Futebol S/A

Por favor, Pare! Agora...sr Juiz, Pare! Agora...

Futebol S/A
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Vou te fazer uma confissão, mas que fique só entre nós: eu tinha dúvidas...

Pensei muito sobre esse assunto, ouvi opiniões contra e a favor, afinal é possível encontrar argumentos sólidos dos dois lados.

Foto: Divulgação / CBF

Veja bem: quem não se comoveu ou não se solidarizou após assistir à entrevista do goleiro Marcão do Sergipe, ao falar de forma sincera e direta sobre o drama que a paralisação trará na vida da grande maioria dos pequenos clubes brasileiros ? Como não se sensibilizar com o imenso impacto que essa parada certamente trará para a vida de atletas, funcionários e suas famílias em todo o Brasil ? Afinal, o futebol de elite que chega até as nossas casas pelos mais diversos canais de transmissão não reflete a pobreza e a precariedade financeira com as quais convive a imensa maioria dos nossos clubes que habitam a parte de baixo do iceberg futebol.

Li e ouvi também outras linhas de pensamento defendendo a continuidade do futebol a partir de dois pontos básicos: nesse momento tão triste e difícil no nosso país, o futebol serviria como uma fonte de diversão e entretenimento, além de ser um forte estímulo para que as pessoas fiquem nas suas casas ao assistirem aos jogos; além disso, a qualidade dos protocolos de segurança e a quantidade dos testes fornecidos e executados pela CBF seriam adequados para proteger e não aumentar a exposição ao risco das pessoas envolvidas nas atividades do futebol.

Não posso mentir e dizer que não pensei nesses argumentos. Que não os levei em consideração. Que eles não me fizeram refletir, pensar, e até mesmo em alguns momentos reconhecer neles algum fundo de verdade. Talvez eles até sejam mesmo – em parte – pertinentes. Sabe aqueles momentos na vida em que você acredita em alguma coisa apenas porque deseja que isso seja verdade ? Pois é ...

Mas aí vem o médico Miguel Nicolelis e dá uma entrevista arrasadora e definitiva a Marcelo Barreto no programa Redação SporTV. Se você como eu também tinha algumas dúvidas sobre essa questão, ou até mesmo se você já tem as suas certezas, assista ao vídeo da entrevista. Assista, por favor. O link segue no final desse artigo.

As ideias e argumentos trazidos por ele são tão fortes que fica até difícil contra argumentar. É a visão de um médico com carreira internacionalmente respeitada, envolvido há muitos anos em atividades científicas e em pesquisas de ponta, acostumado a construir seu raciocínio e suas conclusões a partir da análise de fatos e dados. E é também a visão de um apaixonado por futebol, torcedor fanático do Palmeiras, que entende a imensa e complexa dimensão que o futebol tem nas nossas vidas. Em um raro encontro promovido pelo caos que vivemos, a razão do cientista e a paixão do torcedor se encontram e olham para a mesma direção: é preciso parar.

Não há mais o que discutir, não há mais o que esperar. O futebol precisa parar agora porque tem a obrigação moral de dar sua contribuição para que o Brasil recupere um pouco da civilidade que ainda nos resta. Nas palavras de Marcelo Azevedo, “o Estado para a população e a CBF para os clubes e atletas devem ser e agir como os instrumentos de suporte social para o enfrentamento desta crise”. 

Precisamos parar de tratar com naturalidade a tragédia que estamos vivendo. Não é possível chorar e gritar gol ao mesmo tempo. Agora é hora de resolver as coisas que realmente importam na nossa vida. Como sempre, a História contada no futuro será apenas uma forma de mostrar como nossas decisões refletem os valores e prioridades que temos como sociedade. O tempo dirá se escolhemos corretamente.

Tom Assmar