Cinema

O cinema que excita (ou os 60 anos de Psicose)

Obra-prima de Hitchcock mudou a história da sétima arte e é marco do gênero de terror

Alexandre Reis*
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Uma obra-prima do cinema mundial, que pode ser classificada também como um marco do gênero de terror, completa hoje 60 anos de lançada. Psicose, de Alfred Hitchcock, que entrou em cartaz nas telonas norte-americanas em 16 de junho de 1960 (no Brasil, apenas dois meses depois), ficou na memória de muitos expectadores em função da famosa cena em que a mocinha Marion Crane (Janet Leigh) é esfaqueada no chuveiro de um dos quartos do hotel de Norman Bates (Anthony Perkins).

Mas a película em preto e branco é muito mais do que isso, tanto pelos aspectos intrínsecos quanto extrínsecos ao que os olhos pavorosos veem. A genialidade de Hitchcock começou quando ele, com seu instinto sagaz para identificar um bom enredo de suspense, fez a aposta pessoal de comprar os direitos do livro que serviu de inspiração para o roteiro de Josef Stefano e também todos os exemplares disponíveis, para que ninguém conhecesse o final da história. Chamou uma equipe de TV com quem trabalhava na época e convenceu o estúdio a realizar um filme de suspense rápido e barato, obtendo sinal verde.

Nessa equipe estavam o diretor musical Bernard Herrmann, com quem Hitchcock trabalhou em outros sucessos, a exemplo de Os pássaros (1963), e cuja trilha fez com que a audiência quase sentisse as facadas sofridas por Marion Crane no chuveiro; e o diretor de fotografia John L. Russell, que promoveu um espetáculo a parte com um intenso jogo de sombras e luzes que potencializam o horror de Psicose, muito mais sugestivo e psicológico do que violento ou sanguinário.

Mas sem o talento e a persistência de Hitchcock na busca pela perfeição, Psicose não teria arrecadado US$15 milhões apenas no lançamento nos EUA e US$60 milhões nas bilheterias do mundo inteiro, somas consideráveis para a década, provocando ainda um fascínio incalculável. Por exemplo, o diretor só ficou satisfeito com a sequência da morte da protagonista (o que colocou o expectador em choque, pois é a partir daí em que ele se vê obrigado a se identificar mais com o psicopata) após gravar a cena, que teria 30 segundos depois de editada, 36 vezes.

Outro momento marcante e que inspira outros cineastas até os dias atuais acontece quando um investigador particular é esfaqueado na escada da residência de Norman Bates e de sua mãe. A câmera posicionada no alto capta tanto a ação rápida do assassino quando o desespero inicial da vítima. Depois, em um corte rápido (o que é outra característica de Psicose), acompanhamos, em primeiro plano, o detetive cambalear pela escada, de pé e de frente para o telespectador, com os olhos arregalados, até desfalecer no chão. Um belíssimo truque para a época.  

Considerado o melhor trabalho de Hitchcock, Psicose, que mudou para sempre a história da sétima arte, fez muito bem aquilo que o diretor dizia que buscava sempre: incomodar (e assustar) a audiência. E mudou paradigmas, ao tratar de temas até então vistos como tabu, a exemplo dos chamados desvios psicóticos de sexualidade ou o transtorno dissociativo de personalidade.  

Mas o enredo, que revela um hotel onde pessoas são misteriosamente assassinadas aparentemente por uma senhora doente, é apenas mais um componente entre inúmeros outros que fazem de Psicose uma verdadeira aula de cinema. Como já disse o próprio Hitchcock em um comentário sobre o filme: “É tremendamente gratificante conseguir usar a arte cinematográfica para realizar uma espécie de comoção em massa. Não foi a mensagem que mexeu com o público, nem um desempenho espetacular, nem a história em si. Foi o filme, o cinema puro que o excitou”. 

*Alexandre Reis é jornalista e cinéfilo