Cinema

Parasita: um ensaio ficcional sobre a desigualdade

O ponto forte do filme é justamente como o diretor e roteirista sul-coreano Joon-Ho Bong, em seu mais importante trabalho até aqui, conduz com maestria a história que quer contar a ponto de provocar, sem deixar pontas soltas, todos os efeitos desejados na audiência

Alexandre Reis*
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O filme sul-coreano Parasita, em cartaz nas salas de cinema de todo o país e com seis indicações ao Oscar, revela o que se passa entre duas janelas retangulares e situadas em ambientes totalmente opostos. A primeira apresenta a vista de uma moradia precária adaptada em uma espécie de porão, onde uma família se desdobra para ter internet de graça e se sustentar. A segunda está instalada em uma mansão, como uma grande porta envidraçada de correr, de frente para um belíssimo jardim, usufruída por uma família endinheirada e sua criadagem.

Quando essas duas realidades se cruzam, a experiência cinematográfica convida o expectador, num primeiro momento, a se divertir enquanto acompanha a luta pela sobrevivência dos pobres (muitas vezes sem escrúpulos e dotados de uma ética peculiar) e a benevolência dos ricos (muitas vezes travestida de inocência e seguida da indiferença), como se assistíssemos apenas a comédia qualquer. Só que, a partir do ponto de virada da narrativa, a plateia entra em choque, tanto que, ao término da exibição, o silêncio reflexivo no cinema é ensurdecedor, constrangedor e triste.

Em síntese, o enredo é o seguinte: quando um jovem desempregado é indicado por um amigo para ser professor particular de uma menina rica, ele encontra a oportunidade perfeita de empregar todos os membros da própria família miserável na mesma casa, em diferentes funções, aplicando diversos golpes ao lado da irmã, do pai e da mãe. Tudo dá certo até que os patrões retornam antes do tempo previsto de uma viagem de lazer. Ou seja, a festa armada pelos “ratos” na ausência dos “gatos” dura pouco e o cenário de conforto e luxo se transforma em uma verdadeira batalha campal.

Maestria - O ponto forte do filme é justamente como o diretor e roteirista sul-coreano Joon-Ho Bong, em seu mais importante trabalho até aqui, conduz com maestria a história que quer contar a ponto de provocar, sem deixar pontas soltas, todos os efeitos desejados na audiência: da leveza do riso fácil à elucubração profunda sobre quem de fato são esses parasitas. Isso sem apelar para caricaturas ou clichês conhecidos. Por isso o filme ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Parasitas nos conduz da comédia ao suspense psicológica de maneira natural e devastadora, com personagens solidamente construídos por um roteiro repleto de nuances que sugam a atenção da plateia, claro que com a ajuda de boas atuações e de uma refinada edição. Todos os oito personagens principais passam por alterações profundas ao longo da projeção, de modo que nossos sentimentos em relação a eles nunca são sempre os mesmos. Por isso a produção concorre ao Oscar de melhor filme, roteiro original, filme estrangeiro (leva fácil), direção, edição e desenho de produção.

Vale frisar ainda que as duas famílias retratadas no filme vivem numa Coréia do Sul pouco conhecida da maior parte do ocidente, com desemprego, miséria e problemas estruturais típicos das metrópoles brasileiras. Por tudo isso, Parasitas, que nos premia também ao satirizar o belicismo da Coréia do Norte e o puxa-saquismo aos norte-americanos, aborda, sem trilha sonora, o conflito e a indiferença entre pobres e ricos. É um ensaio ficcional sobre a desigualdade social. Mesmo filmado do outro lado do planeta, é uma história universal.

*Alexandre Reis é jornalista e cinéfilo