Música

Para além da 'popa da bunda': conheça o grupo ÀTTØØXXÁ, promessa do verão baiano

Dono de um dos maiores sucessos musicais deste ano, o grupo quer misturar ritmos e se tornar cada vez mais pop

Carla Letícia* (carla.leticia@redebahia.com.br)
- Atualizada em

Escrito assim, em maiúscula, com os acentos trocados mesmo e letras repetidas, para remeter à dualidade. O nome por si só já pode dizer muito sobre o ÀTTØØXXÁ. O grupo, dono de um dos sucessos mais promissores do verão baiano, o hit 'Elas Gostam', faz desde 2014 uma mistura inusitada não só na nomenclatura. Com a música eletrônica unida ao pagode baiano, a banda hoje é figura certa em toda festa que se preze e se considera pop, afinal, "o que o povo ta curtindo hoje é pagodão mesmo!", garantem. 

Além da popa da bunda, um milhão de sons (Foto: Reprodução/Facebook)

Formado por Raoni Gomes, Wallace Ferreira, Osmar Cardoso e Rafa Dias, o ÀTTØØXXÁ, que acabou de ser confirmado no calendário ofical do verão de Salvador, no pré-carnaval, contou sua história nesta entrevista, que traz raízes no pagode baiano mas também nos muros da cidade. Confira:  

iBahia: Quem forma o ÀTTØØXXÁ? Como o grupo nasceu? 

Raoni: Eu sou Raoni, o pessoal me chama de KNalha. Sou de Paulo Afonso, norte do estado, assim como o Rafa. Éramos amigos de infância e como ele já tinha vindo morar aqui, a gente sempre falava sobre o que tava acontecendo, um movimento diferente. Aí um dia ele me fez o convite pra participar de um grupo chamado Os Nelsons, que também flerta muito com o grave, com a bass music e com a música regional. Foi assim que deu o start de trabalharmos juntos. Eu compus junto com ele a maioria das músicas d'Os Nelsons.

Wallace: A galera me chama de Chibatinha. Toquei em algumas bandas de pagode daqui. A primeira foi Paparico, depois teve Pagodart. Foi quando eu conheci o Oz (Osmar), ele também tocava lá. Aí rolou de gravar uma música na casa de Rafa e Oz me chamou. Gravei com Rafa e aí já era... Isso tem uns dois ou três anos. Eu não tinha referências do que rolava fora da Bahia, eles foram me mostrando.

Oz e Rafa Dias (Foto: Divulgação)

Rafa: Eu comecei a trabalhar com música eletrônica linkando com música baiana há 8 anos. Um dos meus primeiros trabalhos foram Os Nelsons, no fim de 2009 e início de 2010. Depois veio A Massa, mais música eletrônica mesmo, mais pensado para a pista. Comecei o ÀTTØØXXÁ em 2014/2015, com a ideia primordial de fazer arrocha com dubstep, que é como se fosse o heavy metal da eletrônica. Não sei porque bateu isso na minha cabeça... Só tive a ideia.

Oz: Eu sou o Osmar, mas a galera só me chama de Oz. Toco desde os 16 anos. Já toquei com Pagodart, Oz Bambaz, Beto Jamaica, Leva Noiz, e muitos outros. Sempre vivi de música a vida inteira e sempre fui um cara curioso, que gostava de pagode. Aí um dia as coisas foram acontecendo... Conheci o Rafa e o bahia bass, aí me apaixonei. Falei: 'quero isso pra minha vida'!

iB: O ÀTTØØXXÁ sempre teve então uma história ligada ao pagode. É isso que compõe esse disco novo, o #BLVCKBVNG? 

Rafa: Quando comecei a fazer o disco antigo, o 'É F*da P*rra', eu já tava nessa vontade de voltar a fazer um pagodão mesmo, e aí chamei o Oz. Ele gostou, aí já começamos a pensar no mote pra esse disco, que era reproduzir os paredões. Queria visar mesmo a sujeira, o som distorcido e o grave dos paredões. Nesse meio tempo eu criei a festa que fez mesmo bombar isso tudo, a Bota Pagodão. Quando a gente começou a fazer essa festa, vimos que a sintonia já estava feita [...] O #BLVCKBVNG, esse disco de Oz, está focado em ser mesmo música pop. É pra ser um disco popular, mais clean. Não tem como fugir do arrocha, do pagodão, do axé. Mas queremos além de ser parte da Bahia, ser parte do mundo também. E é o que fazemos agora: um pop que converse com o Brasil e com o mundo. 

iB: Existe então a possibilidade de o grupo tocar qualquer estilo? 

Rafa: O pagode é uma ferramenta. Como existem vários tipos e estilos de texto, também tem vários tipos de ferramentas para se fazer algo. Aí a gente tem um leque de ritmos que conseguimos trabalhar. Como é na Bahia, a gente tem essa proximidade de comunicação, essa coisa de se sentir pertencido à Bahia, a gente trabalha muito com os ritmos daqui. O pagode é só um deles. Talvez o mais pop.

Raoni: Se você reparar, nosso som tem tudo. Rock, pagode, hip hop.

Bota Pagodão: assim surge o ÀTTØØXXÁ !

iB: Então rolaria uma parceria com, por exemplo, Anitta?

Raoni: Rapaz, é mais fácil rolar uma parceria com Anitta do que com uma banda que você ache que pareça com a gente!

iB:'Elas Gostam' é uma das músicas mais tocadas hoje na Bahia, uma parceria com o Psirico. Como rolou essa parceria? 

Oz: Aconteceu mais por conta da amizade, por gostarmos dele e admirarmos. Márcio queria gravar essa música há dois anos atrás, antes de lançarmos. A gente foi passando (a música) pelo zap e chegou pra ele.

