Música

Uma Clarice perto dos 30: mais madura, cantora se abre ao iBahia: 'já fui muito alienada'

Artista, que se apresenta no TCA, no dia 15, falou sobre carreira, política, feminismo e... filhos?

Carolina Dourado* (carolina.dourado@redebahia.com.br)
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Conhecida pela versatilidade do seu trabalho, a cantora, atriz e escritora Clarice Falcão vai mostrar tudo isso em cima do palco soteropolitano. Ela se apresenta no Teatro Castro Alves (TCA), no domingo (15), a partir das 18h. A sua nova proposta de show, inclusive, remete muito sua personalidade: inovadora, destemida, cheia de surpresas e instável.

'Voz e Guitarra e Mais Coisas' traz ainda recordações do começo da carreira de Clarice, com faixas antigas, atuais e também do futuro - cinco canções inéditas fazem parte do repertório -, além de versões de hits já conhecidos pelo público. "Surgiu a possibilidade de fazer um show voz e guitarra e foi tão legal, a gente gostou tanto de fazer, foi tão divertido ter uma liberdade de estar só você e o músico", contou. 

Foto: Reprodução/ Instagram

Hoje uma mulher mais madura e que deseja coisas novas, a artista confessou ao iBahia que sempre tenta colocar verdade em tudo que faz. Em um bate-papo leve, ela não fugiu dos temas que foram abordados, desde carreira, 'Porta dos Fundos', política, feminismo, empoderamento feminino e até mesmo sobre Gregório Duvivier, seu ex. "Por uma época me incomodava ser sempre associada à um ex-namorado". Ela ainda falou de Anitta, Jojo Todynho, MC Carol, Bahia e assuntos mais delicados, como a morte de Marielle Franco. Confira entrevista na íntegra:

iBahia:
Como foi pensar em uma proposta diferente de show que unisse passado, presente e futuro, como o 'Voz e Guitarra e Mais Coisa'?
Clarice Falcão: Cara, não foi muito pensando. Ele até surgiu por uma necessidade. A gente ia pra Portugal e não tinha como levar a banda toda. Ai surgiu a possibilidade de fazer um show voz e guitarra e foi tão legal, a gente gostou tanto de fazer, foi tão divertido ter uma liberdade de estar só você e o músico, sabe? Poder mudar tudo, colocar coisas novas, parar e conversar com o público, voltar, responder alguma coisa que alguém falou. Nós fizemos esse modelo em Portugal e me veio essa ideia. Eu já estava com algumas músicas compostas e eu não sabia como entregar isso para o público. Eu gosto de terrenos novos, foi assim que eu comecei. Antes eu colocava as músicas no YouTube sem nem saber se as pessoas iam gostar, se foi bom... Ai eu pensei que seria uma ótima oportunidade fazer um show que não é pretensioso. Inclusive eu testo tocar instrumentos que não sei tocar, vou testar tocar umas músicas novas, diferentes, para saber se as pessoas gostam, saber como elas se comunicam. É muito importante comunicar com o artista.

iB: E como é trabalhar e ser dirigida pelo seu pai?
CF: A gente lá em casa sempre foi meio circense nesse sentido. Eu gosto muito de trabalhar com família e amigos, acho que deixa tudo mais divertido. O tipo de arte que faço precisa desse conforto, então quando eu não to trabalhando com família, eu estou trabalhando com amigos. O próprio 'Porta dos Fundos' foi uma experiência de grandes amigos, músicos... enfim, eu gosto muito de trabalhar com gente próxima. Você está acostumado com as pessoas com quem tem intimidade.

iB: O que você mais gosta da Bahia?
CF: Eu tenho muitos amigos baianos e conheço muita gente, acho que o povo baiano tem muita similaridade com o povo de Recife (Clarice é pernambucana). Tem uma coisa muito parecida, o Nordeste geral tem um senso de humor. Acho que dá para perceber que o baiano é muito engraçado e eu me identifico muito com isso.  Eu sito que o público é muito quente, presente e entende a piada.

