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Papo de Galo: Pelo fim do gol

Futebol vive uma epidemia de falta de criatividade e transforma qualquer um em ‘gol’, premiando artilheiros de 6 gols e criando fantasias para agradar massas carentes de ídolos

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Gabigol, único que se salva. Gibagol. Apodigol. Alecgol. Jordygol. O futebol vive uma epidemia de falta de criatividade e transforma qualquer um em ‘gol’, premiando artilheiros de 6 gols e criando fantasias para agradar massas carentes de ídolos.

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Antes, tenha sua calma, apressado senhor, desenxabida senhora e espere eu molhar o bico. Porque, concordando com Falcão, o d’O Rappa, não precisa ser de placa, eu quero ver gol. Quero pimba na gorduchinha (alô, Osmar Santos) em profusão e vê-la nascer (beijo, Silvio Mendes) lá no filó (a bênção, Fernando Sasso). Este gol que eu quero o fim é um que dói na alma pela excruciante falta de criatividade: é transformar qualquer pé-rapado em “gol”.

Antigamente, lá no antanho do guaraná de rolha, craques ou vinham com apelido de berço, ou ganhavam alcunhas magnânimas. Leônidas virou o Diamante Negro. Edson e Pelé são personalidades distintas: o Edson não levaria multidões aos estádios. Garrincha, Pepe, Roberto Dinamite, Bebeto. Artilheiros não sofriam o mau gosto do “gol” na alcunha. Qual seria a reação de Romário se fosse chamado de “Golmário”?

Tomemos como exemplo o maior artilheiro em atividade do futebol brasileiro. Gabriel Barbosa, o 9 flamenguista, foi rebatizado de Gabigol, prontamente incorporado como marca registrada. É dos únicos que honram o gol. Porque, carente de ídolos perenes, clubes e torcedores tentam fabricar artificialmente os tais, apelando para goleadores de escassas glórias.

No Bahia, a massa ainda não decidiu se é melhor Gibagol ou Golberto. Qual o problema com Gilberto, afinal? O Vitória, na miúda, tentou emplacar, sem insistir muito, num Jordygol. Valhei-me. No CSA, absurdo geral, Alecsandro é Alecgol e Apodi virou Apodigol. Credo e cruz.

Difícil dizer quando essa crise de criatividade virou definitiva. Há não muito tempo, a magnética cantava, galhofeira diante do impossível, que Obina era melhor que Eto’o. Alguns incorporam brincadeiras rítmicas para incorporar nomes consagrados do estrangeiro. Borges, centroavante são-paulino dos anos Muricy, era o Didier Drogborges. Percebe a cadência? Marinho, folclórico ponta, era chamado de Di Marinho, numa clara sacanagem com o alagoano, muito mais jogador que o canhotinho argentino.

Teve também a fase assassina: Matador, Brocador, Ceifador. Felizmente, acabou.

Agora, na velocidade das redes sociais, no pré-moldado em foto ostentação cuidadosamente selecionada pela equipe de marketing para publicar no Instagram, tudo é “gol”. Vemos a espontaneidade se esvair. Um galinho de Quintino não teria vez, um Divino não se criaria. Porque o acesso instantâneo à imagem eliminou a necessidade de se criar imagens fantásticas. Tanto pelo contrário: um Gustagol só conhece bicuda pra lateral.

Sejam, pois, reinstaurados Quarentinhas e César Malucos. Que se abram as portas para o renascimento da safra de Estados de nascimento. Que se reestabeleça a busca por harmonia e melodia no apelido esdrúxulo. Que se dê espaço ao humor zombeteiro.

Se o gol é grande momento do futebol – embora um drible entre as pernas levante causa própria -, “gol” no nome de jogador extrai a alegria em nome do marketingue de meia-tigela. Eu quero ver gol no campo e nomes que levem este mais-que-esporte à lua, desenhando sonhos e fantasias. Ou então mude-se o nome pra “futegol” e se dê o golpe definitivo da mudernagem, para grorificação, com ‘r’ mesmo, de grória (alô, Franciel) dos sem-imaginação.

Gabriel Galo é escritor, empresário, administrador, baiano, torcedor do Vitória. Não necessariamente nesta ordem.

Artigo publicado originalmente em: www.papodegalo.com.br


Artigo reproduzido exclusivamente no site Futebol S/A mediante autorização prévia do autor.