Cinema

Silêncio ensurdecedor contra a solidão

Primeiro filme chileno da Netflix, "Em Ninguém sabe que estou aqui" é uma boa pedida durante isolamento social

Alexantre Reis*
- Atualizada em

Nesses tempos de quarentena, que tal um filme Netflix sobre isolamento social? Em Ninguém sabe que estou aqui, primeira produção original chilena adquirida pelo serviço de streaming, um ex-cantor mirim vive, já adulto, com o tio em uma pequena ilha afastada do restante da humanidade. Não por conta de uma crise sanitária, mas de outra doença do século: a solidão depressiva de quem é vítima de julgamentos sociais distorcidos, preconceitos e visões estereotipadas de mundo.

O filme trata dos conflitos pessoas e interpessoais de Memo, dono de uma voz preciosa que fracassou por não se encaixar, segundo o mainstream, no perfil ideal para gerar uma empatia com o público – ele não era considerado bonito. Então, com o respaldo do pai, a voz de Memo é “cedida” a outro garoto, este sim uma estrela em ascensão por conta do carisma e boa aparência. A partir daí, e sempre sob a perspectiva de Memo, é que a trama se desenrola, misturando presente e passado, fantasia e realidade.

Com um argumento aparentemente simples, trata-se de uma história contada com ousadia por um trio de roteiristas e pelo diretor estreante Gaspar Antillo, que usa diversos artifícios narrativos e estéticos para fugir da obviedade e da pieguice, a exemplo da não linearidade e da variação, algumas vezes arriscada, por provocar um certo desconforto e descompasso, nos tipos de cortes (transições) entre as cenas.

O mérito é que nada no filme é entregue fácil ao espectador. Nada é revelado com antecedência para gerar um clímax final que provoca na audiência um misto de reações que vão do êxtase à decepção, sensações comuns entre a utopia e a distopia do protagonista.

O silêncio ensurdecedor de Memo, que se calou após ter o talento dramaticamente tolhido, é outra característica que torna a história cativante. Não há um diálogo digno de nota, mas o filme contém pausas dramáticas que dizem tudo na construção do personagem e na condução da experiência cinematográfica.

O ponto de virada de Ninguém sabe que estou aqui acontece quando Memo, interpretado pelo comediante cubano Jorge Garcia (figura conhecida principalmente pela participação em Lost), se apaixona e tenta romper timidamente o silêncio ao qual se sentenciou. Paga o preço por se tornar vítima dos holofotes de uma sociedade, e de uma mídia, que julga facilmente pelas aparências, sem se preocupar com motivações ou consequências.

*Alexandre Reis é Jornalista (Instagram: @areisjornalista)