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A emoção da conquista da primeira Copa América pelo Brasil em 1919

O time brasileiro tinha sido oficialmente escalado 40 dias antes da Copa, após um ano de enfadonhas discussões em tordo de como seria formada a seleção

Nelson Cadena

Na manhã de 03 de maio de 1919, um século transcorrido, uma multidão se acotovelava nas imediações das Docas da Alfândega, no Porto do Rio de Janeiro; fogos de artifício saudavam o comboio de seis embarcações que escoltavam o paquete “Florianópolis”, navio do Lloyd Brasileiro que transportava as delegações do Chile, Argentina e Uruguai, logo mais disputariam com o Brasil a 3º Copa América.

Os jogadores desembarcaram cansados da longa viagem, no percurso apenas duas paradas para treino em terra, nos Portos de São Francisco__ Santa Catarina___ e Santos. Os Uruguaios, favoritos para levar o troféu pela terceira vez consecutiva, presentearam as autoridades brasileiras com uma coroa de bronze destinada ao túmulo do Barão do Rio Branco. O torneio denominado de Campeonato Sul-Americano__ Copa América era o nome do troféu__ seria disputado apenas entre quatro selecionados: Argentina, Brasil, Uruguai e Chile.  Este último era mero figurante, não tinha equipe à altura dos concorrentes.

Acervo do Arquivo Nacional
O time brasileiro tinha sido oficialmente escalado 40 dias antes da Copa, após um ano de enfadonhas discussões em tordo de como seria formada a seleção; os paulistas defendiam a tese de que a base deveria ser de jogadores do Santos e do Corinthias com o apoio de alguns jogadores cariocas. Um jogo realizado em inícios de abril entre os combinados A e B balizou a escolha da seleção definitiva. A Copa América era naquele tempo o único campeonato no mundo de seleções de futebol, antecipou-se mais de uma década ao Campeonato Mundial da FIFA que teve Montevidéu como sua primeira sede.

Mais de três semanas depois da festiva recepção a nossos vizinhos e após inúmeras homenagens, almoços e jantares de praxe, o estádio do Fluminense (Inaugurado para o evento) completamente lotado, acomodou vinte e três mil pagantes e, no gramado, repórteres dos maiores jornais dos países em disputa. O público assistiu desde o apito inicial um Brasil confiante decidido a apagar o estigma de terceiro lugar conquistado nas duas copas até então realizadas. A multidão presente no estádio ovacionou o selecionado brasileiro quando entrou em campo, três craques portavam corbeilles de flores naturais entrelaçadas com fitas de seda nas cores das bandeiras das três nações amigas.
Os campeões de 1919. Acervo do Arquivo Nacional
Um dos melhores lugares do estádio para assistir a grande final era do lado de fora, o morro das Laranjeiras, mais de três mil pessoas vestindo chapéus para se proteger do sol escaldante das 14 horas, entoava vivas a Friedenreich, o nosso grande ídolo; o craque não decepcionou marcando o gol da vitória contra a esquadra Celeste, na segunda prorrogação, após um jogo de longos 150 minutos. Esse gol e sua magnífica atuação lhe valeu o apelido de “El Tigre” por parte da imprensa uruguaia, na década seguinte já era reconhecido como o melhor centro avante do continente.

Nos camarotes a elite festejava brindando com bons vinhos europeus; nas arquibancadas pequenos balões era impulsionados de mão em mão; na entrada do estádio a banda de música da Marinha entoava marchas; no morro o populacho era pura exaltação. Quem não pode acudir ao estádio e vivenciar a grande festa da vitória, teve a chance de assistir o jogo, na semana seguinte, no Cine Palais, um filme mudo, chuviscado, produzido por Victor Chiachi, Joaquim Machado e Alberto Botelho. Não existia ainda o cinema sonoro, cabia ao público imaginar a trilha e acelerar o coração.
Acervo do Arquivo Nacional
Originalmente publicado no jornal Correio*, edição de 07 de junho de 2019