iB: Vemos você se posicionar sobre causas sociais, como por exemplo o direito da mulher e outras questões como o feminismo - abuso, aborto e estupro. Você, como mulher e formadora de opinião, se vê no dever de levantar a bandeira e lutar por essas causas?
CF: Acho que ‘dever’ é uma palavra muito forte. Acho que tem gente que não se interessa ou que não sabe o suficiente, por isso é importante a gente saber até onde vai.... É bom termos opiniões, mas não precisamos dar opinião sobre tudo. Eu não vou me posicionar sobre física, por exemplo, até porque não sei nada [risos]. Mas, como mulher, acho que me vejo numa posição ‘favorável’. Todas nós sofremos machismos durante as nossas vidas, apesar de ter sofrido menos em relação à uma mulher negra, periférica, por ter crescido numa família de classe média alta. Acho que faz parte da nossa vivência e termina transmitindo na arte. Eu tenho achado cada vez mais importante se posicionar neste momento, com essa onde retrógrada, conservadora que a gente está passando. Como a gente não consegue mais manifestar com o nosso voto, é preciso se manifestar de outras formas e a gente tem que usar os meios que consegue. Eu já fui muito alienada.

iB: O que você como artista, mulher, feminista, branca, classe média alta, como você mesma se referiu, pensa em relação a local de fala? Quando você levanta a bandeira para questões sociais de outros movimentos que você não se encaixa, mas defende?CF: Eu acho importante você saber o lugar do aliado e eu não digo que eu sei, mas eu acho que é uma descoberta. Eu sou aliada à essa causa porque também ficar calado faz com que você alimente coisas que você repudia. Você presenciar um ato racista e não falar nada eu acho que é quase você fazer parte do processo. Então, eu acho que é muito importante você primeiro reconhecer os privilégios que você tem - e a maioria de nós tem muitos, e eu sei que tenho muitos -, mas por exemplo, um homem branco e rico terá mais privilégios ainda. Então é preciso entender o seu lugar e aprender a ficar quieta também, aprender a ouvir... É muito agoniante quando tem alguém explicando a dor do outro, pro outro... às vezes é importante ouvir.  

iB: E outras artistas e mulheres, como Anitta e Jojo Todynho, que são mais 'taxadas' pela sociedade por serem funkeiras. Como você avalia o papel delas para a luta que nós, mulheres, enfrentamos contra o machismo... É sempre bom ter mais mulheres abraçando a causa e falando sobre empoderamento feminino?
CF: Claro! Eu sou muito, muito fã, um dos meus maiores ídolos do Brasil, é a Mc Carol, de Niterói. Eu acho que politicamente é uma das pessoas mais bem posicionadas no meio artístico. Uma pessoa que inclusive sofreu uma tentativa de assassinato, uma violência extrema, por ser mulher. Eu acho que ser funkeira não influencia em nada, pelo contrário, o funk tem um papel social muito forte, mas claro quem tem funks que são ofensivos do mesmo jeito, assim como tem rocks que são ofensivos, pagode, sertanejos... mas eu acho que essa coisa do preconceito com o funk é uma reação muito classista e preconceituosa mesmo. 

iB: Alguns artistas baianos, como Pitty e Caetano Veloso, também se posicionam abertamente sobre questões sociais e políticas. O que você pensa sobre isso? 
CF: Acho que existe uma reação completamente desmedida em relação ao funk. Quanto mais pessoas defenderem, melhor. Mas, se um funkeiro faz uma música misógina, o que é um absurdo, a reação é muito maior do que se, por exemplo, as músicas que são consideradas clássicas.. enfim, acho que existe enraizado uma classismo mesmo. Tudo isso interfere na propagação dos discursos dessas mulheres.

iB: Você já sofreu alguma repressão por deixar seu posicionamento político em evidência? Como você lida com isso? 
CF: Sempre [risos]. A gente ta vivendo num momento muito delicado. Os dois lados estão muito inflados, qualquer post, notícia... você entra em qualquer lugar e sempre tem alguém xingando “é isso ai!”. 

iB: Você já pensou em entrar no universo político e quem sabe se candidatar? 
CF: Jamais e acho isso impossível de acontecer. Quero continuar me posicionando, mas não é um universo que eu acho que seria boa, não tenho essa firmeza de espírito, eu acho que eu ia chorar no primeiro dia.

