Copa 2018

Má educação, preconceito e ignorância: pior do Brasil é uma parcela de sua torcida

Imagens de brasileiros que assediaram russa geram revolta

Thales Machado, da Agência O Globo
A ignorância não é exclusividade de uma nação. Há ignorantes em cada país e até em cada esquina, diriam os pessimistas. Porém, com mais propriedade, dado que a burrice é mais fácil de ser compreendida quando exercida na mesma língua, na mesma cultura, falemos sobre os nossos. O pior do Brasil na Copa até agora não é o empate contra a Suíça ou o cabelo do Neymar. Evidente que não são todos, mas quem mais decepcionou foi o torcedor chato e mal educado brasileiro, simbolizado com maestria pelo grupo que assediou uma russa, aproveitando o desconhecimento dela do português, para cantar, de forma infantil, algo relacionado à cor (!) do órgão sexual da moça.
Este é só um dos casos de falta de educação e machismo de parte dos torcedores brasileiros que parece ficar mais em evidência no meio de um espírito bonito e bacana de comunhão de nações na Copa, principalmente aqui em Moscou. Ontem, em Rostov, antes do jogo, um brasileiro subiu em um banco alto (parecido com o de salva-vidas na praia) em que uma voluntária fica com um mega fone dando instruções. Ficou pedindo um beijo, com a moça claramente sem graça. Embaixo, outros brasileiros começaram a pedir "kiss! kiss! kiss!". E ensaiaram até um coro pedindo sexo. Rapidamente desistiram, e a comitiva da babaquice adentrou o estádio, às gargalhadas.
Mulher é cercada por brasileiros e assediada com música sobre a cor de seu órgão sexual
Foto: Reprodução/Redes Sociais
O perfil é bem parecido com um tipo específico de turista brasileiro que se vê algumas vezes no exterior: o que acha que pode tudo na porque está pagando, o que critica a cultura alheia porque não é como a sua, o que não aprende palavras simples como "por favor" e "obrigado" na língua onde está. É aquele que faz piada com torcedor de seleção árabe relacionando ao terrorismo, de time africano com pobreza, que acha que todo francês fede, que todo colega latino é "paraguaio". Do mesmo jeito que acha, no Brasil, que nordestino é "Paraíba". Não há fuso horário que corrija a ignorância.
Os pequenos casos de assédio, que nunca são pequenos, como nos ensinam cada dia mais as mulheres, são muitos. Aqui mesmo no hotel onde estamos. Há duas semanas hospedados, já simpatizamos e ganhamos a simpatia de alguns funcionários. Como Maria, uma jovem trainee e recepcionista que está dobrando as horas de trabalho todos os dias para atender os turistas da Copa e faturar um pouco mais. Do mesmo jeito que nos solidarizamos com ela ao vê-la na ralação do café da manhã até a madrugada, ela nos dá força no ritmo intenso de trabalho na Copa. Um grupo de brasileiros chegou na última semana. São raras as vezes, principalmente no atendimento no bar, que não ficam a elogiando fisicamente em inglês, causando constrangimento, ou em português, em claro abuso. Longe de casa, em grupo, no caos: é o ambiente natural para aparição do chato, ou para a ignorância que mora em cada um sair do armário.
— Não entendo como os brasileiros que estão para trabalhar são tão cordiais e os que torcem não — me disse ela quando abordei o assunto, em tom de desabafo após mais de 15 horas de trabalho. Foi difícil explicar que o contrário também acontece.
O ignorante torcedor brasileiro na Rússia (que destoa da maioria, mas se destaca) é aquele que, ao invés de aproveitar a troca de culturas e o bom clima de um Mundial, de conhecer um estrangeiro gente boa, diz que o "argentino tem que morrer" na primeira aparição de um hermano. Que acha que ser pentacampeão te dá algum direito de deboche ou superioridade. É a insegurança em pessoa, vestido de amarelo ou azul. É o cara que não percebe que, aos pouquinhos, vai deixando uma imagem do país espalhada por aí que não tem 7 a 1 que possa competir. E que não tem esquema tático que o salve da retranca mais difícil de passar: a da ignorância.