Séries

Seis séries não óbvias de comédia com humor crítico

Fora dos clichês e dos preconceitos ainda vistos, confira séries não óbvias que brincam com ironias e outros aspectos da comédia para debater temas atuais e criar boas sacadas reflexivas

Vanessa Brunt, do Não Óbvio*
- Atualizada em

Quem nunca apreciou uma boa série de comédia nos momentos em que precisava enxergar os problemas com mais leveza? Foi-se o tempo, porém, em que uma piada com teores machistas ou preconceituosos em quaisquer instâncias seria facilmente aceitável. Atualmente, é necessário que haja uma narrativa mais consciente, até mesmo para os risos frouxos.

Agora, imagine diálogos que, além de serem engraçados – e cuidadosos, para que o respeito geral seja mantido – também são críticos. Afinal de contas, quem disse que o humor não é um meio para fazer refletir profundamente? A sagacidade da ironia e de outras técnicas utilizadas pelas comédias fora do óbvio estão aí para comprovar.

Séries como Brooklyn Nine-Nine, a recente Sex Education e Black-ish são famosas por conseguirem conciliar humor, sagacidade e crítica social.

Mas, e se a pessoa que aqui vos escreve lhe disser que há outras tramas seriadas para serem apreciadas e que, inclusive, algumas precisam ser assistidas para não terem o mesmo fim que One Day At a Time?

Pensando nas diversas possibilidades, o NÃO ÓBVIO listou 5 séries de comédia que abordam debates atuais de formas criativas e fundamentais. E, o melhor: (quase) todas estão disponíveis na Netflix e a maioria vai para além das produções estadounidenses. Confira e clique nos títulos para assistir:

1. Adorável Psicose
Produção do Multishow, a série brasileira Adorável Psicose é criada e estrelada por Natalia Klein, também roteirista da trama. A comédia tem como base as experiências vividas por Natalia, que costumava retratar algumas delas em seu blog homônimo, site que foi fundamental para que a ideia da série fosse surgida.
Foto: Reprodução
Com humor próprio, inteligente e crítico, a obra apresenta a protagonista como uma jovem que acha dilemas nos mínimos aspectos da sua vida. Qualquer que seja a situação do dia, sua reação não é das mais costumeiras. Disso, já é possível observar uma das críticas da série: a mulher, geralmente, é vista como louca, enquanto o homem, quando critica aspectos da vida, é visto como sagaz e observador (além de outra leva de qualidades que são citadas em geral). Assim, a trama caminha também por críticas diversas ao machismo.

Em meio a tal realidade, a personagem (totalmente inspirada na vida real) decide procurar tratamento com uma psicanalista, a Dra. Frida. As consultas servem para que Natalia revele seus problemas pessoais, que sempre a levam a questionamentos sociais.

As críticas são diversas e alcançam aspectos sobre preconceitos variados do povo brasileiro e, muitas vezes, sobre questões globais. Política e outras vertentes também não deixam de aparecer como temas nas reflexões das entrelinhas.

Natalia é solteira, tendo ao seu lado dois melhores amigos que tentam ajudá-la (um gay e uma menina bastante sarcástica e mais desencanada dos problemas – que apresenta a diferentes e possíveis facetas femininas).

Na lista de personagens, ainda existe o cara de bigode, que pode ser visto, por vezes, como uma metáfora para um outro lado incluso dentro da própria protagonista.
☌ Ano: 2010 – 2014.
☌ Temporadas: Cinco.
☌ Finalizada? Sim.

Em 2013, a trama alcançou o TOP 5 em diversos momentos nas listas de séries mais vistas da TV paga. Chegando perto de nomes como The Walking Dead e American Horror Story: Coven, a obra foi um dos maiores sucessos nacionais das televisões fechadas.

2. On My Block
Série com um foco maior no público adolescente, On My Block pode surpreender pelo estilo fora dos clichês das tramas teen. Na narrativa, quatro amigos encaram o desafio do ensino médio, enquanto moram em um bairro marginalizado de Los Angeles. São eles: Ruby Martinez (Jason Genao), Monse Finnie (Sierra Capri), Cesar Diaz (Diego Tinoco) e Jamal Turner (Brett Gray).
Foto: Divulgação
A amizade é testada logo no primeiro episódio, enquanto que precisam lidar cada um com as pressões sociais que sentem, além de terem uma nova integrante no grupo: Olívia (Ronni Hawk).

