemolência cariocas), torce para o Flamengo e, quando está por aqui, curte churrascos com a família.

Depois de muita saudade, Alfred conseguiu uma “desculpa” para ficar no Brasil por três meses: o convite para participar de “Medida provisória”, primeiro longa-metragem dirigido por Lázaro Ramos . Na trama, ele vive o advogado Antônio, um dos afetados com uma medida do governo brasileiro que determina que todos os negros devem ir para a África. Lázaro conta que teve a ideia de convidá-lo após assistir à série americana “Lições de um crime” ( “How to get away with murder” ), na qual o britânico viveu um dos protagonistas.
— Alfred é um ator muito dedicado e bom astral. É bonito ver ele trabalhando e descobrindo a cultura da mãe, que é dele também — conta Lázaro.
Como surgiu o convite para participar de “Medida provisória”?
Foi surreal. Eu estava aqui no Brasil em 2017 e uma amiga perguntou se eu sabia quem era o Lázaro Ramos, porque uma conhecida tinha comentado que ele queria me mandar um roteiro. Eu li, achei muito bom, divertido, e fui pesquisar sobre ele. Como meus representantes não leem em português, tive que tomar a decisão sozinho. Cheguei a pensar: “tem tanto ator bom no Brasil, o Lázaro conhece todo mundo. Por que ele vai me chamar para fazer esse filme?”. Mas rolou, e está sendo maravilhoso. É a primeira vez que faço algo em português.
Também é a primeira vez que você contracena com o seu pai.
Isso foi muito lindo. Meu pai começou a trabalhar em 1947, tem 92 anos. Eu achava que a gente ia ter essa oportunidade quando estava fazendo “How to get away with murder”, mas não aconteceu. Corta para fevereiro, o Lázaro perguntou se eu já tinha trabalhado com meu pai. Eu disse que queria muito, porque ele foi meu primeiro professor. Lázaro fez uma pausa e falou: “Vamos convidar ele?” E deu certo. Quem sabe não é ele quem vai ter uma carreira internacional? (risos)

Você se sente brasileiro?
Me sinto. É até um assunto engraçado. Um dia, estava num churrasco em família e minha tia falou: “Ah, mas você não é brasileiro”. E eu: “Como assim, tia?” Ela disse que eu era britânico porque nasci lá. Mas identidade não é uma coisa tão simples. Eu me considero brasileiro, mas comecei a me perguntar se realmente tenho direito de dizer isso, se até a minha tia diz que não!
Você já escreveu que outra coisa que fez você refletir sobre identidade foi viver nos Estados Unidos.
Na Inglaterra, a questão do racismo é abordada de uma forma muito diferente. Amigos meus, também atores negros, diziam que, quando eram crianças, assistiam à televisão e não viam ninguém como a gente. E eu não posso dizer isso, porque eu via o meu pai. Ele é branco, eu sou negro. Mas vendo ele, não sentia que estava fora daquele espaço. Fui para Westminster, estudei em Oxford, tive uma vida muito privilegiada. Então, não enxergava pelo privilégio. Nos Estados Unidos, tive o olhar do estrangeiro, e comecei a pensar sobre coisas que eu nunca tinha refletido antes.
E somado a isso tem a experiência no Brasil. Dá para perceber como é ser negro aqui?
Tenho conversado bastante sobre isso com a minha mãe, sobre as experiências que ela viveu aqui antes de sair do Brasil, durante a ditadura. Mas é difícil falar sobre essas coisas porque a minha perspectiva é outra, porque eu construí minha vida fora, então preciso refletir mais para poder falar sobre isso de forma coerente. É o lugar de fala.
Em Oxford, você se formou em Português e Espanhol. Já estava em busca das suas origens?
Tem duas coisas, e vou ser bem sincero. Eu comecei a pensar muito em manter minha brasilidade. Mas tem a outra coisa: achei que, como já sabia português, tinha mais chances de ser aceito na grande universidade de Oxford (risos) . Na época, fiz uma série de ensaios sobre o cinema brasileiro. Mas eu não era um bom estudante, jogava futebol, fazia peça, saía para as três boates que existiam na cidade...
A animada vida noturna de Oxford.
Nossa, você nem sabe! Espero que você nunca tenha que ir a uma boate em Oxford porque, realmente, o negócio é meio triste.
E aqui, é melhor? Aliás, você está solteiro?
Ai meu Deus! Ainda bem que estou indo embora! (risos) Sim, estou solteiro. Passei o carnaval aqui, foi divertido. Eu tenho cara de novinho, mas tenho 30 e me sinto com 50. Depois de três dias de folia, estava morto. Mas o ritmo de gravação aqui é puxado, a verdade é que não tenho saído tanto.