Copa 2018

Soco no ar e deslizamentos pelo gramado estão em alta na Copa

O Globo analisou as 163 comemorações de gol de 63 jogos do Mundial para chegar a esse resultado

Agência O Globo

Não há, no mundo dos esportes coletivos, nenhuma catarse que se aproxime à de um gol. À de um gol no futebol, que fique claro. Parte da explicação é estatística. Uma única partida de basquete pode ter, tranquilamente, mais de cem cestas convertidas. Em um só jogo de vôlei, supera-se com facilidade os 200 pontos disputados. Mesmo no handebol ou no polo aquático, menos populares e mais econômicos em termos de placar, raríssimos são os resultados com menos de dez tentos computados. No futebol, não. É possível vencer por 1 a 0, furando a retranca adversária no último lance, em um misto de explosão individual e de equipe — para não falar da torcida. O gol é a gênese do caos. Pulsante, eruptivo, libertador. Indissolúvel. É dessa anarquia que nasce o inevitável êxtase. Se o gol, como pregava o antigo programa de televisão, é o “grande momento do futebol”, a comemoração subsequente é irmã siamesa do ápice.



Entre a alfinetada no adversário e o recado para a família, passando pelo pique desvairado e meio aleatório pelo gramado, nada supera a liberdade de festejar uma bola na rede. Ali, tudo pode. Ou quase tudo, como souberam Xhaka e Shaqiri na Copa do Mundo da Rússia. As polêmicas mensagens políticas, que renderam multa e advertência da Fifa aos suíços, foram somente duas das 13 celebrações de gol no Mundial que incluíram provocação de algum nível aos rivais. O levantamento feito pelo GLOBO contabilizou todos os 163 tentos, espalhados por 63 jogos, marcados até a disputa pelo terceiro lugar. Em 56 ocasiões, ou praticamente um terço exato das bolas nas redes russas, a festa incluiu somente abraços e cumprimentos efusivos — volta e meia um tanto desconexos — entre os companheiros, sem nenhuma característica mais marcante.

Desconsiderando esse terço, duas comemorações, uma clássica e outra não tanto, dividem a primeira posição do ranking, surgindo em 24 casos cada (14,9% do total). Pouco pode-se acrescentar ao soco no ar parido por Pelé há quase seis décadas, quando o melhor jogador da história do futebol já era campeão mundial aos 18 anos. Depois de marcar, pelo Santos, um gol antológico contra o Juventus de São Paulo, em 2 de agosto de 1959, na Rua Javari, o futuro Rei — porém já mágico — saltou desferindo um gancho ao vento. O alvo do golpe eram as vaias que vinha recebendo das arquibancadas do time da casa. “Um desabafo”, reconheceria Pelé, muito mais tarde. Os apupos viraram palmas, e a imagem, repetida às dezenas com a camisa da seleção brasileira, acabaria imortalizada. Na Rússia, três dos oito gols marcados pelo Brasil precederam o gesto — só os anfitriões e a Bélgica igualaram-se na estatística.

Foto: Reprodução O Globo

Entender as constantes deslizadas pelo gramado, de joelhos ou de carrinho, pode ser um pouco mais difícil. Ou talvez simplesmente não haja o que problematizar — afinal, pouco existe de racional no ato de festejar a bola que ultrapassa a linha fatal, vide as não tão raras cenas atrapalhadas surgidas aí. Em cinco das 24 celebrações desse tipo, o autor do gol terminou a terraplanagem com uma travada constrangida ou uma semi-queda. Às vezes, a pixotada sequer parte daquele que balançou a rede. Que o digam o técnico Tite, despencado ao chão após o gol no fim contra a Costa Rica, ou o belga Batshuayi, que atingiu o próprio rosto com a pelota no melhor estilo pastelão.

Em seguida, a comemoração mais comum a aparecer na lista é justamente a provocativa, na qual foram incluídas a marra peculiar de alguns atletas, como os braços cruzados de Mbappé e a girada clássica de Cristiano Ronaldo, que termina com ares de, na falta de melhor expressão, “eu sou...” — bem, vocês entenderam. Depois, surge o gol apressado, que tolhe os festejos por uma necessidade de correr contra o tempo. Renato Augusto, após marcar de cabeça contra a Bélgica, buscou a bola dentro das traves e retornou no pique para o meio-campo. Não adiantou. No caminho para o círculo central, o meia beijou o escudo da seleção brasileira na camisa, gesto que apenas Guerrero repetiu pelo Peru. Também apenas duas vezes foram vistos dorsos nus — de Shaqiri e Vida, da finalista Croácia —, exagero (será mesmo?) punido com o cartão amarelo.

Não fosse o colombiano Yerry Mina, o top 5 de comemorações de gol na Rússia decerto seria alterado. Autor de três tentos no Mundial, o zagueiro bailou charmosamente após todos eles, elevando o número de celebrações coreografadas. Indo da dança à espiritualidade, houve as mesmas sete ocasiões em que o festejo foi marcado por referências divinas — da cabeça ao chão do muçulmano Mohamed Salah às mãos para o céu do russo Cheryshev. No Brasil, porém, a religião não entrou em campo.