Copa 2018

Avessos a sorrisos, russos mudam com a proximidade da Copa do Mundo

Torcedores que visitarem o país durante o Mundial descobrirão um russo sobre o qual não se costuma ouvir, nem ver

Agência O Globo

Logo no desembarque no aeroporto de Sheremetyevo, em Moscou, o oficial que controla os passaportes do estrangeiro mal olha nos olhos do viajante. Nada de bom dia, por favor ou obrigado. Murmura algumas palavras em inglês para facilitar a comunicação. Faz parte do trabalho de quem se senta daquele lado do guichê a impessoalidade, é bem verdade. Mas na Rússia guardou-se, como herança dos tempos de União Soviética (URSS), a cultura do pragmatismo — especialmente em contatos com desconhecidos, num contraste bem nítido com o estereótipo da “hospitalidade brasileira”. Desde a época soviética, dispensam-se as palavras supérfluas no país da Copa do Mundo. Sorrisos, então, valem ouro.

Mas os torcedores que visitarem o país durante o Mundial descobrirão um russo sobre o qual não se costuma ouvir, nem ver. É claro que o turrão de sempre ainda existe. Mas eles se tornaram mais descontraídos, sobretudo nesta época do ano, quando o verão muda de maneira radical o humor nacional.

— Minha avó dizia que rir sem motivo é uma estupidez, já eu vejo o sorriso como um sinal de alegria. Essas percepções mudam com o tempo — conta o sambista russo Alexey Morozov, diretor da escola Samba Real e organizador do carnaval de Moscou, que ocorreu no fim de maio.

Sim, a Rússia de hoje tem até carnaval. Sorrisinhos gratuitos ainda são vistos com reservas, principalmente entre os mais velhos. Associa-se a eles a ideia de artificialidade ou fragilidade. Sorri demais quem é bobo ou irônico. No duelo ideológico da Guerra Fria, não apenas sistemas econômicos entraram em choque: os russos foram ensinados a atribuir os excessos de sorrisos — e sua ideia de superficialidade — aos americanos.

O jogo muda, é verdade, quando se deseja a sensação de bem-estar. Não à toa, a TV estatal “Russia 1” editou esta semana uma foto do líder norte-coreano Kim Jong-Un para que ele trocasse a carranca por um leve sorriso ao lado do chanceler Sergei Lavrov, que também exibia satisfação no encontro — mas apenas com os lábios. Mostrar os dentes é, até hoje, um sinal de intimidade que pode parecer excessivo na boca de um estranho.

Jovens são mais gentis

A própria língua identifica o grau de envolvimento adequado na Rússia. E as novas gerações começam a dar sinais diferentes. Se antes era comum pedir ao garçom sem muita delicadeza o que se queria — com um “eu quero isso”, em bom som —, hoje os russos passam a usar uma expressão pouco russa: “mozhna pajalusta”, ou “poderia, por favor”, em tradução livre.

— Temos barreiras com pessoas que não conhecemos bem — explica a estudante russa Liza Chetina, de 20 anos, enquanto descansa no Parque Gorky, em Moscou : — Os russos só costumam sorrir quando sabem que podem se abrir com determinada pessoa. Se conhecemos a pessoa, aí é diferente: sorrimos e até abraçamos, às vezes. É fofo.

- Tirei um tempo para colocar os pensamentos no lugar. Cheguei a pensar se era isso mesmo que queria. Mas voltei a fazer testes para séries. O mercado de produção independente está crescendo, e isso é ótimo.

No momento, Marcela tem se dedicado a um curso profissionalizante de gastronomia.

- Sempre senti vontade de fazer, mas não tinha coragem de começar. Gosto de cozinhar, receber amigos. Prefiro fazer receitas diferentes, não as do dia a dia. Sou meio 'metida a besta' - brinca.

A boa notícia para quem vai atrás de futebol na Rússia é que o número de sorrisos tende a aumentar à medida que a Copa do Mundo avançar. E isso não tem relação só com a intimidade eventualmente conquistada com os russos, ou com o desempenho da seleção anfitriã. A psicologia até pode ajudar, mas neste caso a meteorologia explica: neste mês de junho, as temperaturas já costumam ficar acima dos 15° C em boa parte das cidades-sede do Mundial. Não parece muito para os brasileiros, mas já é um mundo de diferença para o inverno russo, que costuma registrar o mesmo número de graus — só que negativos.

‘No verão, as pessoas ficam mais otimistas’

Para o sociólogo Denis Volkov, do Centro Iuri Levada, responsável por pesquisas de opinião na Rússia há décadas, até os entrevistados ficam mais leves no verão. Até as respostas sobre popularidade de governantes ficam mais generosas entre maio e agosto.

— As pessoas passam a ser mais otimistas — resume.

Talvez haja influência da temperatura ou de alguma sensação de intimidade trazida no acesso aos dados pessoais de um passaporte, como nome e data de nascimento. O fato é que a tradicional imagem do russo carrancudo se desfaz nos primeiros minutos de contato com o guarda da fronteira do aeroporto, no minuto em que ele é surpreendido com uma pergunta sobre quem estará na final da Copa.

— Será a Rússia? — pergunta o repórter do EXTRA.

Após um breve silêncio, ele abre um sorriso e analisa:

— Não temos futebol para isso, não. Deve ser a Bélgica. Mas gostaria de assistir a uma final entre Brasil e Argentina — dispara, com simpatia, após conferir a nacionalidade do passaporte em suas mãos.

O sorriso ficou aberto, e as barreiras de entrada se abriram. Passaporte carimbado: sorria, você está na Rússia.