Música

Jovem da periferia compõe hit e cai nas graças de famosos

Ítalo Gonçalves, de 19 anos, o nome de batismo do autor da música, é um destes baianos que se vira nos 30

Agência O Globo
O carnaval só começa em 50 dias, mas o hit da folia já estourou na Bahia. “Me libera, nega” está sendo cantada por Luan Santana, Wesley Safadão, Simone e Simaria, Luan Santana... O último a se render ao funk, que mistura batidão com os tambores do Olodum, foi Caetano Veloso, que chegou a gravar um vídeo cantando a música com direito a biquinho. “Ele fez o mesmo que eu faço no fim do clipe”, avisa, empolgado, MC Beijinho, o autor do chicletão da hora.
Ítalo Gonçalves, de 19 anos, o nome de batismo do autor da música, é um destes baianos que se vira nos 30. Mas quase dançou feio ao cometer um crime. Em 24 de novembro de 2016, desempregado, o rapaz roubou um celular e foi pego pela polícia. A ocorrência foi acompanhada por uma equipe da TV local e quando abriram o porta-malas do carro em que MC Beijinho estava detido ele já apareceu cantando os versos de “Me libera, nega”. “Na hora, pensei que podia mostrar minha música, era minha oportunidade. Corri três anos atrás de artistas e famosos, mas ninguém queria me ouvir. Sei que errei, mas consegui atingir meu objetivo”, justifica ele, que hoje frequenta uma clínica de reabilitação: “Não sou bandido”.
Até ganhar seus minutos de fama, MC Beijinho trabalhava num pet shop e tentava aumentar o orçamento com bicos. “Montava e desmontava barracas de camelô todos os dias. Eram cinco e ganhava R$ 2 por cada uma”, recorda ele. No pet shop foram cinco anos. Muitos deles cantando suas composições: “Os cachorros gostavam. Meu patrão é que não gostava muito, senão não tinha me botado no balcão para eu despachar ração para os clientes. Aí não dava tempo de cantar, né?”.
O sonho do rapaz pobre da periferia de Salvador é viver da própria música. “Estou fazendo aulas de canto e tendo ajuda de uma fonoaudióloga também. Vou gravar um EP com quatro músicas que compus e ter um trio independente no carnaval baiano”, planeja ele, que ainda não contabilizou ganhos com seu hit, mas assinou com a Sony Digital e editou a música pela Universal Music: “O que eu quero mesmo é cantar junto com o Bell Marques. Já pensou?”.
Evangélico, Ítalo ainda mora com a família numa casa humilde em Itapoã. A “nega” da música ele garante que existe. “Ela ficou uns tempos comigo lá em casa, fomos ao ensaio do Olodum e depois nunca mais nos vimos”, explica ele, sem dizer o nome da carioca, sua musa inspiradora.