Futebol

Série A de 2019 pode ter recorde de times nordestinos na era de pontos corridos

Região tenta emplacar cinco ou até seis times na elite do futebol brasileiro

Igor Siqueira, da Agência O Globo

Uma vitória diante de sua torcida, no estádio Rei Pelé, garantia ontem ao CSA o acesso à Série A. A derrota por 1 a 0 para o Avaí deixou um gosto de frustração, mas o clube alagoano ainda depende apenas de suas forças para se tornar mais uma equipe nordestina na elite nacional. Basta vencer o rebaixado Juventude na última rodada para se juntar ao Fortaleza, primeiro clube do Nordeste a assegurar sua vaga na Série A.

A região pode ter um recorde de representantes ano que vem: cinco ou até seis clubes. O Bahia também já está garantido. Se mais de quatro times da região estiverem na elite, será a maior participação nordestina nos pontos corridos (desde 2003).

Para dirigentes locais, a Copa do Nordeste foi um fator importante de crescimento. Mas, no caso do Fortaleza, o que valeu foi a carta branca da diretoria para a participação detalhista de Rogério Ceni no título da Série B.

O técnico se envolveu tanto no dia a dia do Fortaleza que fez uma sugestão inusitada ao pessoal da cozinha. A disposição das saladas no bufê não lhe agradava. A ideia dele foi separar cenoura em um pote, beterraba em outro, e assim sucessivamente, para que os jogadores tivessem a liberdade de escolha. Nem mesmo o azeite era mais derramado antecipadamente.

Ceni opinou em questões logísticas, de gramado e, claro, na montagem do time, que custa R$ 1,2 milhão mensais.

O histórico como goleiro deu a Ceni respaldo diante do elenco. Mas houve percalços: o vice estadual para o rival Ceará gerou forte pressão.

— Pela torcida, teria demitido. Houve um questionamento muito grande. Mas fomos firmes —diz o presidente tricolor, Marcelo Paz.

A boa campanha do Fortaleza fez saltar o programa de sócio-torcedor: a adesão foi de 12 mil para 26 mil. O time tem os 11 melhores públicos da Série B, com uma renda bruta total de R$ 6,6 milhões e uma média de 27,1 mil pagantes por jogo. A do Botafogo, por exemplo, é 10,2 mil por partida.

Isso permitiu um incentivo a mais para os jogadores, definido na reta final do primeiro turno: a diretoria aumentou a premiação por vitória na condição de líder.

—Se mantivesse o time em primeiro, estaria mais longe do quinto — diz Paz.

União e força

O CSA é presidido pelo empresário e político Rafael Tenório, do ramo de logística. Ele é o primeiro suplente do senador reeleito Renan Calheiros (MDB-AL) e declarou R$ 71 milhões de patrimônio pessoal ao TRE.

Tenório chegou ao clube em 2015, injetou dinheiro e pode conseguir a façanha de três acessos consecutivos no Brasileiro: em 2016, o alagoano subiu da Série D para a C. E não parou mais.

— Em termos estruturais e financeiros, estão dando totais condições. O treinador, Marcelo Cabo, conseguiu um grupo bom — diz o atacante Hugo Cabral.

O “charme” desse CSA é o atacante Walter, ex-Flu, Goiás e Atlético-PR. Com o conhecido problema de peso, ele só participou de 13 jogos da Série B, já que sofreu uma lesão que o tirou de campo por três meses. Walter não fez gol, mas nem por isso deixou de se meter em confusão. Em agosto, foi preso por mostrar uma arma de brinquedo a um funcionário da Eletrobrás que iria cortar a luz do apartamento dele.

— O gordinho é embaçado, joga muito, trabalha para caramba. Tem muita brincadeira com ele aqui. Disseram que ele ele foi preso pelo artigo 166: vacilação e bobagem — conta Hugo.

Desafio da logística

Além da desvantagem financeira, as enormes distâncias são os desafios para se manter na elite, diz o diretor médico do Sport, Cléber Maciel:

— Lutamos sempre contra o rebaixamento. Em 2015, viajamos o dobro do segundo time com maior deslocamento, o Goiás. Costumamos pegar voos de 8 a 9 horas.

Maciel diz que a delegação viaja sempre com pelo menos dois dias de antecedência, tática idêntica à do Ceará.

— Quando vamos para o Sul, o desgaste e a temperatura influenciam muito. A estratégia de chegar dois dias antes ameniza o choque térmico na equipe — explica João Garcia, médico do Ceará.

No Fortaleza, também para evitar o choque térmico, os treinos ocorrem só às 16h, quando a temperatura é mais amena. Os atletas gostam, porque podem dormir até mais tarde, segundo o fisiologista do clube, Edson Palomares. (Colaborou Denise Roque)