Música

'Salvador dita o que pode ser lançado com força no Brasil', diz Vanessa da Mata ao iBahia

Cantora realiza show do álbum ‘Quando deixamos nossos beijos na esquina’ neste domingo (26), na Concha Acústica do TCA

Ícaro Lima* (icaro.lima@redebahia.com.br)
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Ao chegar em seu sétimo álbum de estúdio "Quando deixamos nossos beijos na esquina", Vanessa da Mata ainda mantém a vontade de experimentar novas ações artísticas. Agora, a cantora traz o resultado do projeto para Salvador, em um show neste domingo (26), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA), a partir das 19h. Os ingressos já estão à venda e custam entre R$ 60 e R$ 240.

Em um bate-papo com o portal iBahia, Vanessa da Mata contou detalhes sobre este primeiro álbum que ela produz, além de falar sobre religião, a sua relação com a Bahia e a possibilidade de novos projetos. 

Foto: Divulgação

O álbum “Quando deixamos nossos beijos na esquina” é inteiramente autoral e o primeiro produzido por você. Como foi estar relacionada a um produto artístico dessa maneira, em uma nova posição?
É muito diferente, realmente, estar mergulhada nesse ponto, sob uma visão que precisa ser protegida, no sentido prático, porque o produtor tem essa visão prática do álbum. É ele que limita o artista a dizer 'para de gravar as vozes, está bom isso aqui, não precisa mais guitarras, acho que uma guitarra atrapalha a outra’. E isso eu consegui fazer de uma maneira até fácil. Talvez pela severidade com o que eu me trato, porque como tenho essa veia poética enorme e sou muito criativa.  Em algum momento preciso ser prática ou ouvir uma bagunça, porque a poesia é feita de muitos detalhes.

O lado prático vem de uma maneira quase como uma produção, ele precisa ser arrumado. Tanto em livro, como na feitura de uma música e agora descobri também como no estúdio, fazendo a produção de um disco. Foi delicioso fazer, mas também me deu esse lado completo. Poderia ter sido muito ruim, ter dado muito errado, justamente por não ter essas paredes, essas limitações, e ter ficado uma loucura, uma artista sem nenhuma parte que limitasse, de quase duzentas e tantas vozes gravadas e, no final, pegar uma voz tão regravada que não tivesse nenhum tato com o natural. E na verdade, muitas vezes, em muitas músicas, a primeira voz gravada é a que está valendo. 

Em muitos momentos eu cheguei no estúdio e fiz como fazia antes com o Liminha ou com o Kassin (produtores musicais), eles acreditavam no meu lado compositora e fiz a letra e melodia ali e fui para o estúdio gravar. 

Tinha pedaços de melodia que eu gostava e tinha uma certa organização nos meus cadernos de músicas principais, ditando o que seria o disco, os títulos de cada música, as ideias de abordagem desse disco, do que eu falaria principalmente. Isso me deu uma ideia de totalidade do que seria falado no disco, de letra, dos ritmos que eu achei que poderiam ser inseridos e esse comprometimento total artístico foi muito divertido. 

Acho que essa maturidade foi necessária nessa altura da minha obra. Foi complementar, nova, me deu uma surpresa, um gosto diferente, um frescor nesse minuto da minha vida artística, foi muito gostosa. E fazer o cenário também me trouxe esse frescor artístico. Eu já fazia muito figurinos, e fazer o cenário, me dirigir em cena, foi uma delícia.

Você pretende continuar produzindo seus álbuns?
Se a direção continuar fluindo do jeito que fluiu esse disco, com 2 meses e meio, e me dar uma sessão de inteireza, desde a composição até os arranjos, claro que irei.  Gostaria de continuar, mas isso também, vou testar, é a primeira vez, não sei se vai continuar fluindo. Acho que esse disco foi muito bem-sucedido. Ele está jovem na mixagem, nas letras, na dinâmica de como ele flui nos ritmos. Está gostoso de ser ouvido e eu não me canso de ouvi-lo mesmo tendo feito, tendo ficado tanto tempo dentro do estúdio. Isso é um bom sinal. 

E produzir o álbum de outros artistas? É possível?
Já pensei em produzir discos de outros artistas, acho muito interessante. Mas aí tem que ser pensado, porque existe a coisa do tempo. Eu viajo muito, os produtores estão ali muito porque têm tempo para isso, e eu sou uma cantora que está em turnê, quando tiver tempo, quero escrever um livro. Além disso tem meus filhos, então é diferente. Mas eu já componho para outras cantoras, adoraria produzir uma cantora ou um cantor. Isso é entrar em um outro universo musical, é muito interessante. Por que não?

