Música

Maria Bethânia e Zeca Pagodinho falam sobre a turnê 'De Santo Amaro a Xerém'

Turnê chegará em Salvador no dia 14 de abril

Agência O Globo
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Maria Bethânia havia acabado de gravar sua participação no CD/DVD “O quintal do Pagodinho 3” (2016) quando Zeca Pagodinho a abraçou e disse: “Eu e ela! Ninguém quebra mais!” A cantora respondeu: “Santo Amaro e Xerém!” Nenhum dos dois sabia ainda, mas estava ali o embrião da turnê “De Santo Amaro a Xerém” que chega à Salvador no dia 14 de abril. O show, que vai estrear no Recife, passará ainda pelas cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Brasília.

— Quando se formou a ideia do show, nos lembramos na hora daquele dia, a coisa de Santo Amaro e Xerém — conta Bethânia.

Foto: Daryan Dornelles/Divulgação

A dupla, que até aquela gravação nunca tinha feito nenhuma colaboração nos palcos ou estúdios (“só tínhamos nos encontrado em festas”, resume Bethânia), não se lembra ao certo quando resolveu transformar aquele pacto carinhoso numa turnê real, com datas, ensaios, roteiro.

— Quando vi a gente já estava no estúdio ensaiando — brinca Zeca.

Exagero, claro. Na verdade, a turnê, que ainda não tem perspectiva de virar CD ou DVD, começou a se materializar quando eles se reuniram na casa de Zeca para pensar como seria esse encontro, o que cantariam.

— Almoçamos, falamos de repertório livremente, das coisas de que gostávamos de ouvir, cantamos uns pedacinhos e começamos a definir as linhas do show — lembra Bethânia, listando paralelos que os aproximam e mostrando que a ideia da turnê carrega o misto de surpresa e obviedade das boas ideias. — O samba é o núcleo disso tudo, o samba-de-roda da Bahia e o samba do Rio. Tem o fato de ele e eu sermos intérpretes. Tem a Portela dele e a minha Mangueira. Santo Amaro e Xerém.

INÉDITA DE CAETANO

A referência geográfica aos berços de cada um (Zeca é de Irajá, mas sua identificação com Xerém faz parecer com que ele sempre esteve ali) não é acaso. Como diz a letra de “Amaro Xerém”, música inédita que Caetano Veloso compôs para o show, há uma ponte, um arco, um trilho que liga os dois lugares. Rio e Bahia, com suas diferenças que parecem reforçar semelhanças (“Cosme e Damião lá é caruru, aqui é doce”, observa Zeca).

Foto: Reprodução
Bethânia tenta amarrar a ligação Santo Amaro-Xerém:

— Tem a coisa do interior, familiar, um núcleo de amor e segurança, mas também de aprendizado. São lugares onde a gente vê o outro direito.

Zeca, que passa férias sempre em Salvador (lugar para onde também viajou em sua lua de mel), continua:

— Em Xerém eu vou à feira, sento na praça pra ler jornal, vamos pescar na casa de um amigo, tem aquele negócio de 'vamos lá em casa ver o cavalo'.

Bethânia arremata a fala do amigo:

— Tem o tempo. Não tem essa muvuca contínua, esse nervosismo do telefone celular. Hoje é tudo muito apressado, as coisas esgarçam, se consomem, muda muito. Eu fico meio tonta, não acompanho.

PEDIDO PARA ZECA DECLAMAR

É a partir dessa percepção do tempo que se constrói o roteiro do show, com canções que remontam à história de ambos. No palco, eles se alternam entre momentos em dupla ou cantando sozinhos. Mas a banda — uma mescla de músicos que costumam tocar com um ou com o outro — inclui os violões de Jaime Alem e Paulão Sete Cordas, diretores musicais de “De Santo Amaro a Xerém”. Além da canção de Caetano (descrita por Bethânia como “um samba de roda chique, com uma letra sofisticada, mas muito clara), há outras inéditas.

— Leandro Fregonesi fez um samba pra mim sobre Santo Amaro, além de ter feito um refrão com essa brincadeira de Santo Amaro e Xerém — adianta Bethânia. — Adriana Calcanhotto tinha me mandado um samba comentando o campeonato da Mangueira no qual fui enredo, “A surdo 1”.

Bethânia insistiu muito para que Zeca declamasse “Acrilírico”, de Caetano, como ele havia feito naquele primeiro encontro no qual começaram a definir o show. Ele, porém, diz que no palco trava, não consegue.

— Ele é um estudioso muito atento, muito sabido — diz Bethânia. — Ele gosta de textos, sabe de cor aquelas coisas do “Drama”, toda a aula do Fauzi (Arap, diretor fundamental na construção da linguagem de palco de Bethânia, sobretudo pela declamação de textos).

Foto: Caio Duran / AgNews
Foi, aliás, por “Drama — 3º ato”, disco de 1973, que Zeca ouviu Bethânia pela primeira vez. Já ela lembra ter sido introduzida ao universo formador de Zeca ainda nos anos 1960.

— Quando estava no Opinião, as segundas eram meu dia de folga, e era quando aconteciam os shows da série “A fina flor do samba”. Ouvi todos esses gênios que o Zeca traz pra uma leitura moderna, pro estilo dele, lindo. Zeca veio anos depois. Como sou intérprete, tenho ouvido pra entender interpretação. E Zeca canta muito bem, tem uma emissão lindíssima. E divide como ninguém.

O cantor lista seus mestres da arte da divisão (Miltinho, Cyro Monteiro, Jackson do Pandeiro) e sintetiza:

— Cantar é liberdade. Não pode ficar amarrado — afirma, lembrando da conversa que eles tiveram no início do projeto e que deu um norte para o show. — Cantar com Bethânia é de tremer a perna, mas ela me tranquilizou: “Vamos fazer uma coisa pra gente se divertir”. Aí eu fui.

Serviço
Turnê 'De Santo Amaro a Xerém' em Salvador
Dia:
14 de abril
Horário: 19h
Local: Concha Acústica - Teatro Castro Alves
Ingressos: Arquibancada: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia)
              Camarote: R$ 280 (inteira) e R$ 140 (meia)