Cinema

Filme de 'Eduardo e Mônica' mostra relação conflituosa e Mônica 'livre'

Alice Braga e Gabriel Leone vivem casal em adaptação do clássico da Legião Urbana

Fabiano Ristow, de Agência O Globo
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Renato Russo relatou as vidas de Eduardo e Mônica com bem menos detalhes do que a de João de Santo Cristo. Se a letra de “Faroeste caboclo” serviu de sólido guia narrativo para o filme homônimo de 2013, o desafio foi maior em “Eduardo e Mônica”. Foi preciso dar contexto ao relacionamento do casal que um dia se encontrou sem querer em uma festa estranha, com gente esquisita, e construiu uma casa quando os gêmeos vieram.

As filmagens terminaram mês passado, no Rio, e o longa que entra em cartaz no segundo semestre de 2019 passa longe da densidade do faroeste protagonizado por Fabrício Boliveira e Isis Valverde. O diretor René Sampaio, em sua segunda adaptação para o cinema de canções da Legião Urbana, diz que desta vez quis fazer um mix de drama e comédia, ou, como prefere, uma “dramédia solar”.

— É um filme sobre amor, mas não quero colocar um rótulo específico nele — diz Sampaio, no set, em um casarão no Alto da Boa Vista.

Gabriel Leone é Eduardo. Alice Braga, a Mônica do cinema. E a ordem do título não se traduziu em desigualdade de protagonismo entre os gêneros. O roteiro, nas mãos de Matheus Souza, o jovem diretor responsável pelos divertidos “Apenas o fim” (2006), “Tamo junto” (2012) e “Ana e Vitória” (2018), recebeu tratamento final de três mulheres — Claudia Souto, Jessica Candal e Michele Franzt. A ideia era inserir no texto sensibilidade feminina (o de “Faroeste caboclo”, em contrapartida, foi assinado por três roteiristas homens).

— Construímos a Mônica como uma mulher livre — diz a produtora do filme, Bianca De Felippes.

É através da exploração das personalidades opostas dos protagonistas que o longa pretende capturar a essência da música: um romance que triunfa, apesar das adversidades. Assim como nos versos, Eduardo joga botão; já Mônica, 25 anos, estuda medicina e gosta do mundo das artes. Aliás, sua bota e moto fazem referências a Van Gogh e Bauhaus, respectivamente. O diretor de arte Tiago Marques, da franquia “Tropa de elite”, quis entranhar na cenografia alusões aos universos particulares das duas metades do casal.

Como se sabe, ela é de leão e ele tinha 16. E a diferença etária é central na exploração do conflito dessa relação. Mais velha, Mônica viveu a ditadura militar e é politizada, enquanto Eduardo mal se recorda dos anos de chumbo. A cena que o GLOBO acompanhou sendo filmada mostra justamente o momento em que os dois têm uma briga feia, motivada pelo fato de ele ser neto de militar.

— É um filme sobre o tempo — diz Alice Braga, que em 2019 também poderá ser vista na produção hollywoodiana “Os novos mutantes”, próximo capítulo do universo dos X-Men. — Diferenças existem em qualquer relacionamento, mas Eduardo e Mônica estão em realidades distintas. E o Renato (Russo), em ritmo de folk-rock, indicou como compreendemos o tempo através do amor.

NA BRASÍLIA DE RENATO

Decisão importante foi a de ambientar a trama na Brasília de 1986, justamente o ano de lançamento da música, no segundo álbum da Legião Urbana, "Dois". Para diretor e produtora, é uma forma de respeitar o contexto no qual Renato Russo (1960-1996) vivia: ele passou a morar na capital federal, onde aconteceu a maior parte das filmagens, aos 13 anos. A escolha da época também tem valor narrativo.

— A música abrange um longo período, até o momento em que eles têm filhos. Seria necessário mais de duas horas ou um grande videoclipe contendo passagens de tempo para dar conta de tudo, mas isso seria uma cilada. O filme poderia não conseguir se aprofundar nos personagens — diz Gabriel Leone. — Por isso focamos na construção do relacionamento e na convivência diária entre eles.

René Sampaio (que, aliás, nasceu no Distrito Federal) acrescenta:

— Não havia Tinder, Whatsapp e tanto imediatismo nos anos 1980. As conversas eram quase sempre presenciais, o que dá um tom particular à história. As relações tinham, de certa maneira, mais importância. Era preciso cuidar mais para mantê-las.

No futuro, René e Bianca querem adaptar uma terceira música da Legião. Mas não revelam qual. Tudo vai depender da recepção a “Eduardo a Mônica”, orçado em R$ 10 milhões. A julgar pelo desempenho de outras obras inspiradas na banda, podem ficar tranquilos. "Faroeste caboclo" levou 1,4 milhão de pessoas ao cinema. “Somos tão jovens” (2013), cinebiografia do cantor, 1,7 milhão. E o espetáculo musical “Renato Russo”, que Bianca também produz, já vai para seu 14º ano de existência.

— Hoje vou para qualquer lugar com a peça e lota. Até praça pública vira apoteose. É que o público da Legião se renova sem parar — diz a produtora Bianca.