O elenco é diverso, composto em sua maioria por negros e latinos. Além disso, a trama aborda de forma ácida críticas relacionadas a questões como envolvimento com gangues, violência, deportação, racismo e sexualidade.

É aquela série que possível de causar risadas logo nos cinco primeiros minutos e, ao final de cada episódio, transforma o riso no silêncio do impacto reflexivo. E é justamente ela que você não quer que tenha o mesmo destino que a já citada One Day At a Time: cancelamento.

Mas, fica o aviso: nem sempre só o humor é trabalhado. Há também o equilíbrio das graças da obra com bons toques de drama e tensão.
☌ Ano: 2018 – presente.
☌ Temporadas: Duas. A segunda estreou recentemente.
☌ Finalizada? A série ainda está no aguardo da possível renovação.

Vale o destaque para o episódio 4 da primeira temporada, em que é Halloween e os cinco protagonistas resolvem fazer o “Gostosuras e Travessuras” em um bairro de gente branca e rica, causando grandes críticas sociais cabíveis para o povo brasileiro. Outro destaque é para o final da temporada, que conta com um cliffhanger poderoso.

3. Chewing Gum
O humor britânico é conhecido por ser peculiar e nada melhor do que tal adjetivo para definir a série Chewing Gum. Na trama, Tracey (Michaela Coel) é uma jovem mulher negra e mora na periferia de Londres. Ela vive com a irmã, Cynthia (Susan Wokoma), e com a mãe, Joy (Shola Adewusa), e vem de uma família extremamente religiosa, em que foram criadas as garotas para que ‘ficassem puras‘ até o casamento.
Foto: Reprodução
Só que Tracey quer perder sua virgindade e, para isso, tenta seduzir o namorado (também religioso), mas no meio do caminho tudo acaba dando mais errado do que o esperado. Além disso, a protagonista é amiga de Candice (Danielle Walters), a quem pede ajuda. Daí em diante, a série caminha para as experiências cotidianas Tracey e seus amigos e vizinhos.

Chewing Gum debate classes sociais, religião e racismo de forma bem humorada e insana. Ela é uma escolha não óbvia também por quebrar a quarta parede, com Tracey nos contando suas peripécias.

Além de ser a protagonista, a atriz Michaela Coel também é a roteirista e produtora da série. Em entrevistas, ela falou que algumas situações que sua personagem passou foram inspiradas em sua própria vida.

Inclusive, o rosto de Coel pode ser bem familiar: ela fez o episódio USS Callister da quarta temporada de Black Mirror. A atriz foi vencedora do BAFTA TV Awards como melhor performance feminina numa série de comédia.
☌ Ano: 2015 – 2017.
☌ Temporadas: Duas.
☌ Finalizada? Aparentemente, sim.

Michaela Coel disse que a segunda temporada seria a última. Porém, o canal original de exibição no Reino Unido, Chanel 4, disse que haveria uma terceira. Em novembro de 2018, Michaela twittou confirmando o cancelamento da série, mas logo depois deletou o tweet. Até agora, não se sabe se haverá ou não outra temporada.



4. Derry Girls
Ainda inclusa no humor britânico, existe a indicação Derry Girls. Se a adolescência já é conhecida por ser uma fase turbulenta para o autoconhecimento, imagine ser adolescente em uma cidade pequena da Irlanda do Norte, numa época em que o país vivia um conflito entre protestantes e católicos, que chega até a ser violento?
Foto: Reprodução
É essa a realidade que Erin Quinn (Saoirse-Monica Jackson), sua prima Orla McCool (Louisa Harland) e suas amigas Clare (Nicola Coughlan) e Michelle (Jamie-Lee O’Donnell) passam durante os anos 1990, morando em Derry, interior da Irlanda do Norte. Junto à elas está James (Dylan Llewellyn), primo inglês de Michelle e recém chegado.

O humor de Derry Girls é mais um que foge da caixinha: numa trama com adolescentes, se espera bailes, garotas populares, disputas e aqueles quesitos batidos que ainda foram poucos quebrados mesmo nas novas tramas. Porém, a série resolve jogar tudo isso no lixo e nos apresenta cinco protagonistas que não são populares, estudam em um colégio interno católico feminino e estão sempre encrencados com a diretora da escola, a irmã Michael (Siobhan McSweeney).

