Séries

'True detective' é lenta e eletrizante ao mesmo tempo

Os personagens estão perto dos 80 anos, com as caracterizações das mais bem-feitas já vistas nas séries

Patrícia Kogut, de Agência O Globo
A nova temporada de “True detective” (HBO) vem sendo saudada com admiração e um certo alívio pelos fãs. É que a série estreou muito bem em 2014, com uma aventura consagradora para o elenco e os roteiristas. Depois, ressurgiu numa segunda temporada fraca, que desagradou à maioria do público. Agora, a produção recupera o vigor do início com uma história intrincada que vai se construindo em três cronologias. É tudo um pouco lento, verdade. Mas o calibre dos vasos que irrigam a trama e fazem a comunicação entre esses tempos vai crescendo de forma genial e surpreendente.
Foto: Divulgação
Seguimos os policiais que investigam um crime ocorrido no Arkansas em 1980. Wayne Hays (Mahershala Ali, vencedor do Oscar), veterano do Vietnã, e Roland West (Stephen Dorff), um sujeito dedicado, mas menos talentoso que o parceiro, formam essa dupla. Eles tentam descobrir o que houve com dois irmãos de 12 (um menino) e 10 anos (uma menina). Uma tarde, as crianças saíram para passear de bicicleta e não voltaram na hora combinada. A espinha dorsal do enredo é a história policial. Mas o roteiro também explora — e não de forma lateral — outros conflitos. Então, aos poucos (o espectador precisa de paciência: o ritmo é vagaroso) vamos conhecendo o desamparo da família. Scoot McNairy é Tom Purcell, o pai dos desaparecidos, sempre traído pela mulher, Lucy (Mamie Gummer), com quem não divide mais o quarto. A tragédia do sumiço agrava o drama conjugal, favorece o alcoolismo dele e os separa mais ainda.
Dez anos depois, os policiais são chamados a depor, porque o caso, não inteiramente elucidado, pode ser reaberto. Não entro nos detalhes para driblar o spoiler.
A terceira cronologia se desenrola em 2015. Os personagens estão perto dos 80 anos, com as caracterizações das mais bem-feitas já vistas nas séries. Wayne sofre com a suspeita de Alzheimer. Ele decide se agarrar à memória que ainda lhe resta para, ao repassar os acontecimentos, finalmente tentar esclarecer o mistério, que permaneceu sem resolução.
A trama policial é invadida o tempo todo pelo drama do racismo enfrentado por Wayne na corporação. Embora ele fosse o mais sagaz da equipe, nunca conseguiu ser ouvido com a devida atenção. Essa questão também evolui através das décadas. Nos anos 1980, o preconceito era mais livre, menos envergonhado. É um tema tão importante que, em muitos momentos, parece ser o motto primordial da narrativa e fica acima do mistério que amarra tudo.
“True detective” arrebata e comove. Pelo suspense, pelas atuações, pela cinematografia e pelo painel histórico. Não perca.