Rafa: Na época eu falei pra ele ter calma que a gente tava fazendo o disco de Oz , que ia trabalhar ela um pouquinho e que lá na frente a gente gravava isso. Aí no meio do ano, depois que já tínhamos trabalhado a música, o disco e feito o clipe, ele mandou mensagem de novo. Ele sugeriu de colocar só voz, mas eu disse 'se vamos fazer, vamos pra estúdio fazer uma parada nova'. Não é a mesma letra, o andamento da música não é o mesmo, é toda nova. Ele gravou a percussão inteira.

iB: O Psirico já é uma banda super consolidada na Bahia, e Márcio Victor conhecido por vários sucessos. Vocês vêem a parceria em 'Elas Gostam' como um marco, um bum na carreira do ÀTTØØXXÁ? 

Rafa: Não. A gente já tinha público, a galera já cantava todas as músicas de cabo a rabo. Achamos apenas que o fato de a gente ter gravado com Psirico nos deu um alcance que a gente não tinha. Um alcance que também passa por outras coisas que a gente não tem. Hoje a gente tem toda uma estrutura, produção, assessoria... Antigamente era eu que fazia tudo. Fazia o clipe, mixagem, pós-produção,divulgação... tudo.

iB: Tem outras parcerias vindo aí? 

Rafa: A gente tá produzindo agora o disco de Raoni. O disco de Oz tem essa linha pop, com mais pagodão. O disco de Raoni já vai ser mais R&B, mais sambão. No disco dele vai ter parcerias com Rincon Sapiência, Xenia França e outros. Fizemos uma música também com Edcity. Tem milhões de convites aí também...

iB: "Disco do Oz, disco do Raoni..." Vocês são um grupo mas cada um tem seu projeto, né? 

Rafa: Eu fui o idealizador do ÀTTØØXXÁ, e desde o Bota Pagodão a gente começou a fazer essa estrutura. A gente já tocava nos shows e tal, só que todo mundo ainda me olhava como o ÀTTØØXXÁ. Então a gente bolou uma trilogia, para apresentar os caras e mostrar que eles também são a banda. Apresentamos o disco de Oz, vamos terminar o de Raoni e depois vem o do Chiba (Wallace). No pagode sempre foi assim, só o cantor aparece. A banda é descartável, ninguém vê. A gente já acabou com isso há muito tempo no ÀTTØØXXÁ, sempre tivemos essa conversa.

Oz: Isso acontece desde as composições também. Todos cantam. Foi uma das coisas que aprendi com o grupo: só não canta quem é mudo!

iB: A banda tem uma identidade visual bem marcante. Sempre evitando usar fotos de vocês e com muitos desenhos, grafismos... Isso já veio dessa ideia de não ter um rosto para o ÀTTØØXXÁ? 

Rafa: No Instagram temos uma linguagem visual que são essas coisas que sempre curtimos, os grafites, a coisa da pichação. Bolamos um mural ali, como os muros da cidade mesmo. É baseado na rua.

(Foto: Victor Roncally/Divulgação)

iB: E por que o nome é escrito assim? 

Rafa: A gente tem esse lance nosso que é dos muros da cidade e da dualidade. O yin-yang. O nome ÀTTØØXXÁ vem da dualidade, são duas letras sempre. Eu que fiz a tipografia. Visualmente, eu ficava imaginando um lance indígena, meio tribal. O acento pra lá, o 'O' cortado. Essa é a nossa marca, sempre quisemos assim.

iB: Então ÀTTØØXXÁ tem obrigatoriamente que ser escrito assim? 

Rafa: Se possível com os 'O' cortados! (risos) 

Raoni: Mudar o nome agora já não é mais jogo. Mas sabemos que pode ser complicado, nas músicas já estamos repensando um pouco mais isso aí... 

iB: Até por conta dessa coisa diferenciada e alternativa, vocês são muito comparados ao Baiana System. Como vêem isso? 

Raoni: Que os cara é os cara (sic) e gente é a gente (risos). Nos sentimos do mesmo jeito que se fosse comparados com Psirico, Harmonia, Timbalada. São caras que a gente admira e que são referência.

Rafa: Eu particularmente acho que eles fizeram uma parada muito f*da e realmente mudaram a cidade. A galera só olhava pra cá vendo axé, pagode. Isso eles mudaram. Mas a nossa linha musical é outra. [...] A comparação com o Baiana vem porque eles foram os primeiros a fazer algo diferente. A única coisa que não é mais do mesmo, em muito tempo, foi o Baiana System. E agora a gente. Cada um tem que ter um som seu.

iB: Vocês acham que o ÀTTØØXXÁ é pioneiro no que faz? 

Raoni: Talvez. Mas eu acho que a grande diferença que a gente tem é saber comunicar. Apesar do nome maluco e da identidade estética complicada... bateu! Pode não ter chegado o bum ainda mas bateu.


Raoni (Fotos: Reprodução/Facebook)

Rafa:
 Eu acho que a gente (a Bahia) parou no tempo de 90 a 2000, musicalmente falando. Depois de Timbalada, porque a Timbalada era foda. Já era para ter gente fazendo o que a gente faz há muito tempo.

Oz: Mas tem vários peões, nós não somos os únicos. Hoje tem vários fazendo esse som aí.

iB: Será que teremos um trio com ÀTTØØXXÁ no Carnaval? 

Rafa: Teremos! Eu deposito a energia aí no universo... (risos) Estamos trabalhando para isso.

iB: Qual o show mais especial vindo aí?

Raoni: Dia 22 de dezembro, no Largo Pedro Arcanjo, no Pelourinho.  ÀTTØØXXÁ com convidados... Quem sabe Anitta? (risos)

Ouça o disco #BLVCKBVNG abaixo: 



*Sob supervisão e orientação da repórter Isadora Sodré