Cinema

Racismo e paternidade: Fabrício Boliveira fala sobre o longa 'Breve Miragem de Sol'

Ator baiano é o protagonista do primeiro filme exclusivo da Globoplay

Isadora Sodré (isadora.sodre@redebahia.com.br)
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Um taxista que percorre as ruas movimentadas do Rio de Janeiro está sempre a espera do inusitado, pois nunca se sabe quem é aquele que entra no veículo. Esta é a vida de Paulo, um homem desempregada de 40 anos, recém-divorciado, que começa a dirigir um táxi na capital carioca.

Foto: Miguel Vassy/Divulgação
'Breve Miragem Sobre o Sol' é o primeiro longa-metagrem exclusivo da Globoplay dirigido por Eryk Rocha e protagonizado por Fabrício Oliveira. O enredo retrata o universo de um trabalhador brasileiro, além de ser um filme de denúncia que mostra um pai querendo ascender socialmente em um mundo desigual.

O portal iBahia conversou o ator baiano que deu alguns detalhes sobre a sua carreira, o período de isolamento social e sobre o enredo e a produção do filme que já está disponível na plataforma de streaming.


iBahia: Em que momento da sua vida você se deu conta que ator seria a sua profissão?
Fabrício Boliveira: Quando entrei na Universidade Federal da Bahia senti que tinha que a arte era o meu melhor jeito de me comunicar com o mundo.

Salvador é uma cidade cinematográfica, das pessoas à formação geográfica. Como a Bahia te influencia na sua profissão?

A cultura negra é muito potente e diversa na Bahia, isso a diferencia de todo o país. Então, carrego comigo a espontaneidade, a musicalidade, a nitidez nas ideias que sempre vi nas ruas de Salvador.

iBahia: Você já fez de tudo: teatro, cinema, novelas. Qual é a diferença de cada um deles?
São jeitos diferentes de se contar uma história. A duração, o onde, o para quem e o como são perguntas que alimentam essas diferenças no momento de construção, por exemplo.

O que mudou na sua vida após fazer parte de um elenco da novela da Globo?
Acho que aumentou as possibilidades de comunicação com o público e com isso a responsabilidade de ter uma arte mais necessária.

O período da quarentena mudou a vida das pessoas, profissionalmente e pessoalmente. Como tem sido a sua vida profissional durante estes dias? Que trabalhos tem desenvolvido?
Muitas reuniões para o pós pandemia, mas fiz uma animação sobre a Revolta dos Malês, um experimento digital, um curta... Enfim , tentando dialogar com esse tempo.

E pessoalmente? Como tem se sentindo durante este período de pandemia? O que tem feito pra enfrentar o tédio?
Tenho ficado bastante em casa trabalhando. Sei das dificuldades de muita gente de ter esse privilégio e escolha, mas tenho aproveitado para refletir sobre o que não quero levar mais pro mundo pós-pandêmico. Estou tentando “dar conta”, sem perder de vista também as necessidades do entorno e o sofrimento das pessoas com as perdas por Covid-19.

O filme 'Boa Miragem de Sol' possui um pano de fundo político e social que permeia a vida das personagens em diversos nuances. Você acha que todo ser humano é um ser político?
A política está nas relações humanas - quando, como e o que você escuta e fala para o outro são aspectos que estão para além do seu desejo. Necessita de algum diálogo.


O filme também traz a ideia de que as pessoas necessitam de interações sociais, de respeito, de diálogo. O que acha que podemos aprender com o outro?
O Paulo é um homem comum de grande capital que lida com questões do machismo, do racismo e da paternidade enquanto dirige o seu táxi. Os encontros com os passageiros o levam a reflexão e impulsionam seu movimento de transformação . Acho que o grande trunfo do Paulo é a escuta para o outro.


É a primeira vez que você lança um filme em uma plataforma digital? Se sim, como é essa experiência?
Sim. Acho super necessário o “Breve Miragem de Sol” ir para o streaming nesse momento e acho que isso abre possibilidades para outras produções serem feitas diretamente para essa janela. Alimenta o mercado e pode suprir as deficiências nas políticas públicas do audiovisual desses últimos 2 anos.

Hoje, vemos muitos mais atores negros em evidência, tanto no cinema, quanto na TV. O que isso significa pra você? Como acha que isso pode influenciar outras pessoas negras que pretendem seguir a carreira da dramaturgia?

Isso significa que a luta ainda continua por inserção de pessoas negras no audiovisual brasileiro. A quantidade ainda é muito pouca e os casos recentes de falta de personagens negros em novelas, por exemplo, denúncia a falta de atores, mas também de autores, diretores, uma equipe mais diversa ainda faz muita falta nesse setor audiovisual brasileiro.