Futebol

Na Copa do Mundo, Brasil terá jogador que nunca atuou profissionalmente no país

Goleiro do Manchester City quebra paradigma do futebol brasileiro

Bruno Marinho, da Agência O Globo
Pela primeira vez na história da seleção em Copas do Mundo, o Brasil deverá ter em seu grupo um jogador que jamais defendeu profissionalmente um clube do país. Ederson, se nada de anormal acontecer, será o goleiro reserva de Alisson no Mundial e desembarcará na Rússia como o responsável pela quebra de um paradigma. A mais vitoriosa escola de futebol do planeta não é mais necessariamente quem forma seus melhores jogadores.
Reflexo da globalização no esporte e do abismo financeiro crescente entre os clubes brasileiros e os da Europa, a saída cada vez mais precoce de atletas é um fenômeno que se acelerou a partir dos anos 90. Para se ter uma ideia, entre aqueles que já haviam atuado fora do país na seleção de 1994, que conquistou o tetra, a debandada aconteceu com uma média de idade de 24,3 anos. Este ano, os jogadores que deverão formar o grupo de Tite deixaram o país para jogar fora com 19,6 anos, em média.
Ederson, que não sabe o que é ter o nome cantado pela torcida de um clube brasileiro, foi tentar a sorte em Portugal perto de completar 16 anos, depois de ser dispensado pelo São Paulo. Terminou sua formação nas categorias de base do Benfica. É o primeiro a romper a barreira e dificilmente será o último por caminho semelhante. Portugal é a principal porta de acesso dos jogadores brasileiros à Europa. De 143 que já entraram em campo por times da Primeira Divisão lusitana na atual temporada, 29 nunca atuaram profissionalmente na terra natal. Entre os desconhecidos da torcida brasileira pode haver o Ederson de amanhã.
Destaque no Benfica, segundo goleiro mais caro do planeta na ida para o Manchester City, Ederson entrou no radar da CBF bem antes de alcançar o estrelato internacional. Foi convocado pela primeira vez em 2014 por Alexandre Gallo, técnico da seleção brasileira sub-23 na época. Com 21 anos, era titular do pequeno Rio Ave, de Portugal, e com outros dez jogadores que atuavam fora do país, fez parte do ciclo olímpico iniciado por Gallo e finalizado por Rogério Micale, nos Jogos do Rio.
Diego Costa foi divisor de águas
A convocação cheia de “estrangeiros” não foi à toa. A partir de 2013, a CBF passou a olhar com mais carinho para os jogadores brasileiros sem histórico doméstico. O divisor de águas foi o caso Diego Costa. Depois de sete anos no futebol europeu e quase nenhuma repercussão no Brasil, o brilho do alagoano no Atlético de Madrid despertou a atenção da seleção. Convocado por Luiz Felipe Scolari, até vestiu a camisa amarela em amistosos. Mas quando teve de escolher entre o Brasil e a Espanha, optou pela seleção europeia.
Desde então que a entidade que comanda o futebol brasileiro intensificou seu trabalho de monitoramento, especialmente dos mais jovens, que inclui também um trabalho de marcação de território: regularmente profissionais da CBF viajam para se encontrar pessoalmente com brasileiros com algum destaque lá fora. O deslocamento tem uma dupla função. Além de se informar do interesse do jogador em atuar pelo Brasil, a conversa serve para mostrar que ele não está passando desapercebido, mesmo longe de casa.
"É muito importante fazer esse acompanhamento. É uma forma de fortalecermos ainda mais nossa seleção", frisou Carlos Amadeu, técnico da seleção sub-20: — Apesar de estar muito tempo fora do país, esse jogador tem sangue brasileiro. Se ele tiver interesse e for merecedor, vai ser convocado.
Amadeu voltou recentemente de viagem à Espanha, onde visitou garotos brasileiros atuam no Barcelona e no Real Madrid. Nessas andanças, não encontra somente respostas positivas. Há jogadores que não possuem mais tanto vínculo com o país onde nasceu. Não foi o caso de Ederson.

"Para o jogador brasileiro que sai sem ser reconhecido aqui, ter esse reconhecimento numa convocação para seleção é um orgulho", concluiu Amadeu.