Música

Maria Rita lança álbum com samba inédito do mestre baiano Batatinha

Cantora se apresenta em Salvador no dia 22 de abril na Concha Acústica do TCA

Hagamenon Brito, do Correio 24h (hagamenon.brito@redebahia.com.br)

O tempo tem feito bem à Maria Rita. Quinze anos depois do seu primeiro álbum, numa estreia cercada de expectativa por causa da herança familiar, a filha da grande Elis Regina (1945-1982) e do pianista e arranjador César Camargo Mariano construiu uma carreira vitoriosa e de brilho próprio e, consolidada no samba, demonstra alegria com a vida.

Foto: Divulgação

A segurança, a sinceridade e o bem-estar da cantora de 40 anos são percebidos especialmente por quem acompanha e entrevista Maria Rita desde a sua estreia, como este repórter baiano que a reencontrou na tarde paulistana de janeiro no restaurante Capim Santo, nos Jardins.

Maria lança seu oitavo álbum e o terceiro dedicado totalmente ao samba, Amor e Música (Universal), produzido por ela mesma, coproduzido por Pretinho da Serrinha e com 12 faixas compostas por amigos e parceiros como Davi Moraes (seu marido), Carlinhos Brown, Marcelo Camelo, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Moraes Moreira, entre outros, além de um honroso samba inédito do mestre Batatinha (1924-1997).

Uma das melhores intérpretes do país, Maria Rita está cantando ainda melhor no disco cujo show chegará a Salvador no dia 22 de abril, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Leia entrevista com a mãe de Antonio, 13 anos, fruto do casamento com o cineasta Marcus Baldini; e de Alice, 5, da união com o guitarrista e compositor carioca-baiano Davi Moraes.

Amor e Música não estava previsto para ser gravado. Surgiu porque o DVD gravado em São Paulo, em 2017, foi cancelado, pois você ficou insatisfeita com o resultado. Foi difícil cancelar o lançamento e partir imediatamente para um álbum de estúdio?

Aconteceram problemas técnicos na gravação, ficou abaixo das minhas expectativas. Foi um momento difícil para todo mundo envolvido no projeto, mas não tinha outro jeito. Conversei com a gravadora e a minha preocupação com a integridade artística foi respeitada. Aí peguei as canções inéditas do DVD e trouxe para o estúdio, além de acrescentar outras.
É o seu terceiro disco totalmente dedicado ao samba. Não sente saudade de gravar outros gêneros, como nos primeiros álbuns?

Não sinto. No samba é onde sou mais alegre, é onde me sinto mais relevante. E busco sempre tratá-lo com elegância, porque o samba merece, tem muita dignidade e uma história cheia de riqueza.

Você mostrou ser uma boa cantora  desde o primeiro disco, em 2003, mas em que momento da carreira você sentiu um brilho especial, uma segurança de grande intérprete, algo que mudou e te engrandeceu como artista?

Foi quando fiz Redescobrir, em 2012, dedicado ao repertório da minha mãe. Pesquisei 70 músicas gravadas por ela e apenas uma não era boa, na minha opinião. É um repertório de uma qualidade absurda. Cantar aquele repertório, além do fator emocional, permitiu que eu me sentisse uma cantora de uma vez por todas, num processo de amadurecimento e domínio vocal.

Qual foi a música gravada por Elis entre as 70 pesquisadas que você não gostou?

Deixa para lá, melhor não dizer em respeito ao compositor. Não tem importância esse detalhe.

Você grava Marcelo Camelo desde o começo de sua carreira e agora ele fez uma música especialmente pra você, Pra Maria. Qual a história dessa canção?

Eu falei que tinha que ter uma música dele nesse disco e ele mandou essa, mas mandou sem título (risos). Ele fez a mesma coisa em Santa Chuva.

Como é ser casada e ser parceira artística de um músico, como é o caso de você e Davi Moraes? A convivência íntima faz a parceria artística fluir melhor? Aliás, como vocês se conheceram? 

Flui bacana, sim. É a própria história da minha vida, não é mesmo? Basta se lembrar dos meus pais. Eu vi Davi pela primeira vez num show de Gilberto Gil, em São Paulo, no qual ele tocava guitarra. Estava com uma amiga e ela disse que eu só olhava para o guitarrista (risos), mas era pelo talento musical mesmo. Depois fui para os Estados Unidos e a vida seguiu em frente. Anos depois, ele me convidou para um programa que fazia no Multishow e eu fui. Aprendi a cantar Coração a Batucar, dele, perguntei se podia gravá-la em 2014 e, ao mostrar a gravação para ele, nos apaixonamos.

Quando Elis morreu você tinha 4 anos e cresceu num mundo familiar masculino, com seu pai e seus irmãos. Adulta, teve um filho, Antonio, 13 anos, e agora tem Alice, que está com 5. Como é criar uma filha?

Quem tem filha sabe que é um desafio criar uma mulher forte e independente num mundo totalmente machista, é um desafio. Tenho a chance de poder recriar como teria sido a minha relação com a minha mãe, por exemplo. E, também, de educar Antonio a crescer respeitando e amando as mulheres a partir da convivência dele com a irmã. 
 
*O jornalista viajou a São Paulo a convite da gravadora Universal

Veja o lyric video da faixa Amor e Música



FAMÍLIA DE BATATINHA ENTREGOU INÉDITA DO MESTRE PARA MARIA RITA GRAVAR

Um dos presentes que Maria Rita recebeu para gravar em Amor e Música foi uma música inédita do mestre baiano Batatinha (1924-1997): Samba e Swing. A canção brinca alegremente com os pontos em comum entre o ritmo brasileiro e o jazz americano, ambos filhos da diáspora africana.
Foto: Divulgação
Foi a família de Batatinha quem deu o presente a Maria Rita que, confessa, ficou assustada com a responsabilidade: “Davi (Moraes, músico e marido da cantora) foi fazer um show em Salvador e ficou sabendo, através de um amigo, que a família de Batatinha tinha essa música e queria me mandar”.
“Fiquei sem reação. Era muita responsabilidade cantar um samba inédito dele, eu nunca tinha cantado nada do repertório de Batatinha. Um dos netos dele me mandou um vídeo caseiro por e-mail, tocando e cantando Samba e Swing no violão”, conta emocionada a cantora.
Como Maria Rita interpreta samba naturalmente com um toque jazzístico, como também fazia muito bem Elis Regina (1945-1982), a sua mãe, a pérola foi dada à cantora certa. Com sua vibração rítmica, Samba e Swing difere, inclusive, do estilo mais conhecido e melancólico de Batatinha, autor de clássicos como Diplomacia, Hora da Razão, Toalha da Saudade e Imitação.