Cinema

Veja o perturbador e angustiante 'American Son'

Filme é baseado na peça homônima da Broadway

Heyder Musatafá* (heyder.mustafa@redebahia.com.br)
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Um cenário, quatro personagens e algumas importantes discussões dão forma ao intenso ‘American Son’, filme lançado neste mês pela Netflix a partir da adaptação de uma peça homônima da Broadway. O racismo é o cerne do enredo, embalado pelas tristes estatísticas envolvendo a morte de negros nos Estados Unidos e por movimentos como o Black Lives Matter. Com uma carga dramática inesgotável, diálogos primorosos e atuações de fazer qualquer um perder o fôlego, o filme-denúncia cumpre seu papel de provocar reflexões sobre o que está acontecendo não só na sociedade americana.

‘American Son’ é econômico, simples e direto. A história inteira se passa dentro de uma delegacia, onde quatro personagens interagem sobre o sumiço de um adolescente negro, que saiu de casa à noite e até aquela altura da madrugada não havia retornado. O formato palco dispensa importantes elementos cinematográficos e demanda a mais completa entrega dos atores, que prendem o espectador do começo ao fim com muito talento e um texto irretocável. À frente dessa missão, a fantástica Kerry Washington dá vida à mãe do rapaz desaparecido. Ela é soberana em cena, dialoga com todos os outros personagens e traz à tona os assuntos debatidos no filme.

Foto: Reprodução

O desespero por não saber o paradeiro do filho e sua indignação com a falta de respostas do policial que acompanha o caso são palpáveis, ultrapassam a tela e chegam até o público de uma forma arrebatadora. Nos rápidos e intensos diálogos, é claramente perceptível o lugar de fala de casa um: ela, a mãe negra preocupada com o filho; ele, o policial branco pedindo calma. É nesse descompasso que surgem os embates propostos pelo filme.



O interessante em ‘American Son’ é que ao denunciar a constante e crescente violência contra a população negra, principalmente no sul dos Estados Unidos, o texto dá espaço para o contraditório e oferece a oportunidade de o público enxergar a situação também pelo prisma da polícia. Sem negar os fatos, sem deixar de criticar a burocracia envolvida ou de explicitar o claro preconceito racial e de gênero presente na história, o filme é lúcido. São 90 minutos com o dedo na ferida dessa sociedade cada vez mais polarizada e maculada por pré-julgamentos. Não há como ver ‘American Son’ e permanecer indiferente, seja pelo competente elenco ou pelo delicado debate.     

*Heyder Mustafá é jornalista e produtor cultural formado pela UFBA, editor de conteúdo da GFM e Bahia FM, apresentador do Fala Bahia e apaixonado por cinema, literatura e viagens.