Não é a primeira vez que você faz show em Salvador. Acha que essa cidade tem algo diferente em relação a outras? 
Sendo uma artista brasileira, acho que Salvador é uma capital imprescindível a ser passada, a ser visitada. Uma cidade que exige isso. Eu, desde meu começo de carreira, passo. Tem algumas capitais que são imprescindíveis. Tem Salvador, Brasília, cidades do Sul, São Paulo, Rio... E Salvador, desde o começo, é uma cidade vitrine. Ela lança pessoas, ela catapulta, ela viraliza. Ela tem um ponteiro que dita o que pode ser lançado com força no Brasil, muitas vezes mais do que muitas outras capitais. Tem um instinto musical muito forte. A musicalidade da Bahia não é brincadeira. 

Não é à toa que grandes artistas do Brasil saíram daqui. Tem muita gente que acha que eu sou baiana, não tem noção que eu sou mato-grossense. Ouvir o sotaque baiano já me traz um alento, um gosto, um afeto, uma memória afetiva de todos os lados, desde o meu aprender a andar até o meu café da manhã que era feito com cuscuz, beiju. Então é muito confortável estar na Bahia. Entre todas essas tensões que a carreira produz, pressões e opressões, estar na Bahia lançando um disco, um show novo, como será no TCA, de certa forma, me traz, por um lado, uma memória afetiva que me dá um alento, e me tira essa parte da pressão. 

Costuma visitar algum lugar específico da Bahia, seja quando vem se apresentar ou nas férias?
Sim, eu tenho muitas amigas em Trancoso, filhas de pescadores que moram lá. As filhas da Glória, uma senhora que era parteira, e que são minhas irmãs. Aqui em Salvador, costumo ir em alguns lugares específicos, cafés, gosto muito de sentar e ficar escrevendo. Tenho primas aqui em Salvador, que são de Barreiras. 

Quando vou a Barreiras, vou muito a Angical, cidade da minha avó, que descobri há pouquíssimo tempo e que gosto muito de ir. Descobri que é a cidade da música também. Tem três orquestras na cidade que, se não me engano, tem 6 mil habitantes e 70% da população é de músicos. Então é notório que é uma cidade da música. Interessantíssima a cidade. 

Você costuma postar mensagens de orações de diversas religiões no Twitter. Como essas energias impactam na sua vida e também nas suas músicas?
Eu fui criada por uma avó católica, me batizei no catolicismo, muito cedo. Eu era a pessoa que narrava as novenas na cidade, minha avó me colocava sempre. Conforme eu fui crescendo, fui lendo sobre várias religiões. 

Hoje eu sou batizada no candomblé, sou da nação Ketu, e gosto de muitas outas, do sincretismo em geral. Gosto do que se relaciona ao amor, ao caráter, independente de religiões. Respeito ateus, ateias. Acho que muitas pessoas sem religião nenhuma são muito mais apropriadas do religioso, do espiritual, que muitas outras que estão por aí dentro de templos tomando dinheiro de outras e fazendo hipocrisias, absurdos, soberbas, usando sua psicopatia, se aproveitando desses poderes mundanos para se aproveitar do próximo. 

Acho que a espiritualidade tem muitos caminhos e o invisível tem muitas características. O invisível é gigantesco, a voz é invisível. Se você falar com seus amigos, você ouve diversas características da voz, você é influenciável por ela o tempo todo. Você ouve amor, você ouve ódio, tudo. 

Você tem algum novo projeto em mente?
Sempre tenho projetos para o futuro, mas estou curtindo ainda muito esse. Componho, não posso parar de compor, é um exercício. Eu preciso escrever porque é meu alento, minha maneira de me arrumar por dentro, é como eu me organizo interiormente e como me satisfaço. Quase que, para muita gente, são as terapias. É a maneira como eu me sinto arrumada, faço a minha faxina interior. Agora também não posso contar, porque a surpresa só existe quando é exercida e eu adoro surpresas [risos]. 

Serviço:

Vanessa da Mata 
Quando: 26 de janeiro
Onde: Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA) – Campo Grande
Horário: 19h
Ingressos: R$ 60 (plateia – meia) / R$ 120 (plateia – inteira) / R$ 120 (camarote – meia) / R$ 240 (camarote – inteira)
Vendas: Site Ingresso rápido, bilheteria do Teatro Castro Alves ou nos SACs do Shopping Barra e do Shopping Bela Vista

*Sob supervisão e orientação da repórter Isadora Sodré