iB: Falando sobre um assunto mais delicado, você propôs recentemente no Instagram uma reflexão sobre o que está sendo passado em relação ao caso Marielle Franco. Muitos artistas também postaram sua indignação sobre o ocorrido, mas qual sua opinião em relação ao que aconteceu? Calaram a voz de mais uma mulher ou tem algo além disso?
CF: A minha impressão, ainda mais com o caso recente assassinato do colaborador, pra mim é.... eu nesse caso tô acreditando na teoria conspiratória de que foi uma execução, obviamente é mais um assassinato de uma mulher negra e também um assassinato político. Acho que você despolitizar o assassinato é um desrespeito à memória dela. Ela vivia uma vida política, ela era política. A existência dela, ela estar onde ela estava, já era um ato político. Então, mesmo se não fosse uma coisa mandada, e eu acredito muito nisso: um assassinato político em mandar executar uma vereadora, negra, mulher... acho muito emblemático.

Quem fala que o que rolou foi assalto ou é burro ou é mal intencionado.

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iB: Ainda no meio dos assuntos delicados, como você lida com o turbilhão de perguntas sobre Gregório e o Porta dos Fundos? São duas coisas do seu passado que tiveram forte influência em quem você se tornou? 
CF: Com certeza! Tem sido cada vez menos, o tempo vai passando. Por uma época me incomodava ser sempre associada à um ex-namorado, ou mesmo na época à um namorado, é uma coisa que fazia frequentemente. Mas hoje em dia isso quase não acontece mais. E sobre o ‘Porta’, as pessoas perguntam sobre carreira... foram anos de minha vida, me formaram como comediante, como intérprete em geral.. então, não me incomoda mais.

iB: Em entrevistas mais antigas, você falou sobre ser uma pessoa que sempre procura por novas experiências e mudanças. Com a cabeça de quase 30 anos, qual a diferença você percebe entre a Clarice de 18 anos, aquela atriz que entrou na novela 'A Favorita', da Clarice com quase 30, agora também escritora e cantora? 
CF: Toda, eu acho, mas pouca também. Acho que todo mundo sente a mesma coisa quando se olha com esse intervalo tão grande de tempo. Por um lado, você achou que mudar, superar e tá até hoje igual... 'ah quando eu crescer vou ser de tal jeito'. Mas também que muita coisa mudou. Eu cada vez tenho me importado menos com os outros. Quando eu comecei a fazer sucesso, e começaram a vir as críticas, era muito pesado pra mim... Eu ia pro banho e chorava, ficava péssima. Mas a maturidade traz esse pensamento de que você não precisa agradar todo mundo e se eu agradar todo mundo eu vou ser muito sem graça. 

iB: Qual sua opinião sobre essa pressão social dos 30 anos? Casar, ter uma carreira promissora e estabilizada, ter filhos?
CF: Hoje em dia essa idade foi muito pra frente. Eu tenho muito amigos que com 30 anos ainda dependem dos pais... Mas pra mulher é muito pior. Até porque ainda tem o fantasma do ‘relógio biológico’. Mas acho que, graças a Deus, a gente ta tendo cada vez mais essa conversa. Dizem que o feminismo está na moda e que bom, realmente tem que estar mesmo... Não tem menos problema em estar na moda. Quando algo fica em evidência é muito bom, né? Acho que as pessoas estão conversando mais sobre isso e eu sinto que o diálogo está cada vez mais aberto... Sobre tanto a possibilidade de você não ter filhos, ou de você ter filhos e apenas cuidar do seu filho, ou ter filhos e trabalhar muito e seu marido cuidar do filho... Enfim, são milhões de possibilidades e acho que a gente tá caminhando a passos curtos, mas caminhando.


Foto: Reprodução/ Instagram 

iB: E em que essas três veias artísticas te auxiliou? É mais fácil se 'manter' no mercado tendo essa versatilidade ou você acredita que isso não tem muita importância?
CF: Tem os dois lados da moeda. Quando eu termino um disco que eu estou com a cabeça frita de música, eu faço um projeto de humor, de atriz ou roteirista.. Isso me renova e eu acho muito bom, mas por outro lado tem um certo estigma de que 'ah é uma atriz que canta’. Mesmo eu tendo começado a cantar antes de entrar no Porta dos Fundos, ‘ah não essa menina do Porta resolveu cantar’, 'ah não essa cantora agora vai ser atriz’, então acho que as pessoas sempre vão falar, mas pra mim isso me alimenta muito como artista.

*Sob orientação e supervisão do repórter Guinho Santos.