Futebol S/A

Tira Nonato

Carinho que a torcida do Bahia tem hoje por Nonato contrasta com a forte rejeição que ele tinha de boa parte da torcida nas arquibancadas quando envergava a camisa tricolor

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Na última terça-feira, o Aparecidense, de Goiás, eliminou o Botafogo carioca da Copa do Brasil, vencendo partida única por 2×1. Um dos artilheiros da noite foi Nonato, 38 anos. Aquele mesmo revelado pelo Bahia. Centroavante que já soma, no ano, 5 gols. Ver o “todo-duro” marcando gol novamente (e a este momento da temporada tendo mais tentos anotados que todo o Bahia em 2018) provocou reações em muitos torcedores do Bahia. Já se percebe uma mobilização pela volta ao atleta ao tricolor, nem que seja “pra encerrar a carreira”. (Já querem até dar fim na carreira do rapaz). Quase um do “povo o clamor.”

O carinho que a torcida do Bahia tem hoje por Nonato (a maioria das manifestações a que tenho acesso, pelo menos) contrasta com a forte rejeição que ele tinha de boa parte da torcida nas arquibancadas quando envergava a camisa tricolor. Sétimo maior artilheiro da história do Bahia, com 125 gols, artilheiro da Copa do Brasil 2003, Bicampeão do Nordeste marcando 5 gols nas partidas das finais (2001 foi jogo único), salvador do rebaixamento de 2002 marcando 3 gols contra a Portuguesa, em Mogi-Mirim, na última rodada do brasileiro daquele ano, Nonato nunca foi unanimidade na claque do Bahia. Quem frequentou a Fonte Nova durante suas passagens pelo Esquadrão sabe bem do que estou falando. E uma das mais curiosas histórias sobre Nonato que eu vivi na arquibancada foi protagonizada por um grande amigo meu, Igor Madureira.

Igor nunca foi fã de Nonato. Implicava sempre com a falta de mobilidade e com os gols perdidos. Eu sempre fui defensor de Nonato. E a gente sempre discutia.

Em 2002 lembro de uma partida contra a Ponte Preta, na Fonte Nova, que o Bahia saiu na frente e mesmo assim Igor estava infernizando Nonato aos berros (detalhe: do anel superior). O Bahia saiu na frente, a Ponte empatou, e enquanto ele culpava o “ Cara de Trakinas”, que é atacante, pelo gol sofrido, discutindo comigo, o próprio Nonato desempatava a partida de cabeça. De quase “saírmos na mão” para as juras de amor eterno foram menos de dois minutos.

Porém, foi no Brasileiro de 2001 que Igor passou dos limites. Fonte Nova lotada para o BaVi da 1ª fase. Evaristo de Macedo técnico do Bahia. Fomos de galera, natural, e na turma havia uma divisão de opiniões sobre Nonato. Mas nada chegava perto daquele “amor fraternal” de Igor pelo centroavante tricolor. O cara tava “de veneta”.

Quando viu a escalação, naquele placar preto de luzes amarelas da Fonte Nova, anunciar Nonato, Igor berrou: “ Ô Evaristo!! Tira Nonato!”

Olhei pra ele demonstrando minha reprovação, mas fiquei calado. Como Igor é corpulento, berrando daquele jeito ficou impossível ser discreto. Chamou a atenção de toda aquela região entre a Baconha e a Bamor, trecho que era acessado pela subida da Cantina 23 na antiga Fonte Nova. Anel superior.

Jogo começou, o Bahia todo travado. Em menos de 5 minutos Igor já tinha berrado umas três vezes seu mantra: “ Ô Evaristo, tira Nonato!!!!”

No sexto minuto, o fumo entrou: no rebote de um escanteio, o Vitória abriu o placar com o zagueiro Valdson, batendo bola colocada no canto de Emerson, na trave do Dique. Vitória 1×0, adivinha pra quem sobrou?