James é o único menino a estudar na escola, sob a justificativa de que “ele é inglês” e tudo bem. E, fugindo de outro estereótipo, a irmã Michael não tem nada do que seria o estigma de boazinha, sendo extremamente sarcástica.

Além disso, há a família de Erin e Orla: todos moram sob o mesmo teto e isso dá espaço para muita confusão e risadas. A série aborda também a sexualidade e destrincha como o conflito político da Irlanda do Norte interfere (ou não) na vida de Erin, sua família e suas amigas.

Um dos destaques fica para a irmã Michael, que rouba a cena diversas vezes.
☌ Ano: 2018 – presente.
☌ Temporadas: Duas. A segunda estreou recentemente no Reino Unido, mas ainda sem previsão de estreia no Brasil.
☌ Finalizada? Não.

A série foi inspirada em alguns acontecimentos que a criadora Lisa McGee vivenciou.

5. Please Like Me

Mais outro caso de produzida e estrelada pela mesma pessoa, Please Like Me é uma dramédia (drama e comédia) australiana que conta a história de Josh (Josh Thomas), um cara que terminou recentemente com a namorada e descobre ser gay. Sua ex, Claire (Caitlin Stasey), e seu melhor amigo, Thomas (Thomas Ward), o ajudam e lhe dão apoio, já que, enquanto Josh descobre sua própria sexualidade, precisa lidar também com a depressão da mãe.
Foto: Reprodução
A série se passa em Melbourne, com Josh e Thomas dividindo uma casa. Por abordar saúde mental e a descoberta da sexualidade, a trama pode soar bem dramática, mas tudo isso é feito com humor, ainda que tenha seus episódios mais sérios.

Mas o trunfo de Please Like Me é que, assim como Chewing Gum e Derry Girls, a trama também é inspirada própria vida de Josh Thomas. Os acontecimentos que vive na comédia, o próprio roteirista e protagonista também viveu.

De tal forma, é fácil se relacionar com as descobertas que Josh faz, afinal, as situações tornam-se muito reais, ainda que tratadas de maneiras bem humorísticas.

Seus personagens são complexos e possuem várias camadas. Uma coisa para se notar é que os nomes dos episódios de Please Like Me são pratos culinários e que de fato aparecem no episódio em questão. Há também referência à divas pop, mas de uma forma bem diferente.

Vale a pena assistir não só pelos temas que trata, mas também para apreciar produções que saiam do eixo Estados Unidos – Reino Unido.
☌ Ano: 2013 – 2016.
☌ Temporadas: Quatro, todas disponíveis na Netflix.
☌ Finalizada? Sim.

A série foi vencedora de vários prêmios na Austrália, dentre eles o AACTA Award por Melhor Série de Comédia.

6. Atypical
Outra que está mais para o estilo dramédia do que comédia em si, Atypical aparece nessa lista porque é aquela série conforto que aquece seu coração quando necessário e aborda um tema muito importante: autismo.
Foto: Reprodução
Sam Gardner (Keir Gilchrist) é um jovem de 18 anos que vive dentro do Transtorno do Espectro Autista. Sua psicóloga Julia Sasaki (Amy Okuda) o aconselha a buscar uma namorada. Só que Sam não tem muitas amizades além de Zahid (Nik Dodani), seu colega de trabalho, e a própria irmã, Casey (Brigette Lundy-Payne).

A dramédia trabalha o Transtorno do Espectro Autista de uma forma delicada e positiva, expondo os preconceitos enfrentados e deixando claro que um autista é capaz de fazer as mesmas coisas que uma pessoa fora desse espectro faz.  

Também há outros debates envolvidos, como questões familiares e o que é ser adolescente e amadurecimento.
☌ Ano: 2017 – presente.
☌ Temporadas: Duas, renovada para terceira.
☌ Finalizada? Não.

A série recebeu muitas críticas positivas, principalmente por conseguir abordar autismo de forma não estereotipada e também por saber equilibrar comédia e drama. 



*Conteúdo em parceria com o site Não Óbvio