Copa 2018

Surpresas, craques, decepções e curiosidades da 1ª rodada da Copa do Mundo

Mundial da Rússia começou com todos os ingredientes que fazem de uma Copa do Mundo o maior torneio de futebol do planeta

Sérgio Luz, da Agência O Globo
O mundial da Rússia começou com todos os ingredientes que fazem de uma Copa do Mundo o maior torneio de futebol do planeta: craques reluzentes e estrelas apagadas; zebras galopantes de causar terremoto; favoritas arrasadas como Stalingrado após o fim da batalha entre soviéticos e alemães na Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a Segunda Guerra Mundial); golaços de placa e frangos tão enormes que os anfitriões poderiam prepará-los à Kiev para alimentar toda a população de Moscou. Para quem deu uma de Yuri Gagarin e esteve fora de órbita nos últimos seis dias, segue um balanço da primeira rodada da Copa 2018.
Dia de grandeza da Mãe Rússia
Na partida de abertura contra a Arábia Saudita, os desacreditados anfitriões construíram um placar que surpreendeu até o mais cético de seus torcedores. Com uma goleada de 5 a 0 que teve direito a golaços do herói improvável Chreyshev, que saiu do banco para acertar dois chutes espetaculares nos poucos momentos em que não brigou com a bola, os russos tiveram uma jornada digna de protagonista no cenário do futebol mundial.
Ovacionado em seu curto discurso antes de a bola rola, o presidente Vladimir Putin viu sua seleção relembrar seus momentos de grandeza durante o período soviético, quando venceu uma Eurocopa (1960) e duas Olimpíadas (1956 e 1988).
Os craques
Eleito cinco vezes o melhor jogador do mundo e pentacampeão da Champions League, Cristiano Ronaldo foi o único supercraque que fez jus ao status de estrela. Num jogo em que a Espanha teve lapsos de genialidade, o camisa 7 do Real Madrid foi o "time de um homem só" e faz os três gols de Portugal no empate entre as seleções ibéricas.
Maior protagonista do futebol na última década ao lado de CR7, Lionel Messi teve uma estreia melancólica. Apesar de uma boa atuação, em jogo em que correu, marcou, lutou, driblou, chutou e jogou praticamente sozinho, o astro do Barcelona, observado in loco por ninguém mesno que Maradona, teve a chande de decidir em seus pés, mas desperdiçou o pênalti que daria a vitória para a Argentina contra a Islândia. No final, o empate de 1 a 1 teve gosto de derrota.
A foto do meião rasgado de Neymar mostrou como o genioso gênio brasileiro sofreu com a dura marcação Suíça. O jogador do PSG, no entanto, não se ajudou. Individualista, o craque do Brasil prendeu muito a bola, tentando fintas e dribles para provocar um cartão vermelho no time rival. O resultado foi uma atuação que não colaborou para o jogo coletivo, e Neymar não se destacou como seu ousado penteado.
Uns degraus abaixo dos nomes citados acima, Salah chegou ao mundial credenciado por uma temporada fenomenal pelo Liverpool, mas assistiu à derrota do Egito para o Uruguai do banco de reservas, ainda se recuperando da lesão sofrida em lance polêmico com Sergio Ramos na final da última Liga dos Campeões.
Dos centro-avantes, Cavani e Suárez foram salvos pelo gol do zagueiro Gimenez; Lewandowski passou em branco contra o Senegal; e Aguero deixou o seu contra a Islândia. Fora Ronaldo, os únicos atacantes de área que tiveram atuações de alto nível foram Diego Costa, Lukaku e Harry Kane, todos com dois gols marcados.
Supresas e zebras
Além de Cheryshev, melhor jogador da abertura, outros atletas e seleções derrubaram previsões e deixaram as zebras soltas pelas planícies, pastos, tundras e estepes do vasto território bicontinental russo.
No grupo B, que teve um erro inclassificável do justamente badalado De Gea, que engoliu um frango de manual no segundo gol de Cristiano Ronaldo contra a Espanha, quem se destacou foi o goleiro iraniano Beiranvand. Com boas defesas, o guarda-metas do Irã parou o Marrocos e garantiu os três pontos de sua equipe.
Mas a melhor atuação sob as traves da primeira rodada foi do goleiro-cineasta islandês Halldorsson, que, com defesas cinematográficas — sua performance foi tão espetacular que perdoa o trocadilho infâme —, ajudou a Islândia a segurar um heróico empate contra a Argentina, que deu oito chutes na direção do gol adversário, sem contar o pênalti cobrado por Lionel Messi e evitado pelo paredão de gelo Halldorsson.
A surpresa mais inesperada, contudo, foi o México, que passou o rolo compressor contra a atual campeã mundial Alemanha. Com uma intensidade devastadora, o time de Juan Carlos Osorio realizou um primeiro tempo perfeito e fez a terra tremer do outro lado do mundo.
Tecnologia em foco
O duelo entre França e Austrália foi histórico, apesar do futebol de qualidade duvidosa apresentado pelas seleções. Isso se deveu pela primeira utilização do árbitro de vídeos em copas do mundo, com o VAR sendo utilizado para confirmar o pênalti sofrido por Griezmann, que converteu a cobrança.
No mesmo jogo, a tecnologia voltou a ser usada com o chip de bola, que cravou o gol contra de Behich. O resultado foi 2 a 1 para a frança, mas quem brilhou foram os recursos tecnológicos de arbitragem.
Curiosidades e números
Gols de falta: foram quatro na primeira rodada — Golovin (Rússia), Cristiano Ronaldo (Portugal), Kolarov (Sérvia) e Quintero (Colômbia), superando os três marcados em toda a Copa do Mundo de 2014.
Média de gols: 2,4 por partida. Há quatro anos, no Brasil, o mundial terminou com média de 2,6 tentos por partida.
Goleada: a vitória da Rússia (5 a 0 na Arábia Saudita) foi a segunda estreia mais elástica da história das copas. A recordista é a Itália, que venceu os EUA por 7 a 1 em 1934.
Dado inglório: com sua expulsão contra o Japão, o volante Sánchez se tornou o primeiro colombiano a receber um cartão vermelho em todas as participações do país sul-americano no torneio.
Mau começo: entre as cinco seleções africanas no mundial, apenas o Senegal venceu; das equipes da América do Sul, só o Uruguai ficou com os três pontos.
Pênalti: dos 38 gols marcados, sete foram de pênalti (18,4%), e duas cobranças foram perdidas — Messi (Argentina) e Cueva (Peru).
Disparidade: único técnico negro da Copa, Aliou Cissé (Senegal) ganha o salário mais baixo entre os 32 treinadores do campeonato. Com R$ 850 mil por ano, seu contracheque é 16 vezes menor que o de Tite.
, 0x0! : o mundial da Rússia é o primeiro desde 2002 que não teve nenhum empate por zero a zero na fase inicial.
Descalibrados: os times que mais finalizaram na primeira fase foram Brasil (20 chutes), Alemanha (25) e Argentina (26), que pecaram pela falta de precisão e não venceram seus jogos.