Igor fechou circuito e passou a repetir sua frase quase que programaticamente: “Ô Evaristo, tira Nonato!!!” . Eu já tinha xingado ele, mandando ele calar a boca, que a bola nem chegava no ataque, mas admito que diante daquela fúria do meu amigo de infância era melhor me calar na maior parte do tempo. Alguns torcedores ao redor olhavam assustados, outros tentavam apoiá-lo, mas a devoção à causa que aos olhos de Igor beirava o “murismo” inibia até os apoiadores.

Igor não desrespeitava Nonato. Não xingava, não ofendia. Mas pedia enlouquecidamente sua saída do jogo. Evaristo também entrou na reta: “Velho pirracento”, “vou lá pra trás do banco encher o saco do velho” eram algumas expressões vociferadas pelo meu nobre amigo. (Naquela época a gente podia mudar de setor na Fonte livremente durante os jogos)

Intervalo, 1×0 pro Vitória, foi um pânico. Ele olhava pra mim, para nossos amigos e com olhos em adrenalina, tentava explicar porque Nonato não tinha que estar em campo: “ Sem mobilidade a defesa do Vitória não toma gol.”, “ Time não fez nada” , “ Quando a bola chega ele perde, mas nem chegou lá”, etc.

Imagine a intensidade do grito quando, na volta do intervalo, Igor viu Nonato andando lentamente, de cabeça baixa em direção ao centro do gramado, se posicionando no meio de campo para atacar a meta do Dique. A esperança de ser atendido no intervalo tinha acabado. “ Evaristooooooo, TIRA NONAAAAAAAAAAAATOOO”.

Quem não conhecia Igor com certeza achava que ele estava chapado. Ou que era caso de desobsessão. O mantra continuava. Bola rolou, segundo tempo meio morno, o Bahia um pouco mais agressivo, porém, o Vitória ainda segurava o placar com algum conforto. Determinados momentos do jogo, mesmo com quase 60 mil pessoas na Fonte Nova, a única voz que se escutava era a de Igor berrando “ Evaristo, tira Nonato!!” . Ele começou a ganhar adeptos mais convencidos da causa.

Eis que por volta dos 15 minutos o improvável aconteceu:


Róbson, o Robgol, ganhou na velocidade ( é isso mesmo, na velocidade) do zagueiro Eloi, do Vitória, na lateral-esquerda da grande área. Avançou e cruzou entre o goleiro e o que restava da zaga rubro-negra. Surge Nonato, livre, em tão confortável posição pra fazer o gol que já bateu pra meta com os braços pra cima. Ele usa a perna direita, empurra a bola pra barriga da rede do Dique e explode geral na Fonte Nova. 1×1. GOL DE NONATO.

Foi a primeira vez que ouvi mais “ Foi Nonato” do que “ Gooool” durante aquele momento de comemoração e euforia. Toda a arquibancada ao nosso redor correu pra cima de Igor, pra abraçar, pra dizer que foi Nonato. Igor abraçava todo mundo, ria, berrava, olhava pra cima, abraça outro indivíduo que vinha avisá-lo do autor do gol. Eu, óbvio, também abracei ele berrando em seu ouvido, em vez de gol, “FOI NONAAAATO”. Depois do nirvana de um gol no clássico, vários caras ao redor mandavam chamar Igor pra dizer que foi Nonato. Deu pra ter noção de como Igor tinha provocado as atenções. Fiquei até “cabreiro” de rolar um mais exaltado pra provocar uma briga, mas não aconteceu. A alegria do gol do Bahia não deu espaço pra nada disso, todo mundo cobrou a conta de Igor com afeto.

Quando a poeira da comemoração baixou, as baterias pararam de tocar, que o jogo deu aquela amornada, Igor se levantou, com a camisa na mão, tomando aquele resto de sol na cara e berrou com muita intensidade: “ Ô NONATO!!!! TIRA EVARISTO!!!”

Gargalhadas se espalharam pelo setor. BaVi terminou 1×1. Igor jamais deixou de pegar no pé de Nonato. Por outro lado, nunca mais repetiu aquela nível performance.

Felizmente. Ou não