Futebol

O esporte como luta: manifestações antirracistas que fizeram história

Em um ano marcado pela luta antirracista como 2020, o iBahia preparou uma retrospectiva sobre momentos que reafirmaram o papel do esporte como "peça-chave" nos protestos contra a discriminação racial

Redação iBahia (redacao@portalibahia.com.b)

Engana-se quem pensa que política e futebol não se misturam. Assim como a dança, as exposições de arte e as músicas, o esporte também reflete os principais problemas da sociedade e se configurou como uma importante ferramenta no combate à discriminação em diferentes momentos da história.

O recente episódio envolvendo o jogador Gerson, Mano Menezes e o meia-atacante tricolor Índio Ramírez no jogo Bahia x Flamengo, reforça a ideia de que nem os estádios são palcos de polêmicas envolvendo atitudes racistas, mas também funcionam para demonstrar repúdio contra o preconceito racial e ecoam os protestos de jogadores, torcedores e até mesmo árbitros para além dos estádios.

Em um ano marcado pela luta antirracista como 2020, o iBahia preparou uma retrospectiva sobre momentos que reafirmaram o papel do esporte como "peça-chave" nos protestos contra a discriminação racial. Confira abaixo!


1. Colin Kaepernick se ajoelha para lutar contra injustiças raciais

Em um ato de protesto, Colin Kaepernick optou por não ficar de pé durante a execução do hino dos Estados Unidos durante uma partida de pré-temporada no ano de 2016. Kaepernick ficou de joelhos e se recusou a cantá-lo. Ele também usou meias que tinham figuras de policiais simbolizados como porcos durante os jogos. "Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro e as pessoas de cor", declarou aos jornais na época.

A atitude dele inspirou outros atletas, que passaram a se ajoelhar durante os hinos em diferentes partidas. No entanto, Kaepernick escutou vaias da torcida e até mesmo criticas do então presidente Donald Trump. Após pressões políticas, o jogador está sem time desde os episódios.

2. Daniel Alves não se calou ao ser chamado de "macaco" durante partida em 2014


Um dos poucos negros a fazer parte do time do Barcelona em 2014, Daniel Alves não ficou calado ao receber ofensas racistas durante um jogo contra o Villareal, que aconteceu em 24 de abril do mesmo ano. O atleta viu um torcedor do time adversário jogar uma banana no campo, como maneira de dizer que o jogador era um macaco. Como reação, o brasileiro descascou a fruta, comeu e partiu para cobrar o escanteio.

Após a situação, o movimento "Somos todos macacos" tomou conta das redes sociais e contou com o apoio de jogadores como Neymar. “Incidente com a banana? Estou na Espanha há 11 anos e isso acontece desde o início. Você tem que rir desses retardados. Eu não sei quem jogou, mas tenho que agradecer, pois me deu energia para outros dois cruzamentos que acabaram em gol”, declarou Daniel após a partida.


3. Os panteras negras nas olimpíadas de 1968

Na década de 1960, protestos em combate ao racismo tomaram conta dos Estados Unidos. E o grupo Panteras Negras, um dos principais ligados à causa, esteve presente também nos Jogos Olímpicos de 1968 que aconteceram no México.  Na premiação dos 200m livres do atletismo nos Jogos da Cidade do México- 1968, os norte-americanos Tommie Smith e John Carlos abaixaram a cabeça e levantaram os punhos com luvas negras em cima do pódio olímpico.

Pelo gesto, que fazia referência à força negra, os dois atletas foram banidos dos jogos pelo Comitê Olímpico Internacional. Mais de 50 anos após o ocorrido, manifestações políticas em Olimpíadas ainda não são bem vistas pelo COI.



4. Atletismo contra o nazismo em 1936

O esporte como agente de protesto é mais antigo do que se imagina. Em 1936, quando ainda não existia televisão no Brasil e a rádio ainda estava ganhando força no país, manifestações de repúdio já aconteciam no esporte. Em 1936, a Europa passava por uma grave crise econômica e a ascensão de governos facistas marcaram o clima de tensão nas olimpíadas de 1936 em Berlim. E a resposta do esporte ao ditador Adolf Hitler, que pregava a crença de superioridade branca, veio nas pistas, com a vitória de Jesse Owens. O norte-americano de 23 anos venceu o astro alemão Luz Long no salto em distância e levou a medalha, bem diante dos olhos do líder nazista.

5. 'Eu não consigo respirar': o desespero de George Floyd ecoa nos estádios


Sob a frase "Eu não consigo respirar", dita por George Floyd minutos antes de ser enforcado e morto pelo policial Derek Chauvin em maio de 2020 nos EUA, manifestações antirracistas tomaram conta do esporte em todo mundo, mesmo com as paralisações causadas pela pandemia do coronavírus

Ao retornar os jogos em agosto, a NBA trouxe referências de apoio a movimentos por justiça social e contra o racismo. O nome Black Lives Matter (Vidas Negras Importam em português) foi estampado nas quadras de Orlando e nas camisetas dos jogadores. De volta aos campos, os jogadores do Botafogo se ajoelharam em apoio ao movimento durante uma partida realizada contra o Fluminense em julho. 

6. Copa do Mundo de Rúgbi como instrumento para unificar a África do Sul: Nelson Mandela


O Rúgbi foi visto por muitos como como um esporte que refletia as grandes desigualdades da África do Sul. Os Springboks, como a seleção do país era conhecida, eram considerados um símbolo de opressão pelos negros. Para mudar essa mentalidade, Nelson Mandela uniu negros e brancos em um só time. O país ganhou a disputa em uma final emocionante contra os All Blacks, a seleção da Nova Zelândia.

"Eu percebi o impacto que aquele esporte poderia causar, tamanha era a importância dele para o país. E principalmente porque o esporte fala uma língua que é entendida por todos, e em todas as partes do mundo", declarou o presidente da África no Sul na época.

7. Abandono de campo: times rivais unidos por um propósito (2020)

As manifestações antirracistas no esporte em 2020 não se restringiram somente ao assassinado de Geoge Floyd. No dia oito de dezembro de 2020, os times do Paris Saint-Germain e Istambul Basaksehir deixaram a rivalidade de lado e optaram por abandonar a partida após o auxiliar técnico do time turco, Pierre Webó, acusar o quarto árbitro do jogo, o romeno Sebastian Coltescu, de ofendê-lo com uma expressão racista.

A partida estava nos 14 minutos do primeiro tempo, com o placar ainda zerado, quando, após Webó reclamar de um lance com a arbitragem, Coltescu teria chamado o juiz principal para pedir punição ao auxiliar técnico com a frase: “Aquele preto ali. Vá lá e verifique quem é. Aquele preto ali. Não dá para agir assim”. Revoltados, os atletas do Basaksehir protestaram e decidiram abandonar o gramado. O time do PSG se juntou à causa e também abandonou o local.  “Você nunca diz ‘aquele cara branco’. Então por que quando você fala de um negro, você tem que dizer ‘aquele cara negro’?”, questionou o atacante Demba Ba do time turco.