FLICA

Lilia Schwarcz adianta ao público o que esperar da sua mesa literária na Flica

Historiadora e antropóloga estará ao lado da autora Eliana Alves Cruz na primeira mesa literária do evento, a "Cartografias do Brasil contemporâneo", no dia 24 de outubro. A Flica acontece entre os dias 24 e 27, em Cachoeira

Redação iBahia
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Uma das autoras mais aguardadas da Flica 2019, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz adiantou o que o público do evento pode esperar do seu debate com a autora Eliana Alves Cruz. As duas abrem as mesas literárias da Festa Literária Internacional de Cachoeira, que acontece entre os dias 24 e 27 de outubro, na cidade de Cachoeira, Recôncavo baiano.

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A Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica) é uma apresentação do Governo do Estado da Bahia, realização da icontent e Cali, patrocínio da Coelba via Fazcultura e Governo do Estado, apoio institucional da Rede Bahia e apoio da Prefeitura Municipal de Cachoeira. 

"Eu vou pensar na concepção mais filosófica da ideia de cartografias, de você pensar que nós cartografamos o nosso pensamento. E também, como historiadora que eu sou, em geral as pessoas acreditam que a história só lida com mudança, mas a história tem que lidar com aquilo que a reitera, com aquilo que fica", reflete.

Recentemente ela lançou o livro "Sobre o autoritarismo brasileiro", pela Companhia das Letras. Além de dividir com o público a discussão sobre a construção da obra, ela pontua temas relevantes que vai abordar durante a mesa literária, como escravidão, racismo, corrupção e intolerância.

Sobre escravidão e racismo
"Meu livro, por exemplo, abordo algumas dessas estruturas que nós não conseguimos vencer. Não é uma coincidência que começo com o tema da escravidão e do racismo. Não que eu acho que o racismo de hoje seja um mero legado da escravidão do passado, porque senão vamos adotar uma posição muito passiva, muita calma. Ou seja, culpa do passado.

Mas eu acredito que não se escapa dessa história curta, são pouco mais de 100 anos. Até pouco tempo tínhamos escravizados e não se escapa das estruturas que constroem a escravidão, que são estruturas de mando e obediência, que são estruturas raciais, muito consolidadas na lógica brasileira contemporânea. Por isso que eu falo de racismo estrutural e racismo institucional. Também sobre as estruturas do mandonismo, que correspondem as bases do nosso projeto colonial, a ideia de um mandão local que faz todo papel de justiça, de polícia, papel religioso. Enfim, isso continua no nosso Brasil quando ainda temos grandes mandões locais. Na nossa última eleição, por exemplo, ao invés de diminuir a bancada dos parentes, ela aumentou. Que novo Brasil é esse? E a bandeira era justamente ao contrário."

Sobre corrupção e desigualdade social
"Um dos temas é a corrupção também. Sempre fez parte da nossa história, apesar de eu combater a ideia de que a corrupção é endêmica. Não é. Não tem nada no DNA dos brasileiros que diga que somos corruptos. É preciso que a gente reflita sobre isso. E também a questão da desigualdade social que nos tolhe, da maneira que nos tolhe. O Brasil é um país muito desigual. Não conseguimos vencer a desigualdade social, nós não conseguimos dedicar uma parte consistente do nosso PIB para educação. Não teremos uma democracia enquanto formos desiguais."

Intolerância e autoritarismo
"A novidade é intolerância. Não estou falando que o Brasil mudou, o Brasil sempre foi autoritário. Sempre foi intolerante. Mas o que aconteceu agora? É que esses novos governos, essas democraduras, tem avalizado comportamentos muito intolerantes. E comportamentos muito racistas, muito misóginos. É a figura do cobrador vingador. Eu perdi, agora você vai pagar."

Lilia Schwarcz também destaca a importância de intelectuais da academia se debruçarem sobre temas contemporâneos e democratizar e publicizar debates. "Para mim é da maior importância. Eu estudei em escola pública. Fiz universidade pública e acho que nós estamos vivendo um momento que é de crise econômica, mas também um momento de crise de valores, crise cultural, crise educacional. É importante que a academia cumpra este papel também. A academia tem seus rituais próprios, sua estrutura própria que é preciso manter. Eu devo tudo à academia, mas acho que nesses momentos a população pede de nós um pouco de fala pública, dar respostas, iluminar cenários, iluminar possibilidades.

Ela também explica sua relação com Cachoeira, palco da Flica e cidade história do Recôncavo baiano. "Já estive em Cachoeira, tenho uma relação muito forte com o pessoal da universidade do Recôncavo (UFRB). Vocês tem um grupo de professores sensacional, um grupo que tem trabalhado com muita propriedade sobre a escravidão na região e também mais sobre questões raciais. Então acho que a Flica vai continuar com a vocação de questionamento, de expor os muitos Brasis. E um outro Brasil dentro do Brasil que é a Bahia, que é um tema da